Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês
Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Foi-se a última esperança que Obama tinha de não agir. Ou: Uma guerra com a assessoria de imprensa da Al Jazeera, a primaveril emissora de um tirano

O presidente dos EUA, Barack Obama, talvez alimentasse a esperança secreta de que os republicanos acabariam por criar problemas, negando-lhe a licença para atacar a Síria. Assim, a exemplo dos britânicos, ele teria um bom motivo interno para não fazê-lo e não iria à guerra (“guerra” não, “resposta”, como querem em democratês…) sem a autorização […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 05h28 - Publicado em 3 set 2013, 15h59

O presidente dos EUA, Barack Obama, talvez alimentasse a esperança secreta de que os republicanos acabariam por criar problemas, negando-lhe a licença para atacar a Síria. Assim, a exemplo dos britânicos, ele teria um bom motivo interno para não fazê-lo e não iria à guerra (“guerra” não, “resposta”, como querem em democratês…) sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU, o que ele não terá porque China e Rússia têm direito de veto e não apoiam o ataque. Só para lembrar: quando Gerge W. Bush (e aliados) atacou o Iraque, tinha a autorização do Congresso, como terá Obama, mas não o sinal verde da ONU. Tudo igual. Só que, desta feita, prefere-se chamar a guerra de não guerra. Saddam não tinha as armas químicas, é verdade — ou, ao menos, não foram encontradas. Mas, àquela altura, entre outras delicadezas, tinha eliminado bem uns 200 mil curdos, inclusive com… armas químicas. A guerra ao Iraque é considerada, até hoje, quase por unanimidade, um dos maiores erros cometidos pelos EUA.

Se o Congresso resistisse, talvez Obama encontrasse uma desculpa para não agir. Agora, terá de atacar. Respondam: a Líbia está pior ou melhor, sob o comando dos carniceiros atuais, do que estava sob o comando do antigo carniceiro? Pois é. O país está coalhado de terroristas. EUA e França dizem ter a certeza de que o ataque químico foi perpetrado pelas forças de Bashar Al Assad. É o que confere a licença moral para atacar. O primado moral tem de lidar, sem dúvida, com as causas, mas também tem de levar em conta as consequências.

Quais serão? O ataque, que será chamado de “reação”, a esta altura, é certo. Se for para depor o tirano, muito bem! Aí, então, será preciso cuidar do tempo pós-Assad. Na hora do famoso “leve-me a seu líder”, quem vai aparecer à mesa para o diálogo? Os “moderados” foram os primeiros a ser postos fora do jogo no Egito. A realidade é outra, sei muito bem. O que estou a indagar é onde se encontra o espaço da moderação. A Síria, a exemplo da Líbia, vive uma guerra civil. As posições tendem a se extremar ainda mais.

Um ataque pontual, que só enfraqueça Assad, pode ter consequências catastróficas. Enquanto ele não cair — e muita gente imaginava (Obama também) que isso aconteceria rapidinho, o que se revelou um erro grave —, vai virar cachorro louco. Convém ainda não confundir — apesar do ódio que os sunitas devotam ao ditador sírio — a repulsa do establishment dos governos árabes a Assad com o sentimento das ruas árabes. Tão logo comecem a vir a público as primeiras fotos das vítimas dos ataques das forças americanas e, suponho, francesas, mais uma vez, repete-se aquela lógica do “martírio de um povo” imposto pelas forças do “mal”.

É bem verdade que Assad não é lá muito bom de mídia, o que não é o caso de seus adversários. Como é mesmo? Na guerra, a primeira vítima é sempre a verdade. E as versões triunfantes podem ter um impacto definitivo. Os rebeldes contam com uma máquina de propagada fantástica, que atende pelo nome de Al Jazera, a emissora do Catar, propriedade de um tirano, que se tornou porta-voz da dita “Primavera”. Alguns vídeos escandalosamente montados, como o reencontro de um pai com seu filho — enquanto, ao fundo, homens gritam que “Alá é Grande” e satanizam Assad —, têm milhões de acessos em coisa de horas e circulam mundo afora. Até agora, não se viram atrocidades cometidas pelas forças de oposição. Os terroristas que integram as forças que querem derrubar Assad devem ser como professores de educação moral e cívica.

De volta ao ponto: só pode haver um sentido moral no sofrimento adicional — porque haverá — que Obama vai impingir aos sírios: derrubar Bashar Al Assad, arrancá-lo de lá, dar-lhe um pé no traseiro, prendê-lo se possível. Depois, é preciso se organizar para impedir que milícias assassinas de apoderem do aparelho de estado. Sim, porque é preciso levar isto em conta: a Síria tinha, ao menos, um estado razoavelmente organizado. Sem ele, a vida vira um inferno permanente. Uma simples retaliação vai punir o povo, não Assad. Derrubá-lo e entregar a população à sanha dos grupos armados corresponde a eliminar um Assad para multiplicá-lo por 100. Por isso repudio essa história de uma guerra que não ousa dizer seu nome. Melhor que as coisas sejam feitas às claras: EUA e França estão aderindo a um lado da guerra civil. Ponto final. Se isso estiver claro e for admitido com clareza, podem e devem se responsabilizar por aquilo que vier depois.

Continua após a publicidade

Publicidade

Essa é uma matéria exclusiva para assinantes. Se já é assinante, entre aqui. Assine para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Essa é uma matéria fechada para assinantes e não identificamos permissão de acesso na sua conta. Para tentar entrar com outro usuário, clique aqui ou adquira uma assinatura na oferta abaixo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique. Assine VEJA.

Impressa + Digital

Plano completo da VEJA! Acesso ilimitado aos conteúdos exclusivos em todos formatos: revista impressa, site com notícias 24h e revista digital no app, para celular e tablet.

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Receba semanalmente VEJA impressa mais Acesso imediato às edições digitais no App.

a partir de R$ 39,90/mês

Digital

Plano ilimitado para você que gosta de acompanhar diariamente os conteúdos exclusivos de VEJA no site, com notícias 24h e ter acesso a edição digital no app, para celular e tablet.

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Edições da Veja liberadas no App de maneira imediata.

a partir de R$ 19,90/mês