Capital Group recebe Ollie, recusa Gasparino e pode decidir futuro da Vale
Contato seletivo com os candidatos coloca sob escrutínio sua certificação de que não pretende influenciar o controle da mineradora
A Capital World Investors pode dar o voto decisivo na eleição para a presidência do Conselho de Administração da Vale. Uma das maiores acionistas da mineradora, a gestora informou à Securities and Exchange Commission (SEC) possuir 8% das ações em circulação e poder de voto sobre praticamente toda a posição.
O tamanho da participação transforma a Capital em potencial fiel da balança na assembleia marcada para 22 de julho. Os acionistas escolherão entre Manuel “Ollie” Oliveira, atual lead independent director e candidato apoiado pela Previ, e Marcelo Gasparino, vice-presidente do conselho.
A reportagem apurou que representantes da Capital receberam Ollie para discutir a sucessão. Marcelo Bacci, vice-presidente executivo de Finanças e Relações com Investidores da Vale, também participou da conversa. Gasparino solicitou uma reunião com a gestora, mas não foi recebido.
Nos bastidores da disputa, a expectativa é que a Capital Group vote em Ollie. Se confirmada, a escolha contrariará a orientação da Institutional Shareholder Services (ISS), uma das principais consultorias internacionais de voto, que recomendou apoio a Gasparino e abstenção em relação ao candidato da Previ.
A divergência em relação à ISS não representa, isoladamente, irregularidade ou mudança automática no enquadramento regulatório da Capital. A própria política da Capital Group afirma que análises de consultorias externas são consideradas apenas de forma suplementar e que suas recomendações não são seguidas automaticamente.
O ponto sensível está na combinação entre a recusa em receber um dos candidatos, a interlocução direta com o adversário e a capacidade de definir o resultado da eleição. Esses elementos colocam sob maior escrutínio a declaração apresentada pela Capital World à SEC de que não mantém as ações com o propósito ou o efeito de alterar ou influenciar o controle da Vale.
Em Schedule 13G protocolado em 13 de maio, a Capital World declarou ser beneficiária de 341,3 milhões de ações da mineradora, equivalentes a 8% das ações consideradas em circulação. A gestora informou ter poder exclusivo para votar ou orientar o voto de 340,9 milhões desses papéis.
O número é superior ao que aparece na estrutura acionária mais recente publicada pela Vale. A mineradora ainda atribui à Capital World 227,7 milhões de ações, ou 5,13% do capital, com base em uma comunicação feita pela investidora em janeiro. O documento posterior encaminhado à SEC acrescenta mais de 113 milhões de ações à posição conhecida da gestora.
A Capital World apresentou o documento pela Rule 13d-1(b), utilizada por investidores institucionais qualificados, e certificou que os papéis foram adquiridos e são mantidos no curso normal dos negócios. Esse enquadramento não significa que a Capital seja uma gestora passiva ou indexada. A própria Capital Group se define como uma gestora ativa. Nesse caso, “ativa” descreve sua estratégia de investimento, não necessariamente uma intenção de interferir no controle das empresas investidas.
Pelas orientações da SEC, um investidor pode conversar com executivos, apresentar suas opiniões e explicar como elas orientam seu voto sem perder a possibilidade de declarar sua participação pelo 13G. A análise pode mudar quando o acionista pressiona a administração por medidas específicas, condiciona seu apoio ou participa de um acordo para atuar de maneira coordenada.
Por isso, o eventual voto em Ollie, mesmo que decisivo, não basta para demonstrar que a Capital passou a influenciar o controle da Vale. Mas a forma seletiva como a gestora conduziu as conversas com os candidatos torna menos confortável a caracterização de sua participação como uma decisão ordinária e distante da disputa pelo comando do conselho.
Procurada, a Capital Group não se manifestou até a conclusão desta reportagem. A Vale afirma que mantém relacionamento regular com acionistas e demais participantes do mercado de capitais, como parte natural da rotina de uma companhia de capital aberto. “Essas interações são realizadas em conformidade com as regras do mercado de capitais, bem como regras e políticas da companhia, observando rigorosamente os mais elevados padrões de integridade e governança corporativa, com base em informações públicas. Quando aplicável e de acordo com o tema, participam dessas reuniões membros da administração.”
A disputa será concluída formalmente na AGE de 22 de julho, quando os acionistas votarão e o resultado será anunciado. Os votos a distância podem ser enviados até 18 de julho, mas acionistas credenciados ainda poderão alterar sua escolha durante a assembleia.
Para a Capital, a eleição terá duas dimensões. Seu voto poderá definir quem comandará o Conselho de Administração da Vale até a assembleia ordinária de 2027. A maneira como essa decisão foi construída também poderá determinar se a gestora continuará sendo vista apenas como uma grande investidora institucional ou como participante ativa da disputa pela liderança da companhia.







