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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

No Jornal Nacional, o “enrolation” de Dilma sobre o aborto; o curioso é que argumenta a favor, mas depois se diz contra…

A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, concedeu nesta segunda uma entrevista ao Jornal Nacional. Duas questões se destacaram: a sua posição sobre o aborto e os escândalos envolvendo Erenice Guerra. No segundo caso, tirou o corpo fora e preferiu atacar o tucano José Serra. Segundo disse, o governo a que ele pertence mandou […]

Por Reinaldo Azevedo 18 out 2010, 23h11 | Atualizado em 31 jul 2020, 13h54
No Jornal Nacional, o “enrolation” de Dilma sobre o aborto; o curioso é que argumenta a favor, mas depois se diz contra… Priorize VEJA no Google

A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, concedeu nesta segunda uma entrevista ao Jornal Nacional. Duas questões se destacaram: a sua posição sobre o aborto e os escândalos envolvendo Erenice Guerra. No segundo caso, tirou o corpo fora e preferiu atacar o tucano José Serra. Segundo disse, o governo a que ele pertence mandou investigar tudo etc, e tal, já os tucanos não teriam investigado Paulo Souza pelo suposto sumiço de recursos de campanha. É a velha tática de acusar para não ter de se defender. Hoje, dando mostras de quão disposta está a investigar, a Casa Civil prorrogou por mais 30 dias o apuração das lambanças da Erenice — fica para depois da eleição. É a disposição para investigar de que fala Dilma. Quero me ater ao “enrolation” sobre o aborto. Reproduzo perguntas e respostas, segundo a transcrição do G1, e volto em seguida. Destaco alguns trechos em “vermelhito” (que é o negrito do vermelho, hehe):

William Bonner : Candidata, quando terminou o primeiro turno, a senhora e alguns dos seus assessores, enfim, partidários do Partido dos Trabalhadores chegaram a dizer que aquela discussão, aquela polêmica sobe o aborto tinha motivado essa decisão do eleitor no fim do primeiro turno. Essa polêmica toda, essa discussão não teria se dado por causa de sua mudança de posição sobre a legislação referente ao aborto? Eu digo isso porque pessoalmente a senhora sempre se manifestou contrária ao aborto. O que a senhora fez em algumas entrevistas, na revista “Marie Claire”, na “Folha de S.Paulo”, foi dizer que era favorável à mudança da legislação, à legalização do aborto. Não teria sido mais natural num país tolerante como é o nosso que a senhora tivesse admitido publicamente essa mudança de opinião a respeito?

Dilma Rousseff: Veja bem, Bonner, eu acredito que nessa história do aborto houve muita confusão. Há uma diferença, Bonner, entre a posição individual minha como cidadã: eu sou contra o aborto. Sou contra o aborto porque eu acho uma violência contra a mulher, e não acredito que mulher alguma é a favor do aborto. Acho que as pessoas que recorrem ao aborto o fazem em situação-limite. O que é que acontece com o presidente da República? Ele não pode fingir que não existem milhares de mulheres, principalmente, até milhões, pelos dados até publicados pelo [jornal O] “Globo” são milhões de mulheres, três milhões e meio de mulheres que recorrem ao aborto. Nós não podemos fingir que essas mulheres não existem. E mais: não podemos fingir que essas mulheres, elas fazem isso em situações muito precárias, e provoca, recorrer ao aborto provoca risco de vida e em alguns casos a morte. Pois bem, a minha posição sempre foi a seguinte: você não pode colocar essas mulheres, prender essas mulheres. Não se trata de prender as mulheres, se trata de cuidar delas. Porque você não vai deixar três e meio milhões de mulheres ameaçadas a sua saúde. Então são duas posições diferentes. Quando a gente diz que o aborto não é um caso de polícia, no Brasil ele é um caso de saúde pública, o que que nós estamos falando? Nós estamos falando o seguinte: para prevenir para que não haja o aborto, primeira questão, nós temos que tratar a quantidade imensa de gestantes adolescentes que recorrem ao aborto ou porque têm medo da família, da família não aceitar, ou porque já não têm laços familiares efetivos que podem garantir a ela o apoio pra poder ter a criança.

William Bonner: Agora, na semana passada, a senhora divulgou um documento em que a senhora afirmou o compromisso de não propor nenhuma modificação na legislação. Algumas pessoas que defendem o aborto, né, como uma questão de saúde pública, como a senhora mesma já fez no passado, entenderam que esse seu compromisso seria um recuo, uma concessão, digamos assim, excessiva aos religiosos, que entra em contradição com algo que a senhora mesma defendeu. A senhora dizia: é uma questão de saúde pública e é um absurdo, a senhora disse isso para a “Folha de S.Paulo”, é um absurdo que não se legalize a questão. Daí a questão. A senhora não vê essa contradição?

Dilma Rousseff: Não, não vejo. Sabe por que, Bonner? Porque ninguém em sã consciência vai propor prender 3,5 milhões e meio de mulheres. Até porque tem um problema concreto, prático. Eu não concordo com a mudança na legislação. A legislação prevê aborto em dois casos. Prevê no caso de estupro e de risco de vida pra mulher. Então há, necessariamente, uma forma de a gente conduzir isso sem alteração. E acredito que um processo de alteração, por exemplo, por plebiscito, seria muito ruim. Porque dividiria o Brasil de ponta a ponta. Não levaria a uma forma de, eu diria, de acordo e de consenso. Pelo contrário: os países que fizeram isso tiveram péssimas experiências. Então eu fiz uma carta que é uma carta a todos os religiosos, mas é uma carta pública ao povo brasileiro no sentido de que acredito que a legislação.

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Fátima Bernardes: Pode ser mantida…

Dilma Rousseff: Pode ser mantida, e não é necessário alterar os termos da legislação.

Voltei
As palavras fazem sentido — menos, parece, quando ditas por Dilma Rousseff. Alguém entendeu alguma coisa? Se ela defende a legsilação como está, então ela é contra a descriminação do aborto. Como ela já havia se posicionado a favor, então estamos diante de uma contradição — contradição que, no entanto, ela não reconhece!!! O que dá para entender dessa maçaroca de anacolutos, solecismos e sintaxe em desalinho?  A gente percebe que, de fato, ela argumenta a favor da descriminação — afinal, é o que realmente pensa —, mas se diz contrária porque aprendeu que, eleitoralmente, é o mais prudente.

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O que me resta? Homenageá-la com suas próprias palavras, mais uma vez.

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