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O profeta da IA que perdeu 67% às vésperas do casamento

Enquanto convidados chegavam, Leopold Aschenbrenner negociava a venda de sua carteira para impedir que um império de US$ 45 bilhões desmoronasse

Por Machado da Costa Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 2 ago 2026, 10h00
O profeta da IA que perdeu 67% às vésperas do casamento Priorizar nos meus resultados Google

O casamento havia sido concebido como uma celebração à altura do novo casal de ouro da inteligência artificial. Durante vários dias, convidados se reuniriam em Carmel, elegante cidade litorânea da Califórnia. Antes da cerimônia, participariam de um colóquio com painéis e grupos de discussão. Os votos seriam trocados em uma villa de inspiração toscana e a despedida ocorreria em um spa encravado na floresta. O único pedido dos noivos era que ninguém levasse presentes. Dinheiro, afinal, parecia ser a última preocupação de Leopold Aschenbrenner.

Aos 24 anos, o noivo comandava o Situational Awareness, fundo que havia montado posições de aproximadamente US$ 45 bilhões em empresas ligadas à corrida da inteligência artificial. A noiva, Avital Balwit, é chefe de gabinete de Dario Amodei, presidente da Anthropic, uma das mais valiosas desenvolvedoras de IA do mundo — e uma das principais apostas privadas do fundo de Aschenbrenner. Os dois se conheceram no Future Fund, braço filantrópico da FTX, a corretora de criptomoedas de Sam Bankman-Fried que implodiu em 2022.

Balwit chegou a brincar nas redes sociais que pedira aos organizadores uma decoração no estilo “jardim europeu no limiar da singularidade”, referência ao momento hipotético em que as máquinas superariam a inteligência humana. “Eles acham que nós enlouquecemos”, escreveu. Quando os primeiros convidados começaram a chegar a Carmel, porém, não era a singularidade que ameaçava virar a vida do casal de cabeça para baixo. Era uma das crises financeiras mais espetaculares do ano. Os detalhes da celebração foram revelados pelo Wall Street Journal e pela Fortune.

Nos bastidores do Situational Awareness, bancos exigiam mais garantias, operadores tentavam encontrar compradores para bilhões de dólares em ativos e fundos rivais farejavam sangue. Patrick e John Collison, os bilionários fundadores da Stripe e investidores da gestora, passaram horas no escritório de Aschenbrenner. Citadel e Millennium analisaram a carteira e negociaram até depois da meia-noite. Na outra ponta do telefone, o noivo tentava impedir que seu fundo entrasse em default.

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O mais extraordinário é que, poucas semanas antes, Aschenbrenner era tratado como uma espécie de Nostradamus da inteligência artificial. Nascido na Alemanha, ele se formou como o melhor aluno de sua turma na Universidade Columbia aos 19 anos e depois integrou a equipe de superalinhamento da OpenAI. Foi demitido em 2024 sob a acusação de compartilhar informações internas — versão que contestou — e reagiu publicando um ensaio de 165 páginas chamado Situational Awareness: The Decade Ahead (Consciência Situacional: a Década à Frente, em tradução literal).

O texto previa a chegada de sistemas com capacidades semelhantes às humanas por volta de 2027 e descrevia uma corrida de trilhões de dólares por chips, energia e centros de dados. Circulou entre investidores, executivos e autoridades em Washington. Aschenbrenner transformou a reputação de jovem visionário em um negócio e convenceu a aristocracia financeira do Vale do Silício a apostar nele: a Jane Street, uma das mais poderosas firmas de negociação de Wall Street; os irmãos Collison; e Nat Friedman e Daniel Gross, investidores que se tornaram figuras centrais da corrida da inteligência artificial.

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Durante algum tempo, a profecia pareceu também uma fabulosa máquina de fabricar dinheiro. O fundo avançou 439% no primeiro semestre de 2026. Comprou agressivamente ações de fabricantes de chips e memórias, operadores de centros de dados e empresas de energia, como SK Hynix, SanDisk, CoreWeave, Broadcom e Bloom Energy. Para multiplicar os retornos, Aschenbrenner tomou dinheiro emprestado. Segundo relatos publicados nos Estados Unidos, chegou a operar com alavancagem de três a quatro vezes — para cada dólar de capital, havia até quatro dólares expostos ao mercado.

