Quais empresas ganharam e quais perderam na lista final do tarifaço
JBS, Nestlé e siderúrgicas ganham; Bracell, WEG e Klabin perdem na lista final dos USTR
A lista final de exceções ao tarifaço americano produziu uma divisão clara entre empresas que conseguiram escapar da sobretaxa de 25% e companhias que continuarão pagando para acessar o mercado dos Estados Unidos.
Entre as vencedoras estão a JBS, fabricantes de café solúvel como Cacique, Cocam, Realcafé e Nestlé, a operação brasileira da Alcoa e dezenas de produtoras de ferro-gusa. Do outro lado ficaram Bracell, WEG, Klabin, Portobello, Tecumseh e as principais fabricantes brasileiras de calçados.
Levantamento do Radar Econômico a partir dos anexos do USTR mostra que a decisão final acrescentou 429 códigos à lista de exceções. Foram 88 isenções integrais e 341 restritas a aplicações farmacêuticas. Ao mesmo tempo, o governo americano retirou um produto — a celulose solúvel da Bracell — e limitou ao uso farmacêutico outros 364 códigos químicos que estavam integralmente protegidos na proposta.
A mudança está detalhada na decisão final do USTR, que entra em vigor em 22 de julho.
Ferro-gusa leva o maior prêmio
A maior vitória econômica ficou com as produtoras brasileiras de ferro-gusa. Em 2025, os Estados Unidos importaram aproximadamente US$ 1,45 bilhão do produto brasileiro, segundo dados do UN Comtrade.
A decisão beneficia diretamente siderúrgicas privadas como SAMA, IFG, AVG, Fergubel, Ferroeste, Metalsider, Metalsete e Vetorial, entre outras. Muitas dessas empresas dependem fortemente do mercado americano e chegaram a suspender negociações enquanto aguardavam a decisão de Washington.
O Brasil fornece mais de 60% do ferro-gusa importado pelos Estados Unidos. Produtoras americanas de aço que operam fornos elétricos fizeram lobby pela exceção, alegando que não há oferta doméstica suficiente e que o produto brasileiro não poderia ser substituído por sucata ou ferro-esponja.
Embora menos conhecidas do grande público, as produtoras de ferro-gusa receberam o maior benefício empresarial da lista final. O valor do comércio protegido supera, com folga, o de café solúvel, mel e hidróxido de alumínio somados.
Café solúvel salva sete grandes fabricantes
A inclusão do café solúvel sem sabor beneficia o grupo restrito de empresas que concentra a produção brasileira: Cacique, controlada pela Louis Dreyfus Company; Cocam; IGC; Realcafé; Café Campinho; Nestlé; e ofi.
As sete aparecem na relação de associadas da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel. Os Estados Unidos compraram cerca de US$ 203 milhões em extratos e café solúvel do Brasil em 2025.
A exclusão era uma das prioridades do setor porque o café solúvel havia ficado de fora de alívios tarifários anteriores concedidos ao café em grão. Segundo a ABICS, as vendas brasileiras aos Estados Unidos já haviam recuado quase 30% sob as tarifas anteriores.
A vitória é especialmente relevante para Cacique, Cocam, IGC e Realcafé, que possuem unidades industriais estruturadas para produzir café solúvel em grande escala e dependem mais das exportações do que a Nestlé.
JBS ganha uma nova proteção
A carne bovina já estava protegida na proposta inicial. A novidade para a JBS veio com a inclusão de determinados tipos de peles e couro bovino.
A divisão JBS Couros — em processo de combinação com a Viva para formar a JBS Viva — é uma das maiores processadoras de couro do mundo e possui estoque e distribuição nos Estados Unidos. Também ganham Minerva Leather, Durli, Fuga Couros, Matrotto e outras exportadoras.
As famílias aduaneiras de couros beneficiadas movimentaram até US$ 90 milhões em importações americanas originárias do Brasil em 2025. O valor efetivamente protegido é menor porque apenas alguns subitens receberam a exceção.
Para a JBS, o efeito sobre o resultado consolidado tende a ser limitado diante do tamanho do grupo. Ainda assim, a decisão preserva a competitividade de uma operação que transforma peles, subproduto dos frigoríficos, em couro para móveis, automóveis e calçados.
Alcoa e pescados também estão entre os vencedores
A inclusão do hidróxido de alumínio beneficia principalmente Alcoa Alumínio e Alcoa World Alumina Brasil. As importações americanas do produto brasileiro somaram US$ 122 milhões em 2025.
O USTR aceitou o argumento de que o único fornecedor americano não consegue atender à demanda e que aproximadamente 40% do abastecimento dos Estados Unidos vem do Brasil. O produto é utilizado no tratamento de água, em materiais antichamas e na indústria de petróleo e gás.
Nos pescados, a lista abre exceções para tilápia, lagosta, atum, peixe-espada e outros produtos. Entre as empresas potencialmente beneficiadas estão Copacol, Allmare, Cais do Atlântico, JC Pescados, Fider Pescados, do grupo MCassab, e Produmar. As famílias alcançadas movimentaram até US$ 189 milhões em 2025.
No mel orgânico, os principais nomes são Apidouro, Apis Nativa/Prodapys, Minamel e Grupo Sama. A exceção vale apenas para o produto certificado como orgânico.
