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O “angelismo” e o “direitomismo”. Por Nelson Ascher

Ao longo do dia — na verdade, das tardes e das madrugadas —, troco e-mails com amigos sobre isso e aquilo. Alguns não podem ser divulgados de maneira nenhuma pelas mais diversas razões, embora, como vocês sabem, não exista mais no Brasil sigilo telefônico ou de correspondência. Como dizem alguns santos e iluminados, a Constituição […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 18h36 - Publicado em 13 nov 2008, 15h45
Ao longo do dia — na verdade, das tardes e das madrugadas —, troco e-mails com amigos sobre isso e aquilo. Alguns não podem ser divulgados de maneira nenhuma pelas mais diversas razões, embora, como vocês sabem, não exista mais no Brasil sigilo telefônico ou de correspondência. Como dizem alguns santos e iluminados, a Constituição não passa de um pedaço de papel, não é mesmo? Uma fatia dos que deveriam responder pela lei aderiu ao padrão do jagunço Corisco: “Mais fortes são os poderes do povo”. Adiante.

Outras mensagens, no entanto, podem e devem ser divulgadas, como esta outra que me manda Nelson Ascher, conhecido de vocês. Comentando um e-mail anterior que ele me mandou, alguns leitores afirmaram coisas como: “Sim, ele trata de questões relevantes, mas não dá para concordar com tudo…” A questão é saber se o que está sendo dito ilumina ou não ângulos novos do problema.

No e-mail abaixo, Nelson trata de duas tendências do pensamento — o “angelismo” e o “direitomismo”. E quais são as suas implicações de natureza moral e ética. De modo brilhante, ele demonstra que o relativismo do nosso tempo é um absolutismo. Nelson indaga, ao fim, se concordo com ele. A única coisa que lamento no texto abaixo é o fato de ele não ter sido escrito por mim. Acompanhem.
*
Reinaldo,
creio que é fácil achar uma das chaves para o relativismo moral, social, civilizacional etc, que insiste em equiparar os terroristas às sociedades democráticas que se defendem deles. Esse relativismo é, curiosamente, como você verá, um absolutismo. Quem costuma discutir isso de modo mais refinado são os franceses, que, inclusive, cunharam alguns termos muito úteis como, por exemplo, os que poderiam ser traduzidos como”angelismo” e “direitomismo” (não de tomismo, mas de “direitos-do-homem”).

Os “direitomistas” são, de fato, absolutistas para os quais aqueles que, por acidente, violam ocasionalmente um direito humano secundário não se diferenciam em nada daqueles que o fazem programática, sistematicamente e em grande escala. Segundo eles, o “perfeito” é, de fato, inimigo do “bom”, e eles não aceitam nada que não seja perfeito. A lógica do mal menor lhes é totalmente estranha, talvez abominável. São eles que, atualmente, empenham-se em provar que os aliados, por terem bombardeado Dresden ou Hiroxima, são tão ruins, talvez piores, do que os nazistas e os militaristas japoneses. Se alguém não é santo, então é demônio — e os demônios são, afinal, todos iguais.

Para eles, se argumentamos que, “Calma lá, Guantánamo e Abu Ghraib são ruins, mas nem sequer se aproximam de verdadeiras máquinas de extermínio como Auschwitz ou o Khmer Vermelho”, aí nós não apenas estamos inocentando — aliás, tomando o partido de tudo de mau que possa ter ocorrido em Guantánamo —, como passamos imediatamente a ser partidários da tortura, defensores do totalitarismo etc. E, como é mais fácil — e dá mais ibope — nos criticar, quem acaba saindo pior no retrato é justamente quem busca nuançar as coisas, argumentar. Bom mesmo é assumir uma posição absolutista e se colocar na posição de juiz do mundo.

Afinal, é mais fácil nos criticar (e aos EUA, Reino Unido, Israel etc) do que chamar a atenção para o que fazem os pobres fundamentalistas islâmicos. Estes, mesmo que tenham defeitos, podem ser absolvidos por:
(1) serem vítimas das circunstâncias que os obrigam a agir como agem e
(2) estarem, ao fim e ao cabo, lutando em nome de objetivos louváveis: o antiimperialismo ou algo assim.
E tem mais: fundamentalistas, diga-se de passagem, nunca estão muito abertos a críticas. E, como o Khomeini no caso do Rushdie, não reconhecem jurisdições nacionais, normas internacionais etc.

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Há, de resto, um clima moral e intelectual em nossos tempos que não apenas permite como encoraja tal absolutismo. Praticamente ninguém ousa correr o risco de ser considerado “malvado”: todos querem ser julgados bonzinhos, verdadeiros anjos. Tratar-se-ia de uma espécie de “auto-angelização”.

Em suma: o “angelismo”, o “direitomismo” e a correção política estão aí, a rigor, justamente para impedir que sejam discutidas as complicações morais envolvidas em qualquer ação (ou inação) humana. Basta repetir o discurso dominante, e a pessoa está desobrigada de fazer quaisquer escolhas éticas, de pesar causas e conseqüências, de comparar caminhos ruins a caminhos piores (mas nenhum deles ideal ou perfeito).

Daí que, quando surge um fenômeno novo, como o terrorismo islâmico em escala monstruosa, as pessoas corram e busquem se refugiar no abrigo de categorias já familiares — antiimperialismo, luta de classes, revolta dos miseráveis, nacionalismo libertador etc — e que podem, portanto, ser equacionadas segundo os preceitos do discurso politicamente correto.

Não sei se você concorda com isso, mas minha impressão é a de que a maioria (e os intelectuais em especial) encara com absoluto horror a necessidade de pensar a respeito dos dilemas éticos.
gds abs
Nelson

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Pô, tenho um orgulho danado dos meus amigos!

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