Como o recuo da CVM ameaça investidores, empresas e o meio ambiente
O que está em jogo é a ética da transparência, a qualidade da governança e a capacidade de compreender riscos que afetam diretamente o valor das empresas
Mercados funcionam com base em confiança. E confiança depende de informação qualificada, consistente e comparável ao longo do tempo.
Por isso, a recente decisão da CVM de retirar a obrigatoriedade dos relatórios financeiros de sustentabilidade vai muito além de uma discussão técnica ou regulatória. O que está em jogo é a ética da transparência, a qualidade da governança corporativa e a capacidade dos investidores de compreender riscos que afetam diretamente o valor das empresas — hoje e nas próximas décadas.
O custo da previsibilidade traída
Durante anos, companhias abertas foram orientadas a se preparar para um novo padrão de divulgação, alinhado às melhores práticas internacionais consolidadas pelo ISSB — o International Sustainability Standards Board. Muitas investiram recursos significativos: revisaram processos internos, desenvolveram sistemas de monitoramento, capacitaram equipes multidisciplinares e contrataram especialistas para atender às exigências previstas pela Resolução CVM 193.
Essas empresas acreditaram na previsibilidade institucional. Compreenderam que riscos climáticos, ambientais e sociais deixaram de ser questões periféricas e passaram a integrar o núcleo da análise financeira. Afinal, eventos climáticos extremos, escassez hídrica, mudanças regulatórias, transição energética e impactos socioambientais afetam receitas, custos, ativos, cadeias de suprimentos e, em última instância, o retorno dos investidores.
Ao tornar facultativa uma obrigação que estava claramente sinalizada, criou-se uma situação paradoxal — e profundamente injusta: as companhias que investiram para elevar seus padrões de transparência ficam expostas a comparações mais rigorosas, enquanto aquelas que optaram por não se preparar são beneficiadas pela flexibilização. Penaliza-se a diligência e premia-se a omissão.
Isso não é apenas uma questão regulatória. É uma questão de justiça, confiança e credibilidade institucional.
O problema estrutural: o que não se mede, não se gerencia
Existe, porém, um problema ainda mais profundo do que a assimetria entre empresas: a deterioração da capacidade coletiva de mensurar riscos sistêmicos.
Nenhum investidor consegue avaliar adequadamente aquilo que não é medido. Nenhum mercado consegue precificar aquilo que não é divulgado. E nenhuma sociedade consegue enfrentar desafios ambientais quando seus impactos permanecem invisíveis nos balanços e nos relatórios corporativos.
A lógica dos relatórios de sustentabilidade integrada — nos moldes do IFRS S1 e S2 — nunca foi produzir documentos para cumprir uma formalidade. Seu verdadeiro propósito é permitir que investidores compreendam como riscos físicos e de transição, associados às mudanças climáticas e à degradação de ecossistemas, podem afetar a geração de valor das empresas no médio e longo prazo. É, em essência, uma ferramenta de precificação de risco — e não de marketing institucional.
Quando essa informação deixa de ser obrigatória, cresce a assimetria informacional. Investidores tomam decisões com menos elementos. O mercado perde eficiência alocativa. E o capital corre o risco de ser direcionado para ativos com vulnerabilidades ocultas — inclusive vulnerabilidades ligadas à dependência de serviços ecossistêmicos que a bioeconomia nos ensina a valorar com crescente precisão.
Apagamento verde: quando o silêncio é o próprio engano
É nesse ambiente que prospera uma das formas mais sofisticadas — e menos nomeadas — de desinformação ambiental no mercado de capitais: o apagamento verde.
É preciso ser preciso aqui, porque a nomeação importa. Seria tentador chamar esse fenômeno de greenwashing por omissão — e muitos o fazem. Mas o enquadramento é equivocado, e o equívoco não é trivial.
