Entre Gleisi e Mercadante, o que Haddad tem a aprender com Pedro Malan
Nas últimas semanas, o presidente do BNDES passou a movimentar-se para substituir Haddad na Fazenda e Gleisi Hoffmann subiu o tom contra medida do ministro
“A ideia de resolver um país não é razoável. Razoável é esperar que um governante faça um país avançar”. A frase do ex-ministro Pedro Malan retrata um outro Brasil distante do governado por Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem se mostrado um dos pilares da tríade de chefes de pastas responsáveis em um governo cujo próprio chefe, Lula, parece jogar contra. Ao lado da ministra do Planejamento, Simone Tebet, e do ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, Haddad tem buscado a pacificação do ambiente econômico do país e — mesmo de forma ainda lenta — propor medidas que pacifiquem as questões tributária e fiscal. É com serenidade que Haddad vem respondendo às perguntas sobre os próximos passos. Professor, o ministro adota o tom de sala de aula para dizer a empresários e banqueiros que não antecipará medidas em estudo pela pasta que comanda. Faltou combinar com o resto.
Nas últimas semanas, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Aloizio Mercadante, passou a movimentar-se para — um dia, quem sabe? — substituir Haddad à frente da Fazenda. Em paralelo, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, subiu o tom contra a reoneração dos combustíveis, medida em elaboração pelo ministro para o mês que vem, sem ter qualquer cargo no governo, sequer eletivo. Enquanto isso, Haddad almoçava com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, na Índia, com a intenção de abaixar a poeira criada pelo próprio presidente Lula — em briga aberta, apesar de arrefecida, com o chefe da autarquia independente.
Se mostra responsabilidade em seus discursos e conversas reservadas com membros do setor privado, Haddad precisa vestir a “faixa” de ministro da Fazenda e provar que quem fala ao mercado e sobre suas ações à frente da pasta é ele. Se, com definição impecável, o colunista de VEJA Thomaz Traumann definiu o cargo de ministro da Fazenda como “o pior emprego do mundo”, Haddad deve empoderar-se e assumir a pecha, sem medo de desagradar, inclusive, o presidente — cujo apreço e confiança no ministro são de saber público. Na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, o ministro Paulo Guedes afirmava ser o “homem que diz não” às volúpias que a classe política demandava. Durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso, foi do próprio Malan a pecha de mau — então ministro do Desenvolvimento, Clóvis Carvalho deixou o governo depois de desavenças em torno da política econômica do país, em um gesto tanto do próprio ministro quanto de FHC de que quem fala pela economia do país é o ministro da Fazenda. Se está em um cargo entre os mais importantes da Esplanada dos Ministérios, Fernando Haddad precisa aprender a dizer não e mirar-se no exemplo de Malan. A Lula, resta o básico.
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