A espiral do silêncio: quem cala nem sempre consente
Quanto mais visível e expressiva é uma determinada opinião, maior tende a ser a disposição das pessoas de se manifestarem a seu favor
Ano de eleições. O que você verá – e já está vendo – são vários candidatos em disputa para chamar a sua atenção. São narrativas atrás de narrativas, pesquisas e mais pesquisas de opinião. E você, o que está pensando? Quem está apoiando? Pode ser que a sua forma de ser, de agir ou de enxergar a vida seja diferente daquela apresentada como sendo a da maioria. Mas cuidado: você pode estar prestes a ser influenciado, se é que já não foi.
A cientista política alemã Elisabeth Noelle-Neumann publicou, em 1982, o livro intitulado A Espiral do Silêncio – Opinião Pública: o Novo Tecido Social, no qual sistematizou sua teoria da espiral do silêncio e explicou, entre outros fenômenos, como as pesquisas de opinião e o chamado clima de opinião podem influenciar a disposição das pessoas em expressar aquilo que pensam.
Em suas pesquisas, a autora procurou demonstrar que, quando determinado assunto envolve opiniões conflitantes, a posição cujos defensores se mostram mais dispostos a se manifestar tende a ganhar maior visibilidade e a sobressair no clima de opinião, estimulando, por sua vez, novas manifestações favoráveis à mesma perspectiva. Essa exposição pode fazer com que uma determinada posição pareça mais predominante do que realmente é.
O clima de opinião é o que as pessoas imaginam que as outras pessoas estejam pensando ou apoiando. Os indivíduos, ao perceberem que suas opiniões divergem daquelas que parecem ser preponderantes e, por temerem as sanções sociais, especialmente o isolamento, deixam de expressar uma possível posição contrária e optam, muitas vezes, pelo silêncio. Trata-se de um processo de autocensura provocado pela pressão social. As pessoas não necessariamente têm medo de estarem erradas, mas, principalmente, de ficarem sozinhas.
Assim, quanto mais visível e expressiva é uma determinada opinião, maior tende a ser a disposição das pessoas de se manifestarem a seu favor; inversamente, quanto menos visível e mais silenciosa é uma posição, maior tende a ser o número de indivíduos que deixam de expressá-la. É nesse movimento contínuo de retroalimentação que se forma o processo da espiral do silêncio.
No cenário atual, os meios de comunicação exercem um papel crucial nesse processo. Aquilo que ganha maior visibilidade é amplamente propagado, levando as pessoas com pensamentos diversos a acreditar que fazem parte de uma minoria. Importante dizer que o funcionamento das redes sociais, embora não fizesse parte da formulação original da teoria, permite pensar em novos mecanismos capazes de potencializar a espiral do silêncio. Os sistemas de recomendação das plataformas digitais (como, por exemplo, o algoritmo) selecionam e entregam aos usuários uma parte significativa dos conteúdos que visualizarão. Curtidas, comentários, perda de seguidores e cancelamentos são alguns dos sinais e consequências sociais que podem gerar receio e modificar o comportamento dos usuários. Há ainda uma questão mais profunda: se cada pessoa recebe uma seleção diferente de conteúdos, como saber qual é, de fato, a opinião predominante? Nesse ambiente, a visibilidade pode ser confundida com maioria.
Outro ponto relevante é que as pessoas estão continuamente observando o ambiente e o contexto em que se encontram. À medida que o espaço e as pessoas ao seu redor mudam, elas podem se sentir mais ou menos seguras para manifestar aquilo que pensam.
Um mesmo indivíduo pode parecer mais progressista em uma roda de amigos, mais conservador no ambiente de trabalho e, nas redes sociais, manter-se silente. Seu comportamento, portanto, pode variar de acordo com a percepção do risco de exclusão social.
Em muitos casos, as pessoas não necessariamente mudam de opinião; apenas percebem que é mais seguro permanecer em silêncio.
Dependendo do contexto, especialmente para profissionais que atuam nas redes sociais, um posicionamento público pode acarretar perda de clientes, contratos, promoções ou até mesmo da própria reputação, tornando elevado o custo de sua manifestação.
Nas eleições, pode-se dizer que uma das maiores forças políticas talvez não venha da esquerda nem da direita, mas do medo do isolamento. Quando, em uma democracia, o custo percebido de se manifestar publicamente supera o benefício de participar do debate, a espiral do silêncio pode se instalar progressivamente. Nesse contexto, não é necessária uma censura explícita: basta que a autocensura cumpra esse papel.
Isso não significa, contudo, que todos aqueles que percebem estar em minoria permanecerão calados. Há indivíduos que, por convicção ou segurança em suas próprias posições, continuam dispostos a se manifestar mesmo diante da possibilidade de isolamento. E essa minoria mais expressiva pode ter o poder de subverter a ordem das coisas, pois, em vez de ver a pressão social apenas como força de conformidade, pode reconhecê-la como uma oportunidade para promover a mudança que deseja.
Então, a partir dessa reflexão, observem atentamente aquilo que veem e ouvem. A conhecida expressão “quem cala, consente” talvez guarde algum fundo de razão. Afinal, embora o silêncio não represente necessariamente concordância, ele pode, ainda que indiretamente, contribuir para o fortalecimento e a expansão de uma determinada opinião — inclusive contrária àquela que você defende.
Thaís Cristo Andrade é Professora de Direito. Mestre em Instituições Sociais, Direito e Democracia pela Universidade FUMEC. Especialista em Filosofia e Teoria do Direito pela PUC Minas, onde também se graduou em Direito. É Servidora Pública no Estado de Minas Gerais. Instagram: @thaiscristoandrade
Este artigo é uma colaboração do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) com VEJA







