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Enem – Prova de redação vira peneira ideológica

Na VEJA.com: A redação do Enem pode manter-se como um foco de problemas e contestação na edição 2012 do exame federal. O Ministério da Educação (MEC) aumentou o número de profissionais que se dedicam à correção dos textos dissertativos e também publicou um manual com orientações detalhadas aos candidatos. Contudo, a avaliação ainda carece de […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 07h30 - Publicado em 1 nov 2012, 13h33

Na VEJA.com:
A redação do Enem pode manter-se como um foco de problemas e contestação na edição 2012 do exame federal. O Ministério da Educação (MEC) aumentou o número de profissionais que se dedicam à correção dos textos dissertativos e também publicou um manual com orientações detalhadas aos candidatos. Contudo, a avaliação ainda carece de critérios claros e se apoia em parâmetros morais, afirmam especialistas.

“Corrigir uma prova aberta é muito difícil. Quando isso envolve milhões de textos, é inviável que o trabalho seja bem executado sem parâmetros objetivos de análise”, afirma a consultora em educação Ilona Becskeházy. Para ela, a formulação do guia do participante, caderno de orientações feito pelo MEC, é um avanço, mas não será suficiente para diminuir as discrepâncias de avaliação entre os mais de 4.000 corretores que trabalharão nos 5,7 milhões de textos.

Além disso, Ilona afirma que o fato de o MEC manter a exigência de “respeito aos direitos humanos” causará mais controvérsias. “O politicamente incorreto é muito subjetivo. O que é inadmissível para um corretor pode ser plenamente aceitável para outro”, diz. Tradicionalmente, as redações do Enem abordam temas ligados à cidadania e à participação social, exigindo do aluno um posicionamento diante da situação apresentada nos textos de apoio.

Uma das corretoras da prova, que falou sob condição de anonimato, concorda com a consultora. “Há situações bem pontuais e fáceis, como o caso de um texto dizendo que negros e nordestinos devam ser assassinados. Isso, sem dúvida, desrespeita os direitos humanos. Mas há casos bem sutis e treinamento nenhum consegue uniformizar a percepção do corretor.” Segundo a corretora, a orientação da banca é para que se dê nota zero a um texto que defenda que o dever das mulheres é cuidar da casa. “Mas eu não invalidaria, porque isso é uma questão cultural que precisa ser repensada na sociedade, não desqualificando a argumentação do candidato.”

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O professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Rogério Chociay, que foi corretor dos vestibulares da Fundação Vunesp e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), também discorda do parâmetro adotado pelo MEC. “A democracia é o direito à opinião. Minha tarefa é corrigir sua capacidade de se expressar, concorde ou não com seus argumentos.”

Além disso, acrescenta Chociay, um outro ponto deve ser repensado: a exigência de que o candidato apresente uma proposta de intervenção para um problema social. “É exigência demais para um jovem de 18 anos e uma competência que não é cobrada em outros vestibulares. Se o país em séculos não conseguiu resolver a questão da violência, como pedir que uma pessoa que soube do tema naquela hora consiga ter uma solução plausível?” Mesmo que tenha, uma boa ideia para um corretor pode ser ruim para outro. “E daí crescem as chances de um mesmo texto receber nota zero ou mil.”

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