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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

“Eu, Eu, Eu/ o Zé se danou!/ Não rima, mas dá na mesma!”. Ou: Dilma evita fim precoce do seu governo

Os fatos são os fatos. Na sexta-feira, no primeiro dia do 4º Congresso do PT, parte do comando da legenda, sob a influência de José Dirceu, armou uma ursada para Dilma Rousseff. Colou o conspirador de hotel e sacristia — roubava hóstias no começo da carreira — na presidente; seus aliados, espalhados entre os delegados […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 10h52 - Publicado em 5 set 2011, 07h57

Os fatos são os fatos. Na sexta-feira, no primeiro dia do 4º Congresso do PT, parte do comando da legenda, sob a influência de José Dirceu, armou uma ursada para Dilma Rousseff. Colou o conspirador de hotel e sacristia — roubava hóstias no começo da carreira — na presidente; seus aliados, espalhados entre os delegados do partido, praticamente constrangeram Dilma a saudá-lo. E ela não teve jeito: deu um alô ao companheiro, aquele mesmo que atua como chefe de um ministro de estado e de um presidente de estatal — à revelia dela. No mesmo dia, o presidente da CUT propôs uma moção de desagravo ao “Zé”, o que foi aclamado pelos presentes e contou com o endosso de Luiz Inácio Apedeuta da Silva. Já estava acertado também, àquela altura, que a resolução do encontro faria uma crítica severa à imprensa e cobraria com dureza o “controle democrático” da mídia. Por “controle democrático” deve-se entender “censura”.

Muito bem! O PT escreveu a sua longa e mistificadora resolução — eu a comento no post abaixo. Lá está, sim, a crítica violenta e boçal à  liberdade de imprensa, mas com um certo apelo ao futuro. O partido  quer a “mobilização da sociedade”. Em vez daquele tom de ameaça e de confronto que chegou a ser anunciado, há um certo sotaque catequista, que apela por um novo “marco regulatório”, em nome da “democratização”.  A maçaroca de críticas que lá vai já é de todos conhecida. Se não mudou de idéia — e não consta que tenha mudado —, o ministro Paulo Bernardo (Comunicações) já deixou claro que o proposta de Franklin Martins, ex-ministro da Supressão da Verdade, está aposentada.

Mas a maior derrota de Zé Dirceu foi outra. O partido simplesmente desistiu de redigir uma moção de apoio ao companheiro. A coisa se limitou àquela pajelança da sexta-feira, quando foi saudado como “guerreiro/ do povo brasileiro”. É… Prudentes esses petistas, não é mesmo? Sabem como é… Quando um sujeito monta um governo paralelo, com aquele frenético entra-e-sai de convivas, nunca se sabe o que pode vir à tona; sempre há o risco de informações novas escaparem dos corredores enigmáticos de um hotel e ganharem a opinião pública, expondo o partido a vexames novos. A moção de apoio significaria um endosso formal às atividades do “consultor de empresas privadas” sem que se conheça, digamos assim, o conjunto de sua obra.

O que aconteceu entre aquela sexta e este domingo? Fatos são fatos. Dilma detestou o modo como tentaram enredá-la na chicana pró-Dirceu, sem que tivesse, dada a organização do evento, como escapar. Gostou menos ainda de ver a sua imagem nos jornais ao lado daquele que é chamado de “chefe de organização criminosa” pela Procuradoria Geral da República, como se endossasse seus métodos e a desenvoltura com que, lobista que é, se move em Brasília, encontrando-se com políticos e com figuras do primeiro escalão do governo. A presidente fez saber que considera que esse tipo de prática, seja este ou não o objetivo do “consultor”, fere a sua autoridade e a torna uma espécie de cúmplice dos seus métodos. Goste-se ou não do estilo Dilma, seja ele eficiente ou não, o fato é que ela é centralizadora. E a lambança no gabinete paralelo do Zé estava fora de controle. A presidente ainda aguarda do presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, por exemplo, uma boa explicação para ter ido ao encontro de Dirceu.

