Filho de governador assumiu compliance da Rhino um dia após nova emissão de R$ 60 milhões para a Apex
Pedro Chieppe Ferraço era acionista quando foi eleito; debêntures estruturadas pela securitizadora hoje representam R$ 452,1 milhões do passivo preliminar
Documentos societários obtidos pelo Radar Econômico revelam uma sequência ainda desconhecida na relação entre a Apex Partners e a Rhino Securitizadora. Em 6 de janeiro deste ano, a Rhino aprovou uma nova emissão de R$ 60 milhões em debêntures vinculadas à BRM Apex Investimentos. A emissão começou formalmente no dia 7. No dia seguinte, 8 de janeiro, Pedro Chieppe Ferraço, filho do atual governador do Espírito Santo, Ricardo Ferraço, foi eleito diretor de compliance da securitizadora. À época, Ricardo ainda era vice-governador; ele assumiu o governo em abril.
Pedro chegou à Rhino já como acionista direto da Apex. Nove dias antes, em 29 de dezembro de 2025, ele havia convertido R$ 500 mil em debêntures da Apex Partners Gestão de Ativos em 8.921 ações ordinárias e uma ação preferencial classe B da companhia. O boletim de subscrição, registrado nos documentos societários da própria Apex, leva sua assinatura.
A emissão aprovada pela Rhino em janeiro torna a sobreposição particularmente relevante. O documento estabelecia seis séries de debêntures e determinava que a carteira que servia de lastro poderia receber exclusivamente direitos creditórios nos quais a BRM Apex Investimentos figurasse como cedente e/ou devedora. Ou seja, Pedro passou a comandar o compliance da securitizadora enquanto também era acionista de um grupo cujos créditos estavam no centro de uma nova operação de R$ 60 milhões da Rhino.
Sete meses depois, a dimensão financeira dessa relação ganhou outro peso. No levantamento preliminar entregue à Justiça após a descoberta das inconsistências financeiras da Apex, R$ 452,1 milhões do passivo de R$ 985,6 milhões correspondem a debêntures emitidas por intermédio da Rhino — quase metade de toda a dívida apresentada até agora. Os próprios documentos judiciais ressalvam que os números ainda precisam ser validados por auditoria independente.
A ata de 8 de janeiro define o diretor de compliance como o responsável pelo cumprimento de regras, políticas, procedimentos e controles internos da Rhino e determina que essa função não poderia ser acumulada com outras diretorias. Na mesma assembleia em que Pedro foi eleito, os acionistas aprovaram também o manual de políticas internas e compliance da securitizadora.
Não há, até o momento, documento público indicando que Pedro tenha participado da aprovação da emissão de R$ 60 milhões — que ocorreu em 6 de janeiro, dois dias antes de sua eleição — ou que tenha envolvimento nas inconsistências financeiras identificadas posteriormente na Apex. Também não existe evidência de participação do governador Ricardo Ferraço no caso. A questão que se abre é de governança: quais mecanismos a Rhino adotou, a partir da posse de Pedro, para administrar o potencial conflito entre sua função de compliance na securitizadora e sua posição de acionista e executivo de um grupo que era contraparte relevante das operações da própria Rhino.







