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Reinaldo Azevedo

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A loucura brasileira 4 — O dia em que baiano virou “raça”

Leitores pedem que eu comente a afirmação do baiano Antônio Dantas, coordenador do curso de medicina da UFBA (Universidade Federal da Bahia), segundo quem o desempenho ruim dos estudantes no Enade se deve ao “baixo QI dos baianos”, com a emenda: “O baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais [cordas], não […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 19h34 - Publicado em 4 Maio 2008, 06h49
Leitores pedem que eu comente a afirmação do baiano Antônio Dantas, coordenador do curso de medicina da UFBA (Universidade Federal da Bahia), segundo quem o desempenho ruim dos estudantes no Enade se deve ao “baixo QI dos baianos”, com a emenda: “O baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais [cordas], não conseguiria”. Comentar o quê? Não sei o que é mais patético: a fala do homem ou as acusações de racismo que lhe fez o reitor. O Ministério Público Federal também vai investigar se houve “discriminação racial ou de procedência”.

Começo pelo professor. Ele é o coordenador do curso que teve desempenho sofrível. A culpa é dos alunos? Do Olodum? E o que dizer das universidades federais de Alagoas, Pará e Amazonas, que ficaram com o mesmo conceito: 2? Nesses estados, não há berimbau pra atrapalhar. Culpar quem o quê? O carimbó? O boto cor-de-rosa? Se as universidades dispõem da infra-estrutura adequada para funcionar, tudo tem de ser revisto, não é? Já que Dantas não pode trocar de povo, ele vai ter de trocar de método. Da seleção de alunos à de mão-de-obra, passando pelo currículo que está sendo ministrado, tudo tem de ser reavaliado. Dito isso, vamos adiante.

A acusação de racismo é um estupidez. “Baiano”, agora, é raça? Sou um dos 113 que subscreveram a carta dos cidadãos anti-racistas contra o racismo entregue ao STF. O documento se opõe à política de cotas nas universidades. E diz com clareza: “Raças humanas não existem. A genética comprovou que as diferenças icônicas das chamadas ‘raças’ humanas são características físicas superficiais, que dependem de parcela ínfima dos 25 mil genes estimados do genoma humano. A cor da pele, uma adaptação evolutiva aos níveis de radiação ultravioleta vigentes em diferentes áreas do mundo, é expressa em menos de 10 genes! Nas palavras do geneticista Sérgio Pena: ‘O fato assim cientificamente comprovado da inexistência das ‘raças’ deve ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas convicções e atitudes morais Uma postura coerente e desejável seria a construção de uma sociedade desracializada, na qual a singularidade do indivíduo seja valorizada e celebrada. Temos de assimilar a noção de que a única divisão biologicamente coerente da espécie humana é em bilhões de indivíduos, e não em um punhado de ‘raças’.’”Ademais, Dantas é baiano — o que não o obriga a apreciar o berimbau, o Olodum e o “Axé Music”. Ele tem o direito de não gostar de nada disso. Também tem o direito de achar baiano — menos ele próprio, creio — preguiçoso ou pouco inteligente. Mas não pode ser considerado “racista” — a menos que uma pilantragem intelectual esteja querendo combater a outra: baiano seria sinônimo de negro, que “raça” também não é.

Ou se prova agora que “baiano” é raça ou se acuse Dantas de outra coisa.

Que tal de “incompetente”, já que ele é coordenador do curso? Acho uma acusação excelente. O reitor da UFBA, Naomar de Almeida, apareceu na televisão, de rabinho de cavalo — ali estava um homem moderno — para expressar a sua indignação. O mais fantástico é que parecia que ele próprio não tinha nada a ver com o berimbau, entenderam? Parecia que não era a universidade que ele dirige que tirou um sofrível 2 no Enade. Também ele falava em preconceito etc e tal. Entenderam a questão de fundo? Estamos falando de incompetências que estão em extremos opostos do debate, mas que acabam se combinando.

Reparem, no entanto, que tudo por aqui vira uma “causa militante”. Menos a eficiência.

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