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Enem: Os principais problemas da prova de redação vão continuar

Mais ou menos com a dedicação com que o entomologista disseca e estuda um inseto, sou um dissecador do estilo petista de governar, entendem? Por certo, aquele especialista não tem gosto por aquelas coisas. Mas alguém precisa fazê-lo, e a ciência como um todo se beneficia com sua dedicação. Esse é mais ou menos o […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 06h17 - Publicado em 8 Maio 2013, 21h08

Mais ou menos com a dedicação com que o entomologista disseca e estuda um inseto, sou um dissecador do estilo petista de governar, entendem? Por certo, aquele especialista não tem gosto por aquelas coisas. Mas alguém precisa fazê-lo, e a ciência como um todo se beneficia com sua dedicação. Esse é mais ou menos o caminho que me leva a dissecar o jeito petista de governar. Vejam, por exemplo, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Ele veio a público para anunciar maior seriedade na na correção das redações do Enem. Então tá. Basta, no entanto, que a gente reflita cinco minutos a respeito para se espantar um tanto.

Já chego lá. Um dos principais absurdos do Enem segue e seguirá intocado: é o fato de a prova de redação valer 50% do exame como um todo. Trata-se de uma grave distorção porque submete o conhecimento objetivo ao juízo de valor. Ainda que as questões do Enem, nas áreas de humanidades e língua portuguesa (eles usam uns nomes modernosos…), sejam ruins de doer (e me dizem que a situação não é muito melhor no que antes se chamava “Ciências Exatas”), ainda assim, persiste um núcleo objetivo de saber. Pois bem. Um único texto redigido pelo candidato (chamo assim porque estamos falando de um megavestibular!) tem o mesmo peso do resto da prova, que abrange as demais disciplinas. Escrever bem é mais importante do que saber matemática, física e química? Eu não acho! Isso é resquício de país que passou pelo beletrismo cretino. Lá vou eu comprar, de novo, uma briga dos diabos, mas não dou a mínima: o Brasil precisa mais de engenheiros que eventualmente troquem o “s” pelo “z” do que de exímios prosélitos que não sabem quanto é 7 vezes 9. E isso quer dizer que, sim, faltam-nos os engenheiros, com ou sem domínio pleno da ortografia. E abundam os prosélitos que não sabem nem a tabuada. Esse peso excessivo da redação é resquício da militância supostamente “humanista” na nossa educação. De resto, os temas propostos são também testes ideológicos. Mil vezes prefiro a companhia dos que sabem matemática à dos idiotas bem-intencionados. Sigamos.

Mercadante, com aquele seu estilão murro na mesa, vem a público para anunciar que, nas redações, não mais serão permitidas inserções estranhas ao tema. Ficaram famosos os casos de candidatos que, no corpo do texto, reproduziram receita de miojo e o hino do Palmeiras. Pergunta de um ser lógico: quer dizer que, antes, elas eram permitidas? O que Mercadante está tentando esconder é outra coisa: é evidente que as redações nem mesmo foram… lidas! E há a hipótese pior: se foram, o avaliador achou que eram inserções aceitáveis! Mas ai do aluno que “desrespeitar os direitos humanos”! Isso pode zerar a prova. O critério permanece. O que é “desrespeito aos direitos humanos”? Ora, é aquilo que o examinador achar que é. No ano passado, o Enem inventou um certo fluxo imigratório para o Brasil “no século 21” (só se haviam consumido 12% do século!!!) e cobrava que os candidatos perorassem a respeito. Pobre daquele que eventualmente defendeu que o país combata a imigração ilegal… Certamente se deu mal por suspeita de xenofobia. Escolas afora, os professores já têm instruído os estudantes a se alinhar sempre à esquerda…

Fui um pouco para a margem. Volto para o leito. Mercadante também afirmou que, a partir de agora, a nota 1.000 só vai para textos que exibam domínio perfeito também do idioma. Ufa! Finalmente, em 2013, o país descobre o que é nota máxima e para que serve. Que bom! No ano passado, redações que traziam coisas como “rasoavel”, “enchergar” e “trousse” mereceram nota máxima. O MEC, então, explicou por quê: “Um texto pode apresentar eventuais erros de grafia, mas pode ser rico em sua organização sintática, revelando um excelente domínio das estruturas da língua portuguesa”. Entendi! Até acho que sim. Mas por que não, então, atribuir, sei lá, 800 pontos, 900 que sejam? Afinal, o domínio da ortografia é uma das “competências” que se exigem, certo? Mas quê! Mereceram foi mil mesmo. Agora Mercadante nos diz que nota máxima é para quem atinge o… máximo! Ufa! Espero que ele não acabe revogando o irrevogável…

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“Ué, mas não foi você mesmo que disse preferir o engenheiro com erro de ortografia ao idiota bem-intencionado?” Eu mesmo! Mas quem disse que eu daria nota máxima à redação do tal engenheiro?

O ministro anunciou que haverá maior rigor para contratar corretores e avaliar seu desempenho. Vamos ver. As redações continuarão a ser avaliadas por duas pessoas. Uma discrepância superior a 100 pontos (não mais a 200) ensejará uma terceira correção. Pois é.. As redações que ganharam nota máxima, mesmo com aqueles descalabros, mereceram a mesma consideração de dois corretores…

“Ora, Reinaldo, as providências tomadas tornam a coisa melhor ou pior do que antes?” A resposta é óbvia: “melhor”. Mas também evidenciam a ruindade de antes. Insisto, ademais, que os principais problemas permanecem intocados: a) o peso excessivo que a prova de redação tem no Enem (o que, de resto, cria distorções que impedem uma correta avaliação da eficiência das escolas); b) a ideologização do exame, especialmente da prova de redação.

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