Dilma também fez saber que reprovava a idéia da moção de apoio, especialmente porque ela foi uma das convidadas de honra do evento, e isso faria supor que estava endossando o documento, como se a Presidência da República, como instituição — e não apenas o partido — estivesse se mobilizando em defesa de uma prática que ela considerou inaceitável. E faz sentido: afinal, os principais prejudicados pelo gabinete paralelo de Dirceu são, nesta ordem, o Brasil e o próprio governo. Todos sabem o que penso sobre o governo Dilma, e já apontei aqui muitas de suas inconsistências, mas é evidente que, nesse particular — e na celeuma gerada pela reportagem de VEJA —, ela agiu com correção.

No post que escrevi ontem de manhã, observei:
“Figurões do partido como Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, e Ideli Salvatti, ministra das Relações Institucionais, defenderam ontem [sábado] a ‘regulamentação da mídia’. Não custa notar que, durante a campanha – e mesmo depois de eleita -, Dilma Rousseff repudiou qualquer forma de controle. Ministros exercem cargos de confiança e falam pela presidente. Chegou a hora de enquadrá-los ou de confessar um estelionato.”

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Parece que, no que concerne à imprensa e à patuscada organizada por Dirceu, Dilma preferiu o enquadramento: bateu a mão na mesa — simbolicamente ao menos… — e deixou claro que a moção de apoio ao ex-ladrão de hóstias era inaceitável e que continua a repudiar o “controle da mídia”, conforme querem setores do partido, muito especialmente aqueles sob influência direta de Lula e, obviamente, de Dirceu. Insistisse o partido nas escolhas originalmente feitas, ela teria de deixar clara a sua discordância.

Crítica bucéfala à “faxina”
A própria Dilma já havia feito restrições ao termo “faxina”, afirmando que a verdadeira faxina é acabar com a pobreza etc e tal. Mas não gostou do tom empregado no primeiro dia do Congresso, quando os petistas atribuíram à pressão da “mídia” e das oposições decisões que foram tomadas por ela. Entendeu que o partido usava o ataque aos adversários de sempre para, na verdade, criticar escolhas que eram suas  — de resto, bem-vistas pela sociedade.

Dilma evitou, assim, o fim precoce do seu governo. Caso se tornasse cúmplice — e a palavra seria essa! — da moção de apoio a Dirceu, estaria simplesmente incentivando a anarquia, o “cada-um-faça-como-lhe-der-na-telha”. Que garantia teria de que outros ministros e chefes de estatais não passassem a despachar regularmente com lobistas os mais variados? Se pode com Dirceu, por que não com outros?

O ataque vigarista à imprensa, aos meios de comunicação, é, evidentemente, uma armadilha que o PT preparou à presidente. Lula governou o Brasil numa situação muito mais favorável do que Dilma — além, como se sabe, do privilégio da inimputabilidade que lhe concederam amplas camadas do país. Ela não conta com esse “ativo”. Os motivos são os mais diversos, não entrarei nisso agora. O fato é que, dado o conjunto da obra, sucedê-lo seria uma tarefa complicada para qualquer um, da situação ou da oposição — e a “herança maldita” (pela qual ela também é responsável, como admitiu) é parte desse problema.

Pois bem. Dilma já reparou que mesmo os setores da imprensa mais críticos ao seu governo apóiam, e nem poderia ser diferente, o que parece ser a disposição de punir o malfeito. O que o PT estava cobrando da presidente é que jogasse fora um de seus ativos, que partisse para o confronto, para proteger um tipo como… José Dirceu!!! Fatos são fatos. Ainda que a presidente tenha feito, na sexta, um discurso cantando as glórias de Lula, abestada não é: o Babalorixá de Banânia atuou em parceria com Dirceu para empurrá-la para o buraco, e ela sabe disso.

Repitam comigo:
“Eu, eu, eu, o Zé se danou”.
Não rima nem é ainda uma solução, mas é um avanço.

PS – Mas nada de ilusões, hein? Eles são fascistas e não desistem nunca!

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