ASSINE VEJA NEGÓCIOS
Imagem Blog

Radar Econômico

Por Machado da Costa Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Análises e bastidores exclusivos sobre o mundo dos negócios e das finanças

O que se sabe sobre o escândalo da Apex, que pode abalar a política capixaba

Grupo reconheceu passivo preliminar de R$ 985,6 milhões, afastou o fundador e o diretor financeiro e obteve proteção judicial

Por Machado da Costa Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 8 ago 2026, 15h00 | Atualizado em 8 ago 2026, 15h57
O que se sabe sobre o escândalo da Apex, que pode abalar a política capixaba Priorizar nos meus resultados Google

Em menos de 48 horas, uma das mais conhecidas plataformas de investimentos do Espírito Santo afastou seu fundador, reconheceu uma dívida próxima de R$ 1 bilhão, correu à Justiça para evitar uma corrida de credores e provocou o bloqueio de resgates em um fundo com centenas de investidores. A crise da Apex Partners já transbordou do mercado financeiro para a política capixaba.

O caso começou a vir a público na quinta-feira, 6 de agosto. A Apex informou que apurações realizadas por integrantes de seu partnership encontraram “inconsistências financeiras” e afastou Fernando Antonio Kulnig Cinelli da presidência e Eduardo Siqueira da diretoria financeira. Marcelo Murad assumiu interinamente. A companhia anunciou a contratação de uma auditoria externa e disse que adotará medidas para buscar responsabilizações nas esferas cível e criminal. Também informou que pretende processar Cinelli por suposta “gestão temerária e má-fé” e pedir o bloqueio preventivo de seus bens. Cinelli afirmou que está disposto a colaborar com os esclarecimentos. Siqueira ainda não se manifestou publicamente.

No dia seguinte, a nova administração apresentou à Justiça números muito superiores às estimativas que circulavam no mercado. O passivo bruto preliminar chegou a R$ 985,6 milhões, enquanto a dívida líquida teria saltado de R$ 413 milhões, em janeiro de 2025, para R$ 975 milhões em junho deste ano. Somente no primeiro semestre, a Apex teria contraído R$ 300 milhões em novas dívidas e, segundo os documentos entregues ao Judiciário, 58% desse dinheiro não teria se transformado em novos ativos.

Entre os compromissos relacionados pela companhia estão R$ 452,1 milhões em debêntures emitidas por meio da Rhino Securitizadora, R$ 309,8 milhões em obrigações associadas a mecanismos de cashback de aproximadamente 1.600 posições de clientes, R$ 201,7 milhões em dívidas bancárias com aval e R$ 35,2 milhões em tributos correntes atrasados. O levantamento também registra perdas integrais estimadas em R$ 38,1 milhões em 65 operações de mútuo. De R$ 261,5 milhões apresentados como ativos realizáveis, a própria avaliação interna estima recuperar apenas R$ 190,1 milhões. Os números ainda não foram validados por auditoria independente.

A Apex obteve uma liminar que suspende execuções, penhoras, arrestos e bloqueios contra as empresas alcançadas pela decisão. A companhia ainda não está formalmente em recuperação judicial, mas terá de apresentar o pedido em até 30 dias se quiser conservar a proteção. A decisão não abrange o patrimônio das classes de fundos, as emissões de recebíveis com patrimônio separado nem os ativos vinculados a incorporações imobiliárias.

Continua após a publicidade

O impacto sobre os investidores, porém, já começou. O BRM Carbyne Crédito Estruturado, administrado pelo BTG Pactual e gerido pela BRM Carbyne, teve os resgates suspensos por “incompatibilidade” entre a liquidez da carteira e o volume de pedidos. O fundo tinha patrimônio de R$ 160,5 milhões e 909 cotistas. Isso não significa que os R$ 160,5 milhões tenham sido solicitados nem que todos os 909 investidores tenham pedido o dinheiro de volta: esses são, respectivamente, o patrimônio total e o número total de cotistas.

A última carteira detalhada disponível na CVM ajuda a explicar o bloqueio. Em 30 de junho, o fundo tinha R$ 148 milhões de patrimônio e apenas R$ 220,8 mil em liquidez imediata. Cerca de R$ 113,1 milhões estavam classificados com prazo de liquidez superior a 360 dias. Praticamente 99,9% do patrimônio estava aplicado em nove fundos geridos pela Contea Capital, companhia posteriormente comprada integralmente pela própria Apex. A maior posição, de R$ 104,1 milhões, estava em um único FIDC fechado, criado em março, com prazo de cinco anos e apenas um cotista. Os dados constam da composição oficial de carteira divulgada pela CVM.

