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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Não falta caráter a certa crônica política; é coisa de mau-caratismo mesmo! Ou: E as alianças de Dilma? São, por acaso, definidas pela ideologia?

Ah, que coisa bonitinha! Que coisa encantadora! De súbito, percebo uma estridência moralista, inclusive em certa crônica política, com o fato de o PTB ter deixado a base do governo Dilma e decidido apoiar a candidatura de Aécio Neves, do PSDB, à Presidência. Notem que falo em “crônica política”, não em análise. A crônica, mesmo […]

Por Reinaldo Azevedo 25 jun 2014, 16h52 | Atualizado em 31 jul 2020, 03h36
Não falta caráter a certa crônica política; é coisa de mau-caratismo mesmo! Ou: E as alianças de Dilma? São, por acaso, definidas pela ideologia? Priorize VEJA no Google

Ah, que coisa bonitinha! Que coisa encantadora! De súbito, percebo uma estridência moralista, inclusive em certa crônica política, com o fato de o PTB ter deixado a base do governo Dilma e decidido apoiar a candidatura de Aécio Neves, do PSDB, à Presidência. Notem que falo em “crônica política”, não em análise. A crônica, mesmo quando boa — e não é o caso desta de que falo, pode ser ligeira, atendo-se, digamos, a aspectos epiteliais da realidade; um cronista pode falar, assim, dessas “coisas de pele”, que não requerem o concurso do cérebro.

“Oh, o PTB não está indo para o lado de Aécio por ideologia”, escreve um. “É falta de caráter”, diz um outro. É mesmo? O PP vai apoiar a presidente Dilma. É por ideologia? O tal PROS, que nem existe (é uma invenção do Planalto), vai apoiar a presidente Dilma. É por ideologia? Calma! Vamos direito ao ponto: o PMDB, oficialmente, vai apoiar a presidente Dilma. É por ideologia? E o PR? Por pressão do partido, Dilma acaba de tirar o ministro César Borges da pasta, deslocando-o para a Secretaria dos Portos. Volta ao cargo Paulo Sérgio Passos. Alô, cronistas! Por que aquela plêiade de patriotas do PR quer tanto o Ministério dos Transportes? Para ver triunfar a sua ideologia? Foram os escândalos nessa pasta, diga-se, que deram início àquilo a que se chamou “faxina” e que levaram a popularidade de Dilma a mais de 70%. Bons tempos aqueles para a soberana, né?

Deixem-me ver, então, se entendi: quando Dilma Rousseff e o PT fazem acordo até com o capeta, chama-se a isso de inteligência e de pragmatismo. Eu já cansei de ler análises, a maioria delas ditada por Gilberto Carvalho, que me adora (“Olá, ministro, lembra de mim?”), segundo a qual não importa com quem o PT se junte; o importante é que o partido mantenha a hegemonia da aliança. Se, no entanto, um partido da base decide apoiar o candidato de oposição, ah, isso é, então, inaceitável! Isso é oportunismo! Os mais furibundos chegam a dizer que se trata de falta de caráter.

Aí, tentando parecer profunda, não enigmática, Dilma afirma que “a esperteza tem vida curta”. É claro que é uma alusão ao PTB e àqueles que não estão dispostos a fazer a sua campanha. Convenha, não é, governante? Mais “esperto” ainda é ficar com o Planalto, que tem benesses a oferecer — como o Ministério dos Transportes, por exemplo. Os “espertos” sempre conseguem lucrar mais negociando com quem está no poder.

O PP acaba de bater o martelo: vai com Dilma mesmo! É por ideologia? É por excesso de caráter que o partido herdeiro direto da Arena se junta com a herdeira direta da VAR-Palmares? Ora, vão plantar batatas!

Houve um tempo em que o campo, sem trocadilho, do impressionismo, do chute, da torcida nada velada, do fígado era a crônica esportiva. Felizmente, com o tempo, ela melhorou bastante. Está cada vez mais técnica — ainda que não possa abrir mão, e eu acho correto, de lidar com um pouco de paixão. Já a análise política, convertida em crônica, com a chegada do PT ao poder, foi cedendo cada vez mais terreno àqueles vícios antes atribuídos aos boleiros. E faz sentido, né? Um comentador de futebol luta para que a sua escolha pessoal não seja percebida pelo leitor, internauta, ouvinte ou telespectador. Já os comentadores da política fazem questão de demonstrar a seus juízes do PT que eles são boas pessoas.

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