Como está ocorrendo em ritmo acelerado a reinvenção dos shoppings
Gerar novas experiências para atrair os frequentadores é a palavra de ordem do setor
Nos últimos tempos os shopping centers deixaram de ser apenas destinos de compras para ganharem um papel muito mais amplo dentro das cidades. Cinco anos após a pandemia, o setor vive uma transformação profunda. Os empreendimentos passaram a disputar menos a venda de produtos e se concentram hoje em como capturar mais o tempo das pessoas. Essa mudança tem impactos diretos sobre o mercado imobiliário.
Se durante décadas a força de um shopping era medida pelo seu mix de lojas, hoje a capacidade de criar experiências se tornou um dos principais diferenciais competitivos. Restaurantes autorais, eventos culturais, áreas de lazer, academias, clínicas médicas, serviços, espaços de convivência e uma programação constante transformaram o papel e o apelo desses empreendimentos. Em muitos bairros, o shopping já funciona como uma extensão da cidade, reunindo lazer, gastronomia, saúde, conveniência e trabalho em um único endereço.
Essa estratégia responde diretamente às mudanças de comportamento do consumidor. Com o avanço do consumo on line, a compra de produtos tornou-se uma atividade cada vez mais prática e descentralizada. Com isso, os shoppings entenderam que o que continua difícil de substituir é a experiência presencial e, justamente por isso, grandes grupos do setor vêm reforçando que a experiência gera mais fluxo do que a simples abertura de novas lojas. O shopping deixa de ser um local para consumir para ser um lugar para permanecer e, assim, gerar mais um consumo longo do que apenas atender as necessidades de compra.
Nesse novo contexto, o cinema assume um protagonismo renovado. Durante anos, imaginava-se que os streamings reduziriam sua relevância, mas o movimento observado foi justamente o contrário. Grandes estreias continuam levando milhões de pessoas aos shoppings, impulsionando restaurantes, cafeterias e diversas operações do entorno. O entretenimento permanece como um importante gerador de fluxo e demonstra que o consumo de experiências presenciais continua sendo um ativo valioso para o setor.
Ao mesmo tempo que o setor vive um novo momento onde a experiência é a palavra de ordem, os empreendimentos acompanham com preocupação discussões que podem alterar significativamente sua estrutura operacional. Entre elas está a proposta de redução da jornada de trabalho com o fim da escala 6×1, considerada por representantes do segmento como um fator de potencial aumento dos custos operacionais e de pressão sobre o emprego formal. Em um setor intensivo em mão de obra e com funcionamento estendido, qualquer mudança na legislação trabalhista tende a produzir impactos relevantes sobre lojistas, operadores e investidores. Os shoppings, acostumados a terem suas lojas abertas de domingo a domingo, podem sofrer bastante caso a reforma trabalhista passe no Congresso, já que os lojistas terão um custo operacional muito maior.
Apesar dos desafios econômicos, de possíveis mudanças sociais e da concorrência digital, os shopping centers demonstram uma capacidade notável de adaptação. Hoje, o ativo mais valioso é a capacidade de reunir pessoas e talvez essa seja a principal lição do setor. Enquanto muitos previram que os shoppings perderiam relevância após a pandemia e diante do crescimento do e-commerce, o mercado respondeu reinventando sua função dentro das cidades, uma evolução que reforça seu papel como um dos ativos imobiliários mais estratégicos e lucrativos do país.