Essa concentração não prova, isoladamente, fraude ou perda patrimonial. Mostra, entretanto, que um fundo oferecido pela estrutura da Apex mantinha quase todos os recursos em veículos administrados por outra gestora do grupo e possuía liquidez imediata equivalente a apenas 0,15% do patrimônio. Pela Resolução CVM 175, o fechamento também cancela os pedidos de resgate ainda não convertidos. Caso o fundo seja reaberto, os investidores poderão ter de refazer as solicitações.

Continua após a publicidade

A crise alcançou ainda a CVC. Fundos e investidores ligados à Apex reuniram mais de 15% da operadora de turismo e passaram a integrar um acordo de acionistas com a família Paulus. Fernando Cinelli havia sido eleito para o conselho da CVC em maio, mas renunciou no mesmo dia em que foi afastado da Apex. A operadora afirma que essa é sua única relação direta com a crise. Uma das questões ainda sem resposta é quanto dos R$ 309,8 milhões em obrigações de cashback está relacionado às estruturas montadas para financiar a compra de ações da CVC ou garantir retorno aos investidores.

É nesse ponto que o caso encosta na política. Pedro Chieppe Ferraço, filho do governador e candidato à reeleição Ricardo Ferraço, é vice-presidente institucional e acionista direto da Apex. Uma ata societária oficial mostra que ele converteu R$ 500 mil em debêntures em 8.921 ações ordinárias e uma ação preferencial da holding, em dezembro de 2025. Pedro também foi eleito diretor de compliance da Rhino Securitizadora, empresa responsável pelas debêntures que representam R$ 452,1 milhões do passivo informado pela Apex.

Victor Casagrande, filho do ex-governador e candidato ao Senado Renato Casagrande, também aparece como diretor institucional da Apex e já foi apresentado publicamente como sócio-diretor da companhia. Cadastros empresariais indicam participações em sociedades do partnership, mas não foi encontrada ação da holding Apex registrada diretamente em seu nome.

Continua após a publicidade

Até agora, não existe documento público apontando Pedro ou Victor como participantes das inconsistências, nem indicação de que Ricardo Ferraço ou Renato Casagrande tenham tido qualquer envolvimento nos negócios investigados. Os afastamentos e as acusações anunciadas pela própria Apex atingem somente Cinelli e Siqueira.

O potencial de desgaste político vem do calendário e da proximidade. Ricardo Ferraço teve sua candidatura à reeleição oficializada em 5 de agosto; a crise veio a público no dia seguinte. Renato Casagrande, que deixou o governo para disputar o Senado e lidera as pesquisas, integra a mesma aliança eleitoral. Diante da repercussão, o governo estadual se antecipou para afirmar que não há recursos do Tesouro nem do Fundo Soberano aplicados na Apex.

A manifestação afasta, por enquanto, a suspeita de exposição direta de dinheiro público. Não encerra, contudo, as perguntas sobre o conhecimento que Pedro e Victor tinham da situação financeira, a extensão de suas atribuições, a governança do grupo e as eventuais relações institucionais da Apex com o poder público capixaba.

Continua após a publicidade

O que se sabe, portanto, é que a Apex enfrenta uma crise concreta de quase R$ 1 bilhão, com dívida crescente, ativos de recuperação incerta, fundos sem liquidez e uma ruptura no comando. O que ainda não se sabe é a origem exata das inconsistências, o destino de parte do dinheiro captado, o prejuízo efetivo dos investidores e quem, além dos dois executivos afastados, tinha conhecimento dos números. São essas respostas — da auditoria, do Judiciário e dos órgãos reguladores — que determinarão se o escândalo ficará restrito ao mercado ou se entrará definitivamente na campanha eleitoral do Espírito Santo.

Atualização às 16h: a assessoria de Fernando Cinelli enviou uma nota, reproduzida abaixo, na íntegra.

O empresário Fernando Antonio Kulnig Cinelli, fundador da Apex Partners, está dedicado e comprometido a contribuir da melhor forma para a preservação da companhia, seus investidores e acionistas. Com o gesto, ele demonstra sua disposição em esclarecer todas as questões levantadas com total transparência e idoneidade.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional com fundo verde-escuro. À esquerda, texto em verde-limão O MÊS É DO CLIENTE. e em branco A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua.. À direita, uma mão segura um smartphone exibindo um portal de notícias com banner e produtos, e ao lado, uma árvore estilizada em verde-limãoMão segurando um smartphone com aplicativo de notícias exibindo manchetes e produtos, ao lado do texto O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua em fundo verde-escuro, com um ícone de árvore no canto superior direito
ECONOMIZE ATÉ 87% OFF

Digital Básico

O mercado não espera — e você também não pode!
Com a Veja Negócios Digital, você tem acesso imediato às tendências, análises, estratégias e bastidores que movem a economia e os grandes negócios.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
OFERTA MÊS DO CLIENTE

Revista em Casa + Digital Premium

Veja Negócios impressa todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Completo
De: R$ 29,99/mês
A partir de R$ 10,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).