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“Fui coagido por Protógenes”, diz Chicaroni

Por Flávio Ferreira, na Folha:Hugo Sérgio Chicaroni, 58 anos, condenado sob a acusação de ter sido emissário do banqueiro Daniel Dantas no oferecimento de suborno a policiais federais, disse que foi coagido pelo delegado Protógenes Queiroz nos 35 dias em que esteve preso na Polícia Federal em São Paulo. O administrador de empresas disse que […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 18h28 - Publicado em 7 dez 2008, 06h17
Por Flávio Ferreira, na Folha:
Hugo Sérgio Chicaroni, 58 anos, condenado sob a acusação de ter sido emissário do banqueiro Daniel Dantas no oferecimento de suborno a policiais federais, disse que foi coagido pelo delegado Protógenes Queiroz nos 35 dias em que esteve preso na Polícia Federal em São Paulo. O administrador de empresas disse que tentou avisar o juiz Fausto De Sanctis sobre os constrangimentos em uma audiência, mas o magistrado teria se recusado a ouvi-lo.
Na primeira entrevista concedida por um dos réus do caso Dantas, Chicaroni falou à Folha acompanhado pelo advogado Luiz Carlos da Silva Neto, que demonstrou que a estratégia da defesa do administrador será de desqualificar a conduta de Protógenes e De Sanctis.
Chicaroni afirmou que o delegado esteve presente no primeiro depoimento que prestou na PF e direcionou o testemunho no sentido de incriminar o banqueiro. Em troca do depoimento contra Dantas, disse, Protógenes teria prometido o relaxamento de sua prisão.
Para pressioná-lo, Protógenes também teria alardeado na carceragem da PF que o administrador de empresas era um “colaborador da polícia”, colocando a vida dele sob risco.
A Folha ligou para o advogado do delegado Protógenes Queiroz, mas as ligações caíram na caixa de mensagens. A assessoria de imprensa da Justiça Federal tentou localizar o juiz Fausto De Sanctis ontem, mas não obteve sucesso.

FOLHA – Como o sr. avalia a sua condenação a sete anos de prisão?HUGO SÉRGIO CHICARONI – Acho a sentença absurda. Ela me parece mais uma vingança do que uma sentença. Não sou a pessoa que eles estão pensando que eu sou e tampouco sei o que eles acham que sei. Não tenho e jamais tive envolvimento com o Grupo Opportunity. O sr. Daniel Dantas eu jamais tinha visto na vida, jamais tinha falado com ele. Quem eu realmente conhecia nesta história toda era o delegado Protógenes.FOLHA – Por que o sr. colocou Protógenes em contato com os representantes do Opportunity?CHICARONI – Um cliente meu decidiu vender 50% de um frigorífico em uma reunião. Logo depois, eu encontrei o Wilson Mirza [advogado do Grupo Opportunity]. Ele disse que tinha ligado para o Protógenes para falar das investigações sobre o Dantas, noticiadas na imprensa, e não tinha sido atendido. O Mirza pediu que, se eu encontrasse o delegado, perguntasse se ele poderia recebê-lo. Pô, naquela hora, veio o negócio do frigorífico na minha cabeça.Pensei: se eu conseguir colocar esse camarada [Mirza] com o Protógenes, nem que seja para dizer: “Boa noite, até logo”, fiz a minha parte. Vai ser uma porta de entrada para eu oferecer o frigorífico [ao Opportunity].FOLHA – A PF diz que o crime de corrupção teve início quando o sr. jantou com o Protógenes em 10 de junho. Como foi esse encontro?CHICARONI – Foi quando ele começou a armar essa história toda. Sempre que sobrava um tempo, combinávamos de conversar sobre assuntos corriqueiros. Naquela semana, eu liguei para ele e nos encontramos em uma pizzaria. Isso ocorreu 40 dias depois de eu ter conhecido o advogado do Opportunity. Perguntei ao Protógenes sobre o caso do Dantas, mas ele disse que estava fora dele. Depois, eu dei essa notícia para eles, e o assunto morreu.Foi aí que eu conheci o Humberto Braz [executivo ligado ao Grupo Opportunity]. Falei com ele sobre negócios de clientes meus, um frigorífico e uma universidade.FOLHA – O sr. é acusado de ter entregado R$ 50 mil aos delegados a mando do Opportunity. É verdade?CHICARONI – No dia 17 [de junho], fomos jantar, e o Protógenes me disse que almoçaria no dia seguinte com o delegado que estava no caso Dantas, e ele ia ver se esse delegado receberia alguém do Grupo Opportunity. Achei estranho. No dia 18, Protógenes me ligou e falou que estava almoçando com esse delegado [Victor Hugo Ferreira] e pediu que eu fosse lá. Ele disse que receberia o Braz e me disse que, por aquela conversa, o Victor Hugo deveria receber R$ 50 mil. Falei: “Algum dinheiro eu tenho em casa, mas é de um cliente meu, para o qual estou desenvolvendo um projeto de viabilidade econômica”.Aí o Protógenes disse: “Mas ele [Victor Hugo] está precisando do dinheiro, fica tranqüilo que eu garanto”. Aí eles foram até minha casa e pegaram os R$ 50 mil. Não sabia que eles estavam armando tudo. O que me surpreendeu foi no dia 19 pela manhã, quando ele [Protógenes] me chamou no hotel Shelton e disse que receberia o Braz em um jantar e que o Victor Hugo iria pedir US$ 1 milhão para conversar com o Braz.FOLHA- O sr. não via indícios de corrupção nessas situações?CHICARONI – Alguma coisa não estava bem colocada. Certa vez minha mulher me disse uma coisa interessante: “Nós seres humanos temos momentos de cegueira, de não saber exatamente onde estamos pisando”. Sempre tive uma baita admiração profissional pelo Protógenes. É aquela situação de você confiar numa pessoa, praticamente não pensar naquilo e dizer: “Que fique com ele. Ele sabe o que está fazendo”.FOLHA – A PF achou R$ 865 mil em sua casa. Qual a origem do dinheiro?CHICARONI – Esse dinheiro foi mandado a mim pelo Braz, para que guardasse em São Paulo, mas eu não sabia para quê os recursos seriam usados.FOLHA – Mas, em um depoimento à polícia, o sr. disse que o dinheiro era de Daniel Dantas?CHICARONI – O Protógenes foi me visitar duas vezes na custódia da PF. Ele me colocou numa situação muito difícil. Só não fui assassinado por muita sorte, porque, quando cheguei à Polícia Federal, ele dizia a todos: “Esse é o meu amigo que ajudou a polícia”. Duas vezes ele desceu na custódia da PF dizendo: “Os bandidos estão na rua, e você, que ajudou a polícia, está preso, isso não se justifica”. Lá na custódia tem um entra-e-sai de presos de tudo quanto é presídio. Isso vazou para os quatro quantos.

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