Greenwashing pressupõe excesso. Pressupõe que há algo sendo dito a mais — uma promessa inflada, um selo indevido, uma narrativa ambiental que vai além da realidade. Sua lógica é a da distorção por acréscimo: fabrica-se uma imagem positiva que não existe. Mas onde não há divulgação, não há excesso possível. Não se pode exagerar o que não foi dito. Não se pode distorcer o que foi deliberadamente suprimido. Chamar de greenwashing aquilo que é, na verdade, ausência calculada de informação é, paradoxalmente, dar nome errado a um silêncio — e, ao fazê-lo, torná-lo ainda menos visível.
O apagamento verde opera por uma lógica radicalmente diferente: não mente, omite. Não distorce, apaga. Não fabrica uma realidade inexistente — simplesmente retira do campo de visão dos investidores e da sociedade os riscos climáticos, as dependências ecossistêmicas e os passivos socioambientais que deveriam ser centrais na tomada de decisão. É uma forma de desinformação que não deixa rastros, precisamente porque seu instrumento é o vazio.
No vocabulário brasileiro contemporâneo, “apagamento” já carrega uma carga semântica precisa: a invisibilização deliberada de algo que existe, mas é sistematicamente excluído do registro, da memória e do debate. Ao conjugar esse conceito com a dimensão ambiental, nomeamos com rigor o fenômeno que a flexibilização regulatória da CVM torna não apenas possível, mas estrategicamente atraente para quem prefere que seus riscos permaneçam no escuro.
O apagamento verde não é descuido. É escolha. E quando passa a ser permitido pela regulação, rapidamente se torna vantagem competitiva.
O que não é registrado não pode ser comparado. O que não pode ser comparado não pode ser cobrado. E o que não é cobrado dificilmente será transformado.
Quem perde com o recuo da transparência
Como conselheira de administração, sei que a pressão por transparência — exercida por investidores, reguladores e pela sociedade — é um dos poucos mecanismos efetivos para induzir mudanças reais na gestão de riscos socioambientais dentro das organizações. Quando esse mecanismo é enfraquecido, perde-se muito mais do que um relatório: perde-se um instrumento de governança.
Ao flexibilizar a obrigação de divulgação, perdem os investidores — que passam a enxergar menos riscos e a tomar decisões com informação incompleta. Perde a natureza — que se torna ainda menos visível nos processos de decisão econômica, num momento em que a crise climática exige exatamente o oposto. E perde o próprio mercado de capitais brasileiro, cuja credibilidade perante investidores institucionais globais depende diretamente da qualidade, da consistência e da comparabilidade das informações disponíveis.
Não por acaso, mercados mais maduros caminham na direção contrária: a União Europeia avança com o CSRD e o ESRS; os Estados Unidos seguem com as propostas da SEC; e o próprio ISSB consolida padrões que se tornam referência em mais de trinta jurisdições. O Brasil, que poderia liderar essa agenda no contexto do Sul Global — especialmente diante do seu protagonismo na bioeconomia e na transição energética —, corre o risco de sinalizar um retrocesso num momento em que a janela de oportunidade ainda está aberta.
Transparência não é escolha — é dever
Sustentabilidade não é uma agenda de marketing. É uma agenda de gestão de riscos, alocação eficiente de capital e responsabilidade fiduciária. Em um mundo crescentemente impactado pelas mudanças climáticas, pela perda de biodiversidade e pela pressão por modelos econômicos mais resilientes e regenerativos, transparência não deveria ser tratada como opção. Transparência é um dever ético — e, no caso das companhias abertas, um dever também legal e fiduciário perante seus acionistas e stakeholders.
Quando o silêncio passa a ser permitido, ele rapidamente se transforma em estratégia. Quando o apagamento se torna estratégia, ele contamina a confiança que sustenta os mercados. E quando a confiança se deteriora, quem paga o preço mais alto não são as empresas — são os investidores, os ecossistemas e as gerações que herdarão as consequências de decisões tomadas no escuro.
O regulador que recua da transparência não neutraliza o risco. Apenas o torna invisível.
E tornar invisível o risco não é proteger o mercado. É abandoná-lo.
Jandaraci Araujo é mestranda em Bioeconomia, conselheira de administração e Diretora Executiva do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.
Este artigo é uma colaboração do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) com VEJA







