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Reinaldo Azevedo

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Bolsa de Futuros: A Opep do etanol e a doença brasileira

Pode haver certo exagero na figura de linguagem “Opep do Etanol” (ver abaixo), mas é claro que o EUA estão seriamente empenhados em garantir uma disponibilidade tal do produto, que o mundo fique menos dependente do petróleo dos países, digamos, problemáticos. Uma substituição em larga escala, num tempo curto ou médio, é inviável, mas parece […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 22h39 - Publicado em 25 fev 2007, 14h55
Pode haver certo exagero na figura de linguagem “Opep do Etanol” (ver abaixo), mas é claro que o EUA estão seriamente empenhados em garantir uma disponibilidade tal do produto, que o mundo fique menos dependente do petróleo dos países, digamos, problemáticos. Uma substituição em larga escala, num tempo curto ou médio, é inviável, mas parece certo que ela teve início. O Brasil pode ter papel privilegiado nesse contexto porque tem tecnologia na área e terra.
Não temo, de nenhuma maneira, que o governo Lula vá perder a chance por conta de algum cretinismo ideológico. Não se esqueçam de que há muitos negociantes que hoje apóiam o PT. Os negócios acontecerão, e este pode, sim, ser um ótimo momento para o país. Meu temor é o outro: a incompetência e a falta de visão estratégica.
O risco, meus caros, não é o Brasil resistir ao canto do etanol, mas cair de boca na proposta e, no médio prazo, desorganizar a sua economia, com uma espécie de volta à monocultura, com conseqüente desindustrialização. Delírio? Não mesmo. Sei que fica parecendo que estou pondo o carro adiante dos bois. Mas essa deve ser, sim, uma preocupação.
No dia 12 de janeiro deste ano, o economista e ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros tratou do assunto em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo. Leiam o texto, que segue em azul.

Dentro de dez anos, alguns textos sobre economia tratarão de um fenômeno que será conhecido como a doença brasileira. Será uma revisão do que hoje se conhece como a doença holandesa. Mas essa nova versão será considerada muito mais complexa do que a que ocorreu na segunda metade do século 20 na pequena e rica Holanda. Mas a sua origem será a mesma: a desindustrialização por efeito de uma taxa de câmbio determinada pelo excedente de exportações no setor de commodities e incompatível com as condições de competitividade de partes importantes da indústria manufatureira mais sofisticada.Esse problema é agravado pela impossibilidade de o Brasil passar a ser uma economia de serviços, o que alguns apontam como uma saída, já que essa transição só poderia ocorrer saudavelmente após a integração de amplas parcelas da população brasileira que ainda estão excluídas da economia de mercado moderna.A China está integrando seu contingente populacional; o Brasil, não. Mas esse assunto fica para uma outra coluna. Posso ver hoje algumas das conseqüências dessa incipiente “doença brasileira”, apesar do tempo longo que nos separa ainda do longínquo ano de 2017. A Embraer não mais produzirá aviões no Brasil, com a perda de mais de 20 mil empregos qualificados; nossa indústria automobilística vai reduzir o valor agregado de sua produção local, transformando-se em mera montadora alimentada por importações; não mais teremos fábricas de sapatos, de produtos têxteis e eletrônicos. Em razão disso, os empregos migrarão para o interior, os salários serão mais baixos, e a mão-de-obra terá menor qualificação.Já assistimos hoje ao início desse fenômeno, mas as mudanças vão se acelerar de forma dramática nos próximos anos. A necessidade de produzir combustíveis limpos a partir da agricultura será o eixo principal dessas transformações. E o Brasil, fora do continente africano, é a única grande economia com uma área agriculturável para responder por essa nova demanda. Nesse movimento, que hoje parece irreversível ao analista cuidadoso, nosso saldo comercial vai crescer de forma expressiva, aumentando a sobra de dólares que já existe nos mercados de câmbio. O real vai se fortalecer ainda mais e tornar ineficiente a política do Banco Central de defender a taxa de câmbio via aumento de nossas reservas cambiais.O ponto central dessa previsão é a certeza que tenho hoje de que a questão do aquecimento global será enfrentada de forma vigorosa nos próximos anos. No momento em que escrevo esta coluna, a imprensa nos informa que o presidente George W. Bush vai tratar da questão dos combustíveis limpos em seu discurso anual no Congresso americano. Se isso acontecer, será uma mudança significativa na posição do maior opositor a uma ação coordenada dos países mais ricos no mundo nessa questão. Tony Blair, o primeiro-ministro britânico, já há algum tempo comprou essa idéia. Outras decisões nesse sentido já estão sendo tomadas, como a do governo japonês de adicionar 10% de etanol à gasolina vendida no país nos próximos três anos.Nos Estados Unidos, o país que mais consome gasolina no mundo, a utilização crescente do álcool de milho já está provocando modificações importantes na economia. O crescimento da área plantada desse produto e o aumento de seu preço por conta de uma demanda crescente por álcool estão deslocando a produção de soja e trigo e tornando a indústria de frango um setor ameaçado de extinção. Nos dois casos, o Brasil sairá ganhando à medida que essa tendência se consolidar. Daí a importância, para nós, do discurso de Bush.No Brasil, segundo dados coletados pela MB Consultores Associados, temos uma disponibilidade de mais de 100 milhões de hectares para a produção de cana ou de soja. Nenhum outro país, com agricultura competente e capacidade técnica para produzir com eficiência, tem essa margem para crescer sua produção agrícola. Se esse movimento, que já vemos hoje, continuar, poderemos agregar em alguns anos várias dezenas de bilhões de dólares de exportações, a partir da agricultura, em nossa balança comercial com o exterior.Mas esse cenário, se confirmado, trará para nós dois problemas sérios: o primeiro será um aumento significativo no preço dos alimentos; o segundo, uma valorização perene do real e uma pressão ainda maior sobre a competitividade de nossa indústria.

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