Quero ouvir Eduardo Suplicy cantar Chico Buarque
Lembro de uma época quando todo ano, ao ser anunciado o Prêmio Nobel de Literatura, jornalistas iam bater na porta do poeta Carlos Drummond de Andrade e do escritor Jorge Amado para saber o que eles pensavam por não terem, mais uma vez, sido agraciados. Eram nossos indicados perpétuos e aí ficava aquele chororô da […]
Lembro de uma época quando todo ano, ao ser anunciado o Prêmio Nobel de Literatura, jornalistas iam bater na porta do poeta Carlos Drummond de Andrade e do escritor Jorge Amado para saber o que eles pensavam por não terem, mais uma vez, sido agraciados. Eram nossos indicados perpétuos e aí ficava aquele chororô da imprensa nativa sobre o fato da Academia sueca não reconhecer que as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá. Um dia o Drummond se encheu e disse que era preciso chegar à velhice sem ter passado pela injustiça dos prêmios e encerrou o papo.
Aí na manhã de quinta-feira, o prêmio Nobel de Literatura 2016 foi parar nas mãos de Bob Dylan, deixando talentos do quilate do escritor Philip Roth, também americano, de mãos abanando.
O New York Times aplaudiu porque o pêndulo da Academia balançou em outra direção, deixando de lado artistas obscuros com claras mensagens políticas e celebrando um talento popular de reconhecido sucesso comercial, além de “redefinir dramaticamente as fronteiras da literatura, estabelecendo um debate sobre se as letras de música possuem o mesmo valor artístico da poesia e do romance”. Alguém da Academia arriscou comparar o autor de Like a Rolling Stone aos gregos Safo e Homero, cuja obra era basicamente transmitida oralmente.
Tudo muito bom, tudo muito bem, todo meu respeito à cultura helenística, parabéns ao sr. Dylan, mas eu acho que o grande pé quente nessa história foi mesmo o votadíssimo vereador Eduardo Suplicy. Na noite de quarta-feira, algumas horas antes do anúncio do prêmio, ele terminou a entrevista concedida ao jornalista Roberto D’Ávila pedindo licença e entoando sua canção favorita, Blowin’ in the Wind, joia do cancioneiro dylaniano. Supla pai encheu os pulmões e mandou ver em uma interpretação empenhada como se usava antigamente para entoar a Internacional.
Não teve pra ninguém. Deu Bob Dylan na cabeça.
Se a Academia redefiniu as regras e decidiu abraçar a canção popular, faz todo sentido adotarmos dois novos candidatos pátrios eméritos ao prêmio sueco. Meus votos vão para Chico Buarque e Caetano Veloso, claro. Caetano pela poética que sempre foi seu forte e, convenhamos, dá de dez a zero em muito poeta nacional festejado. E Chico porque… ah, o Chico é o Chico. Sempre.
Portanto, espero que o vereador Suplicy comece desde já a campanha Chico Buarque Nobel 2017, elegendo uma canção do compositor dos olhos verdes para chamar de sua e comece a entoá-la no final de suas aparições públicas, com o mesmo vigor dispensado ao hino hippie de Bob Dylan.
Se bem que, cá com meus botões, eu considere “açaí, guardiã/zum de besouro um imã” dona de uma pegada éxotique e hermética com maior apelo ao paladar da academia loira de olhos azuis…






