Tarifaço já muda mapa de fábricas das empresas brasileiras
WEG reduziu de 30% para 20% a fatia do mercado americano abastecida pelo Brasil; Portobello adiou investimentos e Gerdau colhe vantagem de produzir nos EUA
O tarifaço americano ainda aparece de forma limitada na balança comercial de julho, mas já está provocando mudanças concretas dentro das grandes empresas brasileiras. Enquanto algumas transferem produção para México e Estados Unidos para escapar das barreiras, outras adiam investimentos ou tentam obter exceções em Washington. Há ainda quem esteja do lado vencedor: companhias brasileiras com fábricas nos EUA passaram a se beneficiar da proteção contra concorrentes importados.
É o caso da WEG. Em 2024, cerca de 30% dos produtos vendidos pela companhia nos Estados Unidos eram abastecidos por fábricas brasileiras. Hoje, essa parcela está próxima de 20%. Do restante, aproximadamente 33% já é produzido nos próprios EUA e 41% vem do México. A administração da fabricante de equipamentos elétricos afirmou, na teleconferência do segundo trimestre, que, diante das tarifas, aumentou a produção nas unidades mexicana e americana e que os efeitos dessa mudança já aparecem nos números. Nos contratos novos, a empresa também passou a prever mecanismos para repassar ao cliente eventuais custos tarifários.
A Portobello vive situação diferente. A fabricante de revestimentos investiu US$ 200 milhões em uma fábrica no Tennessee, justamente para ampliar sua produção dentro dos Estados Unidos, mas ainda depende do Brasil para complementar formatos e produtos que a unidade americana não fabrica. Em depoimento ao governo americano, a companhia informou que suas importações do Brasil já haviam caído 56% em relação ao ano anterior em consequência das tarifas anteriores. A incerteza levou ainda ao adiamento, do terceiro trimestre de 2026 para o mesmo período de 2027, de investimentos e contratações previstos nos EUA. A empresa chegou a alertar que alguns projetos podem ser cancelados.
Na Gerdau, a lógica se inverte. Como boa parte de sua operação norte-americana produz dentro dos Estados Unidos, as barreiras ao aço importado ajudam a proteger suas usinas locais. No segundo trimestre, o Ebitda ajustado da operação norte-americana alcançou R$ 2,6 bilhões, alta de 59% em um ano, e a margem bruta avançou de 15,3% para 23%. A companhia relacionou parte da melhora ao ambiente criado pelas tarifas da Seção 232. Nesse caso, o protecionismo americano pode prejudicar a competitividade da produção brasileira e, ao mesmo tempo, beneficiar uma multinacional brasileira instalada do lado de dentro da barreira.
Outras empresas escolheram Washington como frente de batalha. A Klabin pediu ao governo americano exclusões para categorias específicas de papéis e embalagens produzidos no Brasil. A CSN também atuou para evitar que produtos siderúrgicos já submetidos à Seção 232 acabassem sujeitos a uma segunda sobretaxa. A Tupy, por sua vez, ganha flexibilidade com a expansão de sua operação mexicana: a fábrica de Ramos Arizpe produz componentes para o mercado norte-americano com conteúdo compatível com as regras do USMCA, tornando-se uma alternativa industrial importante num cenário de fragmentação comercial.
Os números da balança ajudam a dimensionar o movimento, embora julho ainda tenha capturado poucos dias da nova tarifa. As exportações brasileiras cresceram 6,2% sobre julho de 2025, para US$ 34,1 bilhões, mas as vendas aos Estados Unidos caíram 5% em valor e 11,9% em volume. No acumulado até julho, o volume exportado aos americanos recua 15,1%. A fotografia mais reveladora, porém, começa a surgir dentro das próprias empresas: produção que deixa de crescer no Brasil, pedidos deslocados para outros países, investimentos postergados e capital sendo direcionado para onde a tarifa não alcança.







