🔥 9.9: Assine Revista Impressa + Digital Premium por R$ 32,90/mês. Preço especial só hoje.
Imagem Blog

Radar Jurídico

Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO

Os 90 anos de Raízes do Brasil: a corrupção faz parte da cultura do país?

Quando o senso comum encontra alguma camada de profundidade, costuma-se dizer que a corrupção está enraizada na “cultura”

Por Caio César Vioto de Andrade 14 ago 2026, 10h00 | Atualizado em 17 ago 2026, 10h15
Os 90 anos de Raízes do Brasil: a corrupção faz parte da cultura do país? Priorizar nos meus resultados Google

O tema corrupção é onipresente no debate político brasileiro. É difícil lembrar a última eleição que não teve o assunto como pauta fundamental. Em meio a acusações mútuas, pouco se questiona sobre as possíveis origens da corrupção. No senso comum, o tema é tratado como um desvio moral, individual. Outras vezes é imputado como algo inerente à ideologia adversária. 

Quando o senso comum encontra alguma camada de profundidade, costuma-se dizer que a corrupção está enraizada na “cultura”. Muitas vezes, autores como Sérgio Buarque de Holanda são evocados para corroborar a afirmação, especificamente seu livro mais conhecido: Raízes do Brasil. Raízes é daqueles livros muito citados e pouco lidos – ou, então, lidos sem a devida historicidade. 

Revisitar clássicos é sempre desafiador, pois há o risco da simplificação e do anacronismo. Assim, longe de pretender esgotar o tema, este ensaio se propõe a pensar como o clássico pode ser mobilizado para investigar questões atuais, ou seja, como, a partir de um diagnóstico histórico e sociológico da sociedade brasileira, é possível utilizar o repertório conceitual fornecido pela obra para compreender aspectos da política brasileira e de sua relação com a corrupção.

Primeiramente, Sérgio Buarque não propunha um tratado, muito menos um receituário. Nesse sentido, se distingue de obras da mesma época, de autores como Caio Prado Jr. e Oliveira Vianna, e de autores de algumas décadas à frente, como Faoro ou Florestan. Isso não significa que a obra não tenha densidade teórica. No contexto da nascente sociologia brasileira, o autor buscava entender os hábitos, crenças e valores do brasileiro “médio” e, consequentemente, suas relações sociais e políticas.

Continua após a publicidade

No centro desse comportamento social, estaria um dos conceitos mais conhecidos de Raízes do Brasil: o homem cordial. A “cordialidade” referida por Sérgio Buarque não é aquela do senso comum, para o qual o brasileiro seria hospitaleiro, alegre e amigável. Aliás, grande parte desse senso comum se formou a partir de outro clássico da sociologia brasileira: Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. 

No entanto, para Sérgio Buarque, o homem cordial é aquele que age com o coração, por meio dos afetos e emoções. Tais afetos e emoções não seriam apenas ligados aos objetivos individuais, mas também às relações familiares e pessoais. Nesse sentido, o brasileiro médio teria enormes dificuldades com regras, normas e leis universais e impessoais. O raciocínio seria mais ou menos o seguinte: o que vale para os outros não vale para minha família e para meus amigos. Para aqueles com os quais não tenho relações afetivas, deve prevalecer a frieza e a rigidez das normas, muitas vezes em tom punitivista. Para mim e para “os meus” sempre é possível dar um “jeitinho”. Isso valeria tanto para pequenos desvios do cotidiano quanto para o âmbito do poder político e estaria no cerne das explicações sobre a corrupção generalizada no Brasil.

Continua após a publicidade

Outra característica social brasileira, herdada da colonização portuguesa, seria o imediatismo e o espírito de provisoriedade. Dessa vez, o diálogo de Sérgio Buarque é com outro autor contemporâneo: Caio Prado Jr. De orientação marxista, Prado considera que os problemas relacionados ao subdesenvolvimento brasileiro – tema em voga nas décadas de 1930 e 1940, após o colapso da economia cafeeira e sob o impulso da nascente indústria nacional – estariam relacionados ao modelo de colonização, ao qual chamou de exploração. A exploração seria exercida pela metrópole sobre a colônia. Após a independência política, no entanto, manteve-se a dependência econômica e o país continuou a ser agroexportador enquanto importava produtos industrializados, tecnologia e capital.

A leitura de Sérgio Buarque, no entanto, é menos econômica e mais cultural. Menos estrutural e mais cotidiana. O português veio para a América para enriquecer e voltar a Portugal, por isso teria um “espírito de provisoriedade”, o que poderia ser constatado pela desorganização das construções de casas e cidades. Tal aspecto, inclusive, seria diferente da colonização espanhola. Desse modo, na formação da nossa sociedade, não se estabeleceram valores como a racionalidade, a organização e a perspectiva de longo prazo. Novamente, isso transpareceria no âmbito político, marcado por “tapar buracos” que serão reabertos em pouco tempo.

Continua após a publicidade

É claro que, desde 1936, ano da publicação original de Raízes, a sociedade e a política brasileiras mudaram, assim como mudaram os métodos da Sociologia e da Ciência Política, áreas que se tornaram mais quantitativas e empíricas e menos ensaísticas. Ao mesmo tempo, a leitura que Sérgio Buarque fez do comportamento social e político brasileiro oferece pontos de partida para investigações mais sistemáticas, bem como recursos interpretativos sólidos para compreender temas específicos. Dessa forma, as lentes e ângulos propostos pelo autor há 90 anos continuam válidos, com algumas adaptações, para ler a realidade presente, especialmente em relação ao tema da corrupção e à condução personalista e passional da administração pública.

Caio César Vioto de Andrade é doutor em História pela UNESP-Franca, pesquisa a história da administração pública no Brasil republicano. Atualmente é professor-monitor do Insper.

Continua após a publicidade

Este artigo é uma colaboração do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) com VEJA

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional da Editora Abril. À esquerda, um selo laranja com CHEGOU O 9.9 e 80% OFF, e um botão APROVEITE A OFERTA AGORA. Ao centro, texto Na Editora Abril os números se alinharam para você ler as melhores revistas do Brasil por um preço simbólico e capas de revistas como Veja, Quatro Rodas, Saúde e Claudia. À direita, uma mulher sorridente com cabelo castanho, vestindo camisa bege, segura um cartão dourado. No canto superior direito, um ícone de árvore e uma faixa laranja diagonal com ASSINATURA LEIA 15 MARCAS
ECONOMIZE ATÉ 76% OFF

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 5,99/mês
OFERTA 9.9

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 32,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).