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MARTA, ALCKMIN E KASSAB NA TV

Vi o horário eleitoral gratuito — o de São Paulo. Os muitos leitores de outras cidades hão de me perdoar o texto. Há uma coisa curiosa no programa dos três principais candidatos — Marta Suplicy (PT), Geraldo Alckmin (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM): à sua moda, todos fazem propostas, vamos dizer, conservadoras e de continuidade. […]

Por Reinaldo Azevedo
Atualizado em 31 jul 2020, 19h06 - Publicado em 21 ago 2008, 06h37
Vi o horário eleitoral gratuito — o de São Paulo. Os muitos leitores de outras cidades hão de me perdoar o texto. Há uma coisa curiosa no programa dos três principais candidatos — Marta Suplicy (PT), Geraldo Alckmin (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM): à sua moda, todos fazem propostas, vamos dizer, conservadoras e de continuidade. Os três oferecem, em programas tecnicamente muito bem-feitos, “mais do seu mesmo” — embora esses três “mesmos”, no que concerne à cidade, sejam bastante distintos. Já que é pra falar de passado, todos ali têm história e têm herança. Já chego lá. Antes, algumas observações sobre escolhas dos marqueteiros que procuram influir na esfera de sentimentos do eleitor, que é, sim, coisa importante.

Marta vem com dois apelos fortes — Lula e a sua biografia privada. O primeiro dispensa comentários. O segundo investe na fábula da “menina rica” (sim, muitas fotos da lourinha de olhos azuis…) que se interessou pelos humildes. O locutor diz isto mesmo: ela nasceu rica e decidiu se dedicar aos pobres. Será preciso explicar por que essa construção é essencialmente autoritária? Será preciso evidenciar por que ela depreda a política? Marta transforma os eleitores pobres em seus devedores. O que ela espera como paga? O voto. Ao mesmo tempo, já deu para notar, busca-se uma candidata com um olhar mais camarada, tentando desfazer a fama de arrogante, que lhe garante a liderança na rejeição. Ah, sim: o jingle não poupa a inculta e bela:“Na rua é o que o povo diz/Com Marta, vamos ser feliz.Rima, mas não é solução. Conviria adequar o predicativo ao sujeito, né? Ou se troca o “Vamos” por “a gente vai”. A coisa pode continuar mentirosa, mas a língua sai prestigiada.

A campanha de Gilberto Kassab, nessa esfera puramente conceitual, busca atacar aquela que é a sua principal fragilidade: a rigor, dos três, ele é o menos experiente em cargos executivos, além de jamais ter disputado uma eleição majoritária. É apresentado como um novato que, não obstante, já tem um sólido currículo de obras na cidade. Embora apareça conversando com moradores humildes da cidade, a tônica está no “tocador de obras”, que trabalha duro, que está presente nos canteiros, vigiando a execução — é o prefeito da “fazeção”, como diria Sérgio Motta se vivo fosse. Ancora, ainda, o seu desempenho como prefeito na figura do agora governador José Serra, de quem foi vice.

Alckmin, à diferença dos outros dois, nunca foi prefeito e não pode, pois, exibir as obras que fez no cargo. Então restou-lhe apelar, também ele, ao papel de “realizador”, só que no governo de São Paulo, na companhia de Mário Covas. O espírito da coisa: se teve um bom desempenho como governador, será um prefeito ainda melhor. Serra deu um depoimento em seu favor, bastante à vontade — ao menos no vídeo —, a exemplo de Lula em defesa de Marta. “Geraldo” continua a investir no papel de bom moço, pai de família exemplar, homem sincero com origem no interior, amigo das pessoas — um sujeito que é mesmo papo-firme. Em alguém em quem esse papel não fosse convincente, seria um desastre. Mas ele convence vestindo esse figurino. É, sim, a cara dele, e aí está um de seus ativos. Se eu tivesse de fazer uma advertência, seria esta: o papel é mais adequado a uma disputa estadual. As origens interioranas da capital (refiro-me ao interior do estado) são apenas uma pálida memória. Infelizmente.

Os três programas estão, sem dúvida, muito bem-feitos. Se vão mexer no quadro eleitoral, é o que vamos ver. Quem, em tese ao menos, mais tem a ganhar com a oportunidade de mostrar o que fez é Kassab. Há um óbvio descolamento entre a sua aprovação como prefeito e os números das pesquisas. Em parceria com Serra, ele tem, de fato, um notável currículo de obras — que não vem seguido de uma penca de escândalos, não é mesmo, Paulo Maluf?

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Todos sabem que eu não aprovo o duda-mendoncismo que tomou conta das campanhas eleitorais no Brasil: “Fale bem de você, ignore o outro, jamais faça campanha negativa”. Isso ajuda? Ô… Ajuda quem está na frente! E só! A desconstrução bem-feita de um discurso, mesmo na campanha eleitoral, é parte da educação política. Em 2006, quando Alckmin se lembrou de confrontar Lula, não dava mais tempo. Não sei se John McCain vai operar o quase milagre de vencer Barck Obama. Se conseguir — hoje o republicano está na frente —, é porque tem evidenciado, de forma competente, as fragilidades do adversário. Ou Obama seguiria adiante como um reformador adjetivo de mundos…

Com mais tempo, a campanha de Kassab ensaiou alguns ataques à gestão de Marta — Alckmin a ignorou. No primeiro caso, ainda é pouco; no segundo, é um erro. O programa da petista diz que ela sabe fazer obras. Os dois túneis que construiu na reta final de mandato tiveram de ser fechados para reforma: enchiam d’água. A campanha pede que a deixemos trabalhar. A cidade deixou, e ela entregou para seu sucessor uma dívida bilionária de curto prazo. Não é questão de gosto ou de ideologia: é questão de fato. E ela está na frente.

Vamos ver: a campanha está no começo. Ainda é a fase de testar estratégias. A que poupa os adversários de sua história e de sua biografia política, estou convicto, é uma besteira. Especialmente quando se está atrás.

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