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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

É FEIA, É BOBA E MORA LONGE, MAS O QUE CANTA!!!

Depois que o “Entre Aspas” for ao ar — hoje, às 23h, na GloboNews —, aí falo mais a respeito do fenômeno, digamos, político Susan Boyle — resisti bravamente a entrar no assunto neste blog, mas não houve jeito. Tratarei agora de outros aspectos. Afirmei que aquela senhora é uma “óbvia criação da equipe de […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 17h43 - Publicado em 30 abr 2009, 16h46
Depois que o “Entre Aspas” for ao ar — hoje, às 23h, na GloboNews —, aí falo mais a respeito do fenômeno, digamos, político Susan Boyle — resisti bravamente a entrar no assunto neste blog, mas não houve jeito. Tratarei agora de outros aspectos.

Afirmei que aquela senhora é uma “óbvia criação da equipe de produção”, e muitos me perguntam como posso afirmar isso etc. Não, não estou fazendo jornalismo “de denúncia” ou “reportagem investigativa”. Eu já disse que só investigo advérbios de modo… Santo Deus! Viram direito o vídeo? Tudo feito para comover e, depois, surpreender. Somos levados a acreditar que ela é realmente uma pobre tonta, uma perdedora, que é feia e mora longe. Antes que abra a boca, ficamos sabendo:

1 – que está desempregada;
2 – que mora sozinha, em companhia de um gato;
3 – que nunca foi beijada (depois teria dito que era brincadeira);
4 – anuncia, como quem diz um absurdo, que fará a platéia “estremecer”;
5 – diz que vem de uma cidade pequena;
6 – rebola e faz uns trejeitos ao conversar com o júri, o que sugere estar no limite da sanidade;
7 – é tratada com agressividade pelo rapaz do júri;
8 – ele pergunta por que ela, aos 47 anos (ou 48, como dissera ela no início), ainda não é profissional se canta desde os 12. E ela dá a resposta que é emblema do truque: “Porque não me deram oportunidade”;
9 – diz que sua referência é Elaine Page, para incredulidade geral;
10 – começa a cantar, e então descobrimos que aquela feia e boba que mora longe se vira bem;
11 – dois rapazes que fazem o papel de animadores do programa ou coisa parecida dizem explicitamente: “Você não esperava por isso”;
12- a loura bela do júri, que aguarda o início da apresentação com os braços jogados atrás da nunca, num sinal visível de “estou entediada”, tem, então, uma reação de espanto. E é ela quem faz o mea-culpa.
13 – aprovada, um dos membros do júri diz que ela já pode voltar para o seu vilarejo de cabeça erguida.

É o roteiro perfeito das fábulas infantis. Acreditar que alguém como aquela senhora chega a se apresentar para o júri sem que se saiba se ela canta bem ou não está um pouco além da ingenuidade. Mas a TV conta com a “boa-fé” do público, não é?, ou produziria outra coisa. Ninguém pensou na maquiagem de Susan, em seu cabelo desgrenhado e ressecado, em sua roupa cafona. Tudo pensando para causar o choque e nos levar a um ensinamento moral: “Vejam como é feio o preconceito!”. E então supomos que Susan Boyle só não é Elaine Page — sem maquiagem, ela até lembra a Page maquiada em Cats, se é que me entendem… — por culpa nossa, da “sociedade”, incapaz de enxergar além das aparências ou dos próprios preconceitos…

É evidente que isso é uma tolice. Susan só não é uma cantora de sucesso em razão de qualidades (ou da falta delas) que lhe são próprias. Ninguém tem nada com isso. Ou precisarei listar aqui os feios famosos? O sucesso pede um pouco mas do que não desafinar. Às vezes, diga-se, é preciso saber desafinar. Mais ainda:

Saber controlar a desafinação pode ser mais importante do que ser um intuitivo afinado.

Susan responde pelo que fez do que fizeram dela. Não temos culpa nenhuma. Mas o diabo é que, então, passam a operar duas coisas simultâneas:
1 – quem se considera, de algum modo, vitorioso, sente-se bem em alimentar uma espécie de culpa diante dos oprimidos injustiçados. Esse sentimento lhe diz: “Você venceu; mas muitos não conseguiram. Seja generoso”.
2 – o derrotado encontra em Susan Boyle o seu próprio retrato, porém alçado à condição de celebridade: “Veja lá como o mundo pode ser injusto com os talentosos”.

Convenham: se ela, nas suas tentativas de ter “uma chance”, foi sempre tão abestalhada quanto se mostra no programa, a responsabilidade pelo insucesso é só sua. Se o mundo selecionasse os parvos, estaríamos andando de quatro — talvez cheguemos lá, mas vai demorar um pouco. E nem isso, creio, é exatamente verdadeiro: ela passou por um trabalho de produção, por um “aparvalhamento”, para, então, poder causar o choque necessário.

Não! Eu não acho que Susan Boyle redime os feios, os tortos ou os sem-noção — que, então, esconderiam verdades sublimes sob a aparência chocante. Penso que estamos diante do contrário: trata-se ainda da exploração dos humilhados, coisa de que a TV é freqüentemente acusada, só que agora essa exploração se faz segundo a linguagem politicamente correta. Programas popularescos sempre exibiram bodes expiatórios para explorar o mundo-canismo. Isso era no tempo da sociedade má, preconceituosa e reacionária, sabem? Nos tempos da sociedade boa, generosa e progressista, temos os “bodes exultórios”. Aquela coitada é feia, boba e mora longe, mas canta bem. Os belos podem continuar a ser feios, bobos e a morar longe, mas não rendem bons programas, ainda que cantem magnificamente. Hoje, há sempre alguém com uma história triste, “marginalizado por nosso preconceito”, dando lição de moral na TV.

Para mim, a criação, no que respeita ao ambiente cultural e à psicologia social, está claríssima. Mas, ainda assim, não acho que o fenômeno esteja plenamente explicado. Falta a dimensão política desse evento, de que se falará mais tarde.

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