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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

A disparada do dólar, o BC e os juros. Mantenho a opinião e avanço

Vou ser ainda mais duro do que os ortodoxos: se, para manter a credibilidade, a direção do BC precisa elevar a dívida pública em algo em torno de R$ 10 bilhões, sem que isso seja necessário, então é o caso de demitir todo mundo. Isso é custo de quem já não tem credibilidade, não de quem tem

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 30 jul 2020, 23h40 - Publicado em 21 jan 2016, 20h09

Alguns leitores estão me cobrando que comente a reação dos mercados porque escrevi, e mantenho, que o Banco Central fez bem em não elevar a taxa de juros. A decisão levou o dólar a R$ 4,16, o maior valor desde que foi criado o Real, com alta de 1,47% num único dia.

O BC fez, sim, lambança. Sugeriu, na primeira semana de janeiro, que elevaria a taxa; um dia antes da decisão, em face de um relatório do FMI que faz previsões catastróficas para a economia, Alexandre Tombini, presidente, anunciou a disposição de recuar. A partir daí, não havia mais boa decisão a tomar. Qualquer uma seria suspeita.

Mas isso não elimina o objeto em debate. Peço desculpas — de brincadeirinha, claro! — aos que pretendem ser os donos da ortodoxia. Eu tenho compromisso com as coisas que funcionam, não com fetiches.

Elevar a taxa de juros agora vai contribuir para baixar a inflação? Acho que todo mundo sabe que não. Então pra quê? Só para mostrar que somos fiéis às Santas Escrituras? Economia não é religião. Não se trata de ser mais servo ou menos servo do Senhor.

Uma elevação de 0,5 ponto na Selic deve aumentar a dívida pública hoje em algo em torno de R$ 10 bilhões. Para quê? Para a inflação ficar no mesmo lugar, quem sabe até subir?

Subir? Sim! Não é impossível. Na verdade, pode ser até provável. O buraco hoje é fundamentalmente fiscal. A arrecadação está em queda livre. Aprofundar a recessão implica arrecadar ainda menos, o que complica o nó fiscal.

“Ah, mas a disparada do dólar também pressiona a inflação”. É verdade. Mas, se é o caso de fazer escolha, pressiona menos do que a barafunda fiscal — e justamente porque os brasileiros já estão comprando pouco.

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Sabem qual é o busílis? Esse negócio de mais juros ou menos juros não pode ser uma disputa entre homeopatas e alopatas, não é mesmo? Eu sou da turma da alopatia. Antibiótico pra quem precisa. Antidepressivo pra quem precisa. Hipnótico pra quem precisa. Anti-inflamatório pra quem precisa.

Mas é sabido que não se deve dar Amoxicilina com Clavulanato de Potássio pra quem está apenas com gripe, não é? A menos que alguma bactéria oportunista tenha se aproveitado da situação do doente.

Existe bactéria nessa gripe? Há inflação aí que se pode debelar com elevação da taxa de juros? Com a devida vênia, não! Aí, meus queridos, não se trata de recorrer ao livro-texto. Até porque a gente anda a desafiar o livro-texto faz tempo, não é mesmo?, com os juros reais mais altos do mundo, com recessão na casa dos 4% e inflação renitente de dois dígitos. A causa da síndrome é fiscal! Meter Amoxicilina com Clavulanato aí só desorganiza um pouco mais a imunidade do doente, e o efeito é nenhum, quando não é contraproducente.

Ah, sim: haverá certamente uma medida dos juros — não saberia dizer quanto — que poderia levar a inflação logo para o centro da meta. Bem, você consegue acabar com qualquer doença, no corpo em questão ao menos, matando o paciente, para ficar na metáfora óbvia.

Não pensem que não tentei achar os argumentos em favor da elevação dos juros. Nenhum deles me convenceu. O máximo que encontrei volta sempre à tecla da credibilidade do Banco Central.

Aí, então, vou ser ainda mais duro do que os ortodoxos: se, para manter a credibilidade, a direção do BC precisa elevar a dívida pública em algo em torno de R$ 10 bilhões, sem que isso seja necessário, então é o caso de demitir todo mundo já.

Isso é custo de quem já não tem credibilidade, não de quem tem.

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