Racha e coerção marcam início da paralisação dos caminhoneiros
Divisão na categoria e ataques nas estradas expõem fragilidade da pressão pela MP do Frete.
A paralisação dos caminhoneiros iniciada nesta segunda-feira (13) expôs, logo nas primeiras horas, uma categoria fragmentada e uma aposta política de alto risco da Abrava, associação liderada por Wallace Landim, o “Chorão”. Principal articuladora do movimento, a entidade tenta pressionar o Senado a votar a MP 1.343/2026, a chamada MP do Frete, antes que o texto perca a validade na quinta-feira (16).
A MP do Frete reforça a fiscalização do piso mínimo do transporte rodoviário de cargas. O texto torna obrigatório o cadastramento de cada operação e a emissão do Código Identificador da Operação de Transporte, o CIOT, mecanismo que permite à Agência Nacional de Transportes Terrestres cruzar os valores efetivamente pagos com a tabela oficial. A proposta também amplia as medidas administrativas contra embarcadores que contratarem fretes abaixo do piso, razão pela qual é tratada pelas entidades de caminhoneiros como uma proteção contra a compressão dos preços em momentos de baixa demanda.
O problema para Chorão é que a adesão espontânea ficou abaixo do esperado. Uma parcela relevante dos caminhoneiros autônomos e dos donos de pequenas frotas decidiu continuar trabalhando, diante do custo financeiro de manter os veículos parados e do desgaste acumulado por sucessivas convocações de greve.
O esvaziamento abriu espaço para episódios de coerção nas estradas. Caminhoneiros que optaram por seguir viagem relatam ataques com pedras e outros objetos, especialmente contra para-brisas. A tática busca transformar o medo de prejuízo material em instrumento para ampliar artificialmente a adesão ao movimento.
Em São Paulo, porém, o impacto inicial foi limitado. A Polícia Militar informou que os atos registrados na Baixada Santista e nas principais rodovias não provocaram alterações significativas no fluxo de veículos. Até agora, não houve bloqueios capazes de comprometer de forma relevante o transporte de cargas.
Nos bastidores de Brasília, a leitura é de que a paralisação funciona como o último cartucho da Abrava para pressionar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e demonstrar capacidade de mobilização ao Palácio do Planalto. A MP está pautada para votação no plenário nesta terça-feira (14), o que dá ao movimento um prazo político curto e bem definido.
O agronegócio e a indústria mantêm equipes em alerta para eventuais bloqueios, mas ainda não enxergam risco imediato de desabastecimento. Sem apoio homogêneo da categoria e dependendo de atos isolados de intimidação para reduzir o fluxo nas rodovias, a paralisação corre o risco de perder força assim que o Congresso der um desfecho à MP do Frete.
Atualização às 14h40: Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, viaturas do 6º BPMI estão acompanhando a manifestação. “Não há histórico de apedrejamento.” A foto encaminhada ao Radar Econômico, no entanto, mostra um histórico diferente. A nota continua: “Está pacífico. Cerca de 20 manifestantes. Os caminhoneiros que não desejam aderir à manifestação estão seguindo caminho normalmente.”







