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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

A “Operação Esmaga-Marta” mostra à senadora o que é ser alvo do petismo e ter a reputação moída

A senadora Marta Suplicy (PT-SP) está vendo de perto o que é ser alvo da máquina de moer reputações do petismo. Ela só conhecia o outro lado, o de quem ataca. E toma pancada de todo lado, como quem tivesse jogado pedra na cruz. A Folha de hoje publica um artigo estupefaciente de Cláudio Gonçalves […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 08h41 - Publicado em 5 jun 2012, 07h15

A senadora Marta Suplicy (PT-SP) está vendo de perto o que é ser alvo da máquina de moer reputações do petismo. Ela só conhecia o outro lado, o de quem ataca. E toma pancada de todo lado, como quem tivesse jogado pedra na cruz. A Folha de hoje publica um artigo estupefaciente de Cláudio Gonçalves Couto, que é “cientista político, professor do curso de Administração Pública da FGV-SP”, segundo o pé biográfico que aparece no jornal. Segue o seu texto em vermelho. Lá vou em azul.

Se tudo der errado na campanha de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo, culminando em sua derrota, o PT já sabe sobre quem descarregar a culpa.
Se tudo der certo e Haddad for eleito prefeito, o PT também já sabe a quem espezinhar. Nos dois casos, essa pessoa é Marta Suplicy.
Marta tinha uma única saída para não se dar mal: apoiar Haddad com entusiasmo, como quer Lula.  

É evidente o inconformismo da ex-prefeita com seu preterimento na escolha da candidatura petista, para a qual se via como uma escolha natural — tal qual a de Aécio Neves para o PSDB, no pleito presidencial, na visão de Fernando Henrique.
Marta, contudo, assemelha-se pouco a Aécio, no que concerne a esta “naturalidade”. Está para a Prefeitura de São Paulo e para o PT mais ou menos como o ex-governador José Serra está para a Presidência e o PSDB.
Em ambos os casos, os postulantes veem-se como o nome óbvio, não reconhecem correligionários à sua altura e pensam mais em seu projeto pessoal do que no do partido.
Com o devido respeito a Couto, que deve ser um homem honesto, o pensamento é vigarista. Fica por provar, além do opinionismo, por que Aécio é um candidato natural (tese que ele adota) e por que Serra e Marta não seriam. Como está a buscar paralelos, entende-se que a naturalidade, no caso do PT, estaria, então, com Fernando Haddad. A gente percebe que ele não tem simpatia pelos dois nomes “não naturais”. Com quais categorias intelectuais opera? Com as da futrica e da fofoca, dando relevo aos supostos maus bofes dos dois políticos: “não reconhecem correligionários à sua altura e pensam mais em seu projeto pessoal do que no do partido”. Suponho que, nessa formulação, Haddad e Aécio são destituídos de ambições pessoais e só pensam no projeto partidário, certo?  

A semelhança, porém, acaba por aí. Não só porque se trata de disputas de tamanho distinto, mas também porque PT e PSDB são muito diferentes.
A semelhança não acaba aí porque nunca começou.

Se no PSDB o serrismo conseguiu impor-se à máquina partidária para mais um malogro em 2010 (e continua a alentar nova aventura para 2014), no PT o peso da organização partidária se fez sentir na definição da disputa.
Couto não gosta de Serra, a gente vê. Num texto destinado a analisar o embate no PT, ele ataca o político tucano. A afirmação de que “continua a alentar nova aventura em 2014″ é obviamente mentirosa, peça de propaganda do petismo ou de coisa ainda pior. Não sei qual é a dele. Sei que não se sustenta. Mas atenção para o triplo salto carpado hermenêutico-dialético que vem agora.

Alguém replicará que é o peso do caciquismo lulista. Há um erro em tal avaliação.
Embora a unção de Lula tenha sido crucial na opção do PT por Haddad, ela opera em contexto organizacional e com significado muito distintos daqueles do PSDB. O PT é um partido em que a lógica da organização tende a prevalecer sobre caciquismos.
A unção de Lula funciona na indicação do candidato porque se coaduna com os interesses mais amplos e de longo prazo da organização.
Que coisa! Serra se fez candidato em 2010, sem prévias, porque Aécio Neves desistiu da corrida. Qualquer pessoa um pouquinho mais bem informada do que Couto sabe que o agora senador mineiro não era candidato pra valer à Presidência. E, a depender do andar da carruagem, é bom o tucanato ir pensando num nome alternativo — que não é Serra obviamente. Na disputa de agora, na cidade de São Paulo, os tucanos realizaram prévias. E prévias de verdade, como se viu. Mas “caciquista”, segundo este iluminado pensador, é o PSDB, não o PT!!!

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E por que não? Ele dá a resposta: “A unção de Lula funciona na indicação do candidato porque se coaduna com os interesses mais amplos e de longo prazo da organização.” Entenderam? Lula é o grande “intérprete” da organização, conhece as suas vontades, sabe a forma do futuro, tem domínio sobre os seus “interesses mais amplos e de longo prazo”. Couto não é mesmo um gramsciano, que entendia ser o partido o “moderno príncipe”. Nada disso! O príncipe, para este pensador, é o demiurgo!

Assim, no triplo salto carpado hermenêutico-dialético deste gigante, o PSDB foi caciquista ao não sê-lo, e o PT, ao sê-lo, não o foi, compreenderam? Ao realizar prévias, o PSDB foi autoritário e caciquista. Ao atropelá-las, o PT demonstrou aquela vocação democrática resumida tão bem pela… vontade de Lula!!! Acompanhar as suas aulas deve ser mesmo uma grande aventura intelectual.

Coisa idêntica ele deve pensar sobre o PT de Recife. Por lá, as prévias chegaram a ser realizadas, o atual prefeito, João da Costa, venceu, mas Lula não aceita e quer Humberto Costa como candidato. E ele pode, certo, Couto? Afinal, “o contexto organizacional” permite qualquer coisa.

Em tal cenário, o beicinho de Marta, se mantido, tenderá a lhe causar um ostracismo interno. Organizações tão densas não costumam deixar barato esse individualismo.
Couto acha o PT uma “organização densa” e ameaça Marta com o “ostracismo” porque ela fez “beicinho”. Pior de tudo: teria cometido um pecado terrível! Foi muito “individualista”, coisa que, sabem vocês, não fica bem no petismo, esse partido de homens coletivistas…

A Folha chame quem quiser para escrever artigos. Não tenho nada com isso. Como leitor, digo se gostei ou não. Eu entendo que jornais e revistas devem recorrer a colaborações de “pensadores” e “cientistas políticos” quando estes produzem uma reflexão que opera com categorias e modelos de precisão que podem, eventualmente, estar além do instrumental manejado habitualmente pelos profissionais da redação (jornalistas formados ou não). Muito melhor na própria Folha eu já encontrei mais de cem, como naquele iê-iê-iê.

Agora vocês me dão licença que ficarei aqui a refletir sobre o caciquismo que não é porque é e é porque não é…

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