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Novo Bolsa Família e celular grátis: o que vem no plano Flávio Bolsonaro

Antes da formalização do programa de governo, o Radar Econômico antecipa os eixos em elaboração do plano de governo do pré-candidato

Por Machado da Costa Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 jul 2026, 13h00 | Atualizado em 20 jul 2026, 13h12
Novo Bolsa Família e celular grátis: o que vem no plano Flávio Bolsonaro Priorizar nos meus resultados Google

Flávio Bolsonaro não pretende apenas manter o Bolsa Família. O plano em elaboração por sua equipe econômica é transformar o programa em uma plataforma mais ampla de transferência de renda, qualificação profissional e acesso ao crédito. O beneficiário que conseguir emprego formal ou abrir um MEI continuaria amparado por até dois anos e poderia receber cashback por cursos, educação financeira e microcrédito barato da Caixa Econômica Federal.

A campanha ainda não chama formalmente esse pacote de “novo Bolsa Família”. Na prática, porém, o desenho em discussão representa uma reformulação do programa: em vez de funcionar apenas como transferência de renda, o benefício passaria a ser a porta de entrada para uma rede de serviços e incentivos voltados à formalização e ao empreendedorismo.

Somado à promessa de internet gratuita para 70 milhões de mulheres e à possibilidade de distribuição de celulares para pessoas de baixa renda, o projeto começa a dar ao programa econômico do pré-candidato uma feição diferente daquela esperada por parte do mercado.

Há meses, banqueiros, gestores e empresários vêm pressionando Flávio a apresentar uma agenda essencialmente fiscalista, capaz de conter o crescimento das despesas e estabilizar a dívida pública. Empresários e executivos ouvidos reservadamente pelo Radar Econômico dizem que os anúncios feitos até agora caminham em outra direção: as medidas sociais e de crédito estão se tornando mais concretas, enquanto os cortes permanecem sem destinatário conhecido.

A resposta fiscal apresentada pela equipe de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e hoje principal voz pública da formulação econômica, prevê redução de despesas equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto, orçamento base zero e uma nova governança para o controle da dívida. Em valores projetados para 2027, o corte corresponderia a aproximadamente R$ 217 bilhões.

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A cifra é expressiva. O problema é que a campanha ainda não explicou de onde ela sairia.

Um Bolsa Família reformulado

A mudança mais avançada envolve a chamada regra de proteção. Flávio afirma que o beneficiário que conseguir emprego com carteira assinada ou abrir um MEI não perderá imediatamente o Bolsa Família. A formulação discutida por Daniella prevê a manutenção do apoio por dois anos depois da formalização.

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O mecanismo não é inteiramente novo. O Bolsa Família atual já permite que famílias cuja renda aumente continuem recebendo 50% do benefício. Para quem entrou na regra de proteção desde junho de 2025, o prazo é de até um ano. Os dois anos continuam valendo para as famílias que ingressaram anteriormente. Em março, cerca de 2,35 milhões de famílias estavam nessa situação.

O que Flávio parece propor, portanto, é restaurar o prazo de dois anos e possivelmente ampliar a proteção. Ainda não está claro, porém, se o beneficiário empregado receberia o valor integral ou apenas metade, qual seria o limite de renda e se a abertura de um MEI bastaria para assegurar a permanência no programa.

Também falta definir o custo adicional da mudança. O desenho pode representar apenas uma extensão da regra atual ou uma expansão considerável do público e do valor pago, dependendo das respostas a essas perguntas.

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A reformulação não termina no benefício. Flávio quer criar uma plataforma que conecte os inscritos a cursos, serviços públicos, educação financeira e linhas de microcrédito. O pré-candidato também propõe pagar cashback a quem investir em qualificação e complementar parte do dinheiro poupado pelo beneficiário, como estímulo à formação de reserva financeira.

O conceito apresentado pela campanha é o da “inclusão produtiva”: preservar a rede de proteção enquanto o beneficiário tenta obter renda própria. Mas ainda não se sabe quem financiaria os cursos, como funcionaria o cashback e se o incentivo seria incorporado ao orçamento do Bolsa Família ou pago por outro programa.

A conta da internet e dos celulares

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Outro núcleo da agenda é o Brasil por Elas, pacote de 12 propostas anunciado por Flávio ao lado de Daniella. O principal projeto é a Central da Mulher, uma plataforma física e digital destinada a reunir serviços de saúde, acolhimento, qualificação, crédito e proteção contra a violência.

A plataforma teria uma assistente de inteligência artificial chamada MarIA, integrada ao Gov.br. Por meio dela, as mulheres poderiam buscar atendimento médico, localizar creches, abrir empresas, pedir crédito e solicitar orientação em casos de violência doméstica. O pacote também inclui vouchers para creches particulares, aluguel social e acolhimento temporário de vítimas.

Para viabilizar o acesso, Flávio promete internet gratuita para 70 milhões de mulheres e diz estar discutindo com operadoras o fornecimento de celulares a quem não tenha condições de comprar um aparelho.

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O pré-candidato estimou em aproximadamente R$ 2 bilhões anuais o custo da internet. Dividido por 70 milhões de usuárias, o valor equivale a R$ 28,57 por mulher ao ano, ou R$ 2,38 por mês. A conta indica que a proposta dificilmente corresponderia a um plano convencional de dados. Poderia envolver acesso gratuito apenas à plataforma, navegação patrocinada ou alguma contrapartida das operadoras, mas o modelo não foi detalhado.

