Entre a naturalização da tragédia e o terrorismo escatológico
(leia primeiro o post abaixo) Por que as vítimas do Rio estão sozinhas, afogadas também pela cobertura lacrimejante do jornalismo? Há vários fatores que concorrem para isso. O primeiro, evidentemente, remete à hegemonia conquistada pelo petismo (e as forças a ele associadas), que paralisa a inteligência e transforma repórteres em militantes, ainda que muitos deles […]
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Por que as vítimas do Rio estão sozinhas, afogadas também pela cobertura lacrimejante do jornalismo? Há vários fatores que concorrem para isso. O primeiro, evidentemente, remete à hegemonia conquistada pelo petismo (e as forças a ele associadas), que paralisa a inteligência e transforma repórteres em militantes, ainda que muitos deles nem mesmo se dêem conta do que estão fazendo.
Destaque-se também que a imprensa foi alvo do lulo-petismo durante oito anos. O governo não discute um projeto de “controle da mídia” — e Paulo Bernardo andou dizendo coisas ambíguas a respeito — por acaso. Há um esforço nítido de muitos veículos de comunicação para demonstrar que não tem preconceitos contra o PT, Dilma etc. O trabalho da imprensa não é provar coisa nenhuma para governos. Caso se ocupe disso, abandona o fato em benefício da administração da própria reputação. Assistimos, no mais das vezes, a um espetáculo grotesco de administrativismo noticioso.
Essas duas variáveis impedem boa parte do jornalismo de fazer direito o seu trabalho, que consiste também em verificar se a administração pública cumpre a sua função. Em lugar do juízo crítico, temos uma misto de naturalização e escatologia da tragédia. Explico-me.
O desastre no Rio aconteceu porque, de fato, choveu além da conta. Fosse o padrão de chuva aquele que se viu, não haveria tantas casas em áreas irregulares, de risco. Não haveria tempo de construir 20 moradias porque as dez primeiras já teriam descido ribanceira abaixo. Assim, é evidente que se deu ali um dos eventos com que a natureza volta e meia nos premia, lembrando sempre que só existe civilização porque nos organizamos contra ela, o que os ecologistas no miolo mole não vão entender nunca!
Assim, há mesmo uma dimensão natural do desastre, pelo qual ninguém pode ser culpado — no Rio, em São Paulo ou na Austrália (bem, é claro que, em Kassab e nos tucanos, sempre que possível, o jornalismo deve bater…). Nota à margem: a naturalização do desastre, no entanto, não tem nada a ver com a matéria de que trato aqui: a incompetência no socorro às vítimas. Sigamos.
Junto com essa “naturalização”, vem a abordagem escatológica, que apela ao fim dos tempos. Aí entra a militância dos crentes da Igreja do Aquecimento Global dos Santos dos Últimos Dias. Tudo aquilo a que assistimos seria conseqüência das nossas (dos humanos) maldades com a natureza, que estaria se vingando de todas as coisas erradas que fizemos — em certo sentido, até a penicilina tem a sua dose de culpa, né? Não foi desenvolvida no vácuo; também ela responde por parte do carbono produzido, suponho…
E assim caminha o jornalismo, entre a ideologia, a naturalização do desastre e a escatologia. Não poderia haver melhor conjunção para os incompetentes. Como escrevo aqui há dois dias, até a proposta de atualização do obsoleto Código Florestal entrou na mira da militância. Sérgio Cabral e Dilma escaparam ilesos até agora de qualquer abordagem crítica, mas o deputado Aldo Rebelo (PC do B), o relator da proposta, foi acusado pela Folha e por Miriam Leitão de fazer um texto que predisporia o Brasil a novas tragédias, como se a que vemos aí não tivesse acontecido com o código que há…
A religião do Aquecimento Global só é racionalista na hora de conseguir recursos para financiar o seu “evangelho”.