Bracell é a derrota mais explícita
A Bracell foi a única empresa diretamente atingida pela retirada de um produto que já estava protegido na proposta.
O USTR excluiu da lista a celulose solúvel, utilizada na produção de fibras têxteis, acetatos e outros derivados. A decisão ocorreu depois de uma ofensiva da americana Rayonier Advanced Materials, que citou nominalmente a Bracell nas audiências e pediu a cobrança da tarifa.
Além dos 25% da Seção 301, a celulose de alta pureza da Bracell já está submetida a medidas antidumping e compensatórias preliminares nos Estados Unidos. A combinação das medidas pode elevar em mais de 34% o custo de entrada do produto brasileiro.
A retirada representa uma vitória direta para a Rayonier e uma derrota particularmente dura para a Bracell, uma vez que a companhia havia conseguido aparecer na lista preliminar.
WEG fez lobby, mas seus motores ficaram de fora
A WEG pediu ao governo americano a inclusão de 15 códigos de motores elétricos e geradores. Nenhum deles apareceu na lista final.
As famílias aduaneiras abrangidas pelo pedido movimentaram US$ 333 milhões em importações americanas originárias do Brasil em 2025. O valor não corresponde exclusivamente às vendas da WEG, mas mostra o tamanho do mercado exposto.
A empresa argumentou que seus equipamentos são usados em data centers, infraestrutura de inteligência artificial, defesa e sistemas de energia. Também afirmou que emprega mais de 2.300 pessoas nos Estados Unidos e que a tarifa poderia prejudicar suas próprias fábricas americanas.
O USTR rejeitou o argumento. Na decisão, o órgão afirmou que a existência de custos maiores para uma empresa específica não comprova falta generalizada de fornecedores alternativos.
Klabin também não conseguiu salvar seus produtos
A Klabin pediu exceções para três linhas de produtos: os papéis Eukaliner e Eukaliner White; o cartão para embalagens assépticas KlaLiquid; e os sacos industriais Klasack.
Os códigos solicitados movimentaram cerca de US$ 42 milhões em importações americanas do Brasil em 2025. Nenhum foi incluído.
A companhia argumentou que sua produção é baseada em florestas plantadas de pinus e eucalipto, sem relação com o desmatamento ilegal investigado pelo governo americano. Também sustentou que os Estados Unidos não produzem equivalentes de algumas dessas mercadorias.
Nem o argumento ambiental nem a falta de substitutos foram suficientes para convencer o USTR.
Portobello, Tecumseh e Sylvamo fracassam
A Portobello pediu exceção para três códigos de pisos e revestimentos cerâmicos. Juntos, eles representaram aproximadamente US$ 105 milhões em importações americanas do Brasil em 2025.
A empresa chegou a alegar que a tarifa prejudicaria sua fábrica de quase um milhão de pés quadrados no Tennessee. Mesmo assim, os códigos permaneceram fora da lista.
A Tecumseh do Brasil também fracassou na tentativa de proteger compressores e componentes para refrigeração. As famílias solicitadas movimentaram cerca de US$ 64 milhões em 2025.
A Sylvamo, multinacional americana com importantes fábricas no Brasil, pediu a exclusão de três categorias de papel não revestido. O comércio alcançou US$ 104 milhões. O pedido também foi rejeitado.
As solicitações e os respectivos códigos foram apresentados na audiência oficial do USTR.
Calçadistas continuam expostas
A lista final não trouxe alívio para os calçados acabados. Com isso, continuam expostas fabricantes como Grendene, Alpargatas, Vulcabras, Beira Rio, Democrata, Bibi e dezenas de empresas do polo gaúcho.
Os Estados Unidos foram o principal destino do calçado brasileiro em 2025, com compras de US$ 211,9 milhões. A Abicalçados e grandes varejistas americanos defenderam a exceção, mas o USTR concluiu que os importadores podem buscar fornecedores em outros países.
O resultado é particularmente negativo para fabricantes de calçados de couro e de maior valor agregado, segmentos nos quais o Brasil compete menos por preço e mais por qualidade e flexibilidade de produção.
A derrota escondida da química
Além das empresas que tiveram pedidos recusados, a decisão criou um grupo menos visível de perdedores. O USTR restringiu 364 códigos químicos que estavam totalmente isentos na proposta, mantendo o benefício apenas quando o produto tiver aplicação farmacêutica.
Essas famílias somaram até US$ 243 milhões em importações americanas do Brasil em 2025. Entram no radar fabricantes de lecitina, aminoácidos, derivados de celulose, corantes, polímeros, surfactantes e outros insumos utilizados em alimentos, rações, cosméticos, tintas e plásticos.
A Caramuru, por exemplo, produz lecitina de soja destinada à indústria alimentícia. A lecitina passou a ter exceção apenas para aplicação farmacêutica. Caso seja exportada aos Estados Unidos para alimentos ou rações, continuará sujeita aos 25%.
A lista final, portanto, fez mais do que ampliar exceções. Ela escolheu empresas e cadeias produtivas que Washington considera indispensáveis — e deixou algumas das maiores indústrias brasileiras do lado de fora.