A distribuição dos aparelhos tampouco tem público e custo definidos. Como exercício ilustrativo, se o benefício fosse restrito às 28,7 milhões de mulheres atendidas pelo Bolsa Família e cada celular básico custasse R$ 700, a despesa inicial seria de aproximadamente R$ 20,1 bilhões, sem contar conexão, manutenção e reposição. O cálculo não é uma estimativa oficial da campanha, mas mostra como a definição do público pode alterar a conta.

Também não está claro se o Brasil por Elas será incorporado ao Bolsa Família e ao Cadastro Único ou se funcionará como uma política paralela. A resposta será decisiva para saber se a campanha está redesenhando apenas o benefício ou construindo uma nova arquitetura de programas sociais.

A Caixa como “banco da periferia”

A Caixa Econômica Federal terá papel central nessa estratégia. Flávio afirma que pretende transformá-la no “Itaú da periferia”, com crédito de juros baixos para beneficiários de programas sociais, trabalhadores informais e pequenos empreendedores.

A proposta prevê que parte do processo seja feita pela mesma plataforma: uma manicure, por exemplo, poderia receber orientação para formalizar o negócio e obter microcrédito sem precisar ir a uma agência.

A experiência anterior recomenda cautela. O SIM Digital, programa de microcrédito lançado pela Caixa em 2022, registrou inadimplência superior a 80%, segundo apurações sobre a carteira. Parte das perdas era coberta por um fundo garantidor abastecido com recursos do FGTS. O programa foi criado antes de Daniella assumir a presidência do banco, mas a experiência mostra a importância de definir critérios de concessão, garantias e quem absorverá eventuais prejuízos.

A campanha ainda precisa informar o tamanho pretendido para a carteira, a taxa de juros, a fonte dos recursos e o tratamento da inadimplência. Sem essas definições, o crédito barato pode representar desde uma política relativamente pequena de inclusão financeira até uma nova fonte de risco para o banco público.

O corte ainda sem endereço

Do lado fiscal, Daniella defende que todos os programas e despesas sejam reavaliados a partir do zero, em vez de receberem automaticamente o orçamento do ano anterior. Também propõe centralizar serviços administrativos dos ministérios, usar inteligência artificial para reduzir custos e revisar benefícios tributários considerados ineficientes.

A meta de cortar 1,5% do PIB, porém, exigirá medidas bem mais profundas. Os cerca de R$ 217 bilhões prometidos superam todo o orçamento discricionário do Poder Executivo previsto para 2026, de R$ 183,6 bilhões. Isso significa que o ajuste não poderá recair apenas sobre viagens, contratos administrativos, investimentos ou funcionamento da máquina. Terá de alcançar despesas obrigatórias, subsídios, renúncias tributárias ou políticas públicas protegidas por lei.

Os gastos tributários são um dos alvos mencionados por Daniella. A Receita estima que as renúncias chegarão a R$ 612,8 bilhões em 2026. Para obter todo o ajuste apenas nesse campo, seria necessário eliminar aproximadamente 35% dos benefícios. Na prática, a medida elevaria a arrecadação de setores e contribuintes hoje favorecidos, criando uma tensão com a promessa de Flávio de reduzir impostos e levar a alíquota do novo IVA para perto de 20%.

Estudos que circularam anteriormente entre colaboradores da campanha examinavam a correção de aposentadorias e do BPC apenas pela inflação e a mudança dos critérios de reajuste dos pisos de saúde e educação. As duas medidas poderiam produzir economia relevante no longo prazo, mas Flávio posteriormente afirmou que não pretende alterar a política de valorização do salário mínimo, mexer na Previdência ou atacar os pisos constitucionais.

Ao fechar essas portas, o pré-candidato tornou politicamente mais difícil alcançar a economia anunciada. Reforma administrativa, combate a fraudes, digitalização e redução de benefícios tributários podem contribuir, mas dificilmente produzirão R$ 217 bilhões no primeiro ano sem decisões concretas sobre despesas obrigatórias.

Há ainda uma questão de escala. Estudo recente do UBS estimou que o Brasil precisaria gerar superávit primário entre 2,2% e 4% do PIB para estabilizar a dívida, dependendo do comportamento dos juros. Um corte de 1,5% do PIB seria relevante, mas poderia continuar insuficiente, sobretudo porque o governo partirá de uma posição fiscal deficitária.

Além do orçamento base zero, a equipe discute uma nova âncora para a dívida pública, privatizações, venda de ativos, revisão da reforma tributária, abertura da Margem Equatorial e simplificação regulatória. Daniella também defende que uma PEC fiscal seja negociada ainda durante a transição, antes da posse, para permitir que o novo governo comece 2027 com regras diferentes.

É nesse ponto que se concentra a ansiedade do empresariado. Os executivos ouvidos pelo Radar Econômico não cobram apenas uma declaração de compromisso com o equilíbrio das contas, mas uma lista de medidas, valores, prazos e riscos políticos. A avaliação é que Flávio já circula há meses em reuniões empresariais, mas ainda não demonstrou como pretende conciliar suas promessas de benefícios, crédito e redução de impostos com o ajuste anunciado.

O plano começa a aparecer. Seus benefícios já têm nomes, públicos e apelo eleitoral. Os R$ 217 bilhões em cortes, por enquanto, ainda não têm endereço.

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