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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

De sérios e debochados

Sugeri que perguntássemos quanto as Farc queriam para ficar com Marco Aurélio Top Top Garcia – agora não dá mais: ele já voltou. De chapéu na mão. Alguns leitores disseram que eu estava sendo debochado e me pediram um jornalismo mais construtivo. Mais construtivo? Por que vocês não vão ler assessor de imprensa de empreiteira? […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 20h01 - Publicado em 2 jan 2008, 02h42
Sugeri que perguntássemos quanto as Farc queriam para ficar com Marco Aurélio Top Top Garcia – agora não dá mais: ele já voltou. De chapéu na mão. Alguns leitores disseram que eu estava sendo debochado e me pediram um jornalismo mais construtivo. Mais construtivo? Por que vocês não vão ler assessor de imprensa de empreiteira? Alguns são tão bons nisso que passam anos praticando tal atividade sem que seus patrões saibam. Até o dia em que a casa cai, e eles têm de chorar as pitangas em jornais da periferia do capitalismo, onde um pistoleiro pode passar por homem de bem. Em matéria de construção, nada como escolher profissionais. O Brasil precisa de gente disposta a desconstruir verdades oficiais, não de quem faz perífrases delas.

É claro que as Farc não querem ficar com Marco Aurélio Garcia. Ninguém daria nada por ele – e vão dizer que isso também é deboche. Mas é a mais pura verdade. Por que esse tratamento, com efeito, irônico dispensado ao porta-voz do Tártaro? Porque ele é um dos fundadores do Foro de São Paulo, a entidade que congrega partidos de esquerda da América Latina. Não acreditem em mim. Procurem no YouTube o vídeo do Terceiro Congresso do PT, realizado no fim de agosto e começo de setembro do ano passado. As glórias do Foro estão lá, inclusive lembrando que as teses do grupo, a cada dia, ganham mais países. Quem integra o Foro? Entre outros, o PT e as Farc – sim, os narcoguerrilheiros são parceiros dos petistas na entidade – e, pois, parceiros de Marco Aurélio Top Top Garcia.

Alguns leitores pretendem que eu seja construtivo com este senhor? Não serei. Sei mais do que ele? Em matéria de democracia, sim, já que ele nunca se converteu a essa causa. Foi trotskista e agora é petista. Isso significa que, para ele, a democracia, antes, era irrelevante – a menos que alguém me apresente um texto de Trotsky defendendo-a – e, agora, é apenas instrumental. A turma que se acha “construtiva” está disposta a debater um pouco de teoria política? É marcar hora e local. Eu topo. E podem ser debochados comigo, que eu não ligo. Mas terão de me provar que devo levar a sério alguém como Marco Aurélio nessa pantomima estrelada pelas Farc.

É. Eu não sou “construtivo”. Paulo Francis não era. HL Mencken não era. Karl Kraus não era. Eu estou me comparando a esses gigantes? Eu não estou me comparando a ninguém. Estou apenas falseando e submetendo ao ridículo a tese do “construtivismo”. Jornalismo tem de ser crítico mesmo, ainda que alguém possa perguntar: “Mas você está dizendo saber mais do que o criticado?” É uma pergunta cretina, obscurantista, obtusa, que faria supor que um crítico de Picasso devesse pintar como Van Gogh. O grande Paul Johnson, aliás, debocha do pintor espanhol. Considero a sua opinião errada e injusta – um dos raros casos em que discordo de Johnson. Mas aprendi com ela.

Querem debater a sério o jornalismo “construtivo” ou estão dispostos apenas à firula, à embaixadinha para a torcida? Construtivos foram os jornalistas ingleses que saudaram, em êxtase, a volta de Chamberlain a Londres, depois de ter assinado o Tratado de Munique, selando a “paz” com Hitler. Debochado, um certo Churchill declarou que, entre a guerra e a desonra, o então primeiro-ministro havia escolhido a desonra. E, por isso, teria a guerra. Goebbels gostava de críticas construtivas. Stálin também. O deboche pode civilizar, como lembra, aliás, a divisa de Arlequim: “castigat ridendo mores” – “rindo, castigam-se (ou moralizam-se) os costumes”, frase atribuída, às vezes, ao debochado Molière.

Boa parte da chamada “resistência” ao golpe militar de 1964 se fez por meio do deboche, como deixa claro O Pasquim. E se fez aquele trabalho com grande competência. Entendo que, hoje em dia, debochar de petistas possa ser considerado algo ofensivo. Afinal de contas, eles estariam ao lado do povo. Há até quem pense que eles são uma fração do próprio povo, este ente metafísico que costuma assaltar a história, volta e meia, com suas verdades eternas.

Assim, mantenho a minha proposta debochada para que as Farc fiquem com Marco Aurélio Top Top Garcia. Mas aceito discutir a associação do PT com os narcoguerrilheiros no Foro de São Paulo. Algum jornalista “construtivo” quer debater o assunto a sério? E reitero: não acreditem em mim no que diz respeito a este tema: acreditem nos petistas.

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