A engrenagem era extraordinariamente rentável enquanto os preços subiam. Em julho, passou a funcionar ao contrário. Ações de empresas ligadas à infraestrutura de IA caíram violentamente, enquanto algumas posições vendidas pelo fundo também se moveram na direção errada. A concentração transformou a correção em uma avalanche. À medida que a carteira perdia valor, os bancos cobravam garantias adicionais. Para levantar dinheiro, o Situational Awareness precisava vender ações. As vendas derrubavam ainda mais os preços, provocando novas cobranças dos bancos e obrigando o fundo a se desfazer de mais ativos.

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Outros operadores identificaram os papéis mais vulneráveis e apostaram contra eles. A liquidez desapareceu justamente quando Aschenbrenner mais precisava dela. Em carta aos investidores, ele comparou a dinâmica a uma corrida bancária: “vulnerabilidade gerando mais vulnerabilidade”. O jovem que construíra a reputação dizendo enxergar o futuro não havia previsto o velho e conhecido poder destrutivo do dinheiro emprestado.

Na noite de quarta-feira, 29, Aschenbrenner chegou a encaminhar a venda de cerca de US$ 3,5 bilhões de sua participação na Anthropic a um grupo liderado por Greenoaks e Sequoia Capital. Seria uma maneira dolorosa de conseguir caixa: abrir mão da joia privada do fundo para salvar as ações negociadas em bolsa. Entre a madrugada e a abertura do mercado na quinta-feira, ele mudou de ideia. Preservaria a Anthropic e sacrificaria a carteira pública.

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Ken Griffin, fundador da Citadel, entrou pessoalmente na operação. Reuniu alguns de seus principais executivos, falou diretamente com Aschenbrenner e atravessou a noite examinando posição por posição, avaliando o risco e a liquidez dos papéis. Antes da abertura do mercado, a Citadel comprou a maior parte de uma carteira pública estimada em US$ 16 bilhões. Segundo a imprensa americana, o desconto superou 10% em relação aos preços de mercado. Goldman Sachs, JPMorgan, Bank of America e Citigroup ajudaram a viabilizar a transferência. Era uma liquidação de emergência disfarçada de grande negócio.

A Citadel tem experiência nesse tipo de resgate. Griffin comprou ativos de fundos atingidos pela crise do subprime, absorveu posições da Amaranth Advisors depois de um desastre no mercado de gás natural e participou do socorro à Melvin Capital durante a batalha das ações da GameStop. Desta vez, adquiriu papéis de inteligência artificial quando o vendedor já não tinha condições de escolher o preço. Parte das ações se recuperou assim que o mercado soube que o despejo forçado havia terminado. A Reuters não conseguiu determinar quanto a Citadel ganhou com a operação.

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A venda permitiu ao Situational Awareness pagar os bancos, zerar a alavancagem e preservar a participação na Anthropic. Mas o tamanho do estrago era assombroso. O fundo perdeu 67% em julho e encolheu para uma carteira de cerca de US$ 10 bilhões. O desempenho espetacular dos meses anteriores ainda o deixava com valorização próxima de 80% no ano — uma lembrança de quão vertiginosa havia sido a escalada antes da queda.

Na quinta-feira, 30, enquanto os convidados desembarcavam em Carmel, Aschenbrenner enviou uma carta admitindo a gravidade do episódio. “Decepcionamos vocês neste mês”, escreveu. Reconheceu que o fundo chegara perigosamente perto de sofrer uma perda irreversível, assumiu a responsabilidade e prometeu reformular a gestão de risco. Também ofereceu conversas individuais aos cotistas na semana seguinte — justamente quando o roteiro do casamento previa que os recém-casados estariam no retiro na floresta. O fundo sobreviveria, garantiu, e continuaria investindo em ações, agora sem dinheiro emprestado.

O casamento não foi cancelado. A participação na Anthropic permaneceu intacta. O Situational Awareness tampouco desapareceu. Mas Aschenbrenner chegou ao altar com um império muito menor e uma lição que não cabia nas 165 páginas de sua profecia. Ele ainda pode estar certo sobre o futuro da inteligência artificial. Descobriu, da forma mais brutal possível, que prever o futuro e permanecer solvente até que ele chegue são atividades completamente diferentes.

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