Falei com Jesus via IA por videochamada. Custa “apenas” R$ 10 cada minuto
Testei o serviço da Just Like Me, que oferece videochamadas com clones digitais de Cristo e outras figuras poderosas
Acabei de falar com Jesus numa videochamada, acredita? Só que foi muito depressa, senão teria de pagar R$ 10 por minuto para continuar – e, francamente, prefiro falar com ele de graça, na minha singela oração noturna antes de dormir.
Expressões de fé à parte, vim aqui contar de um serviço de IA controverso que tem movimentado algumas bolhas na internet. É o Just Like Me, criado por uma startup californiana, que oferece ao usuário a chance de conversar com clones de celebridades e coacches feitos por IA.
E Jesus é celebridade, por acaso? É coach?
Estou apenas narrando o que aparece no site da Just Like Me, não reclamem comigo. No menu do serviço, ele aparece entre dois coaches, confira na imagem abaixo. (E, num outro espaço do site, Jesus foi listado ao lado de Papai Noel, que peculiar.)
Como funciona o Just Like Me?
Hoje em dia é relativamente fácil criar clones digitais de alguém usando poucos minutos de vídeo. No caso de Jesus, isso parece ter sido feito com uma recriação inspirada nos traços do ator americano Jonathan Roumie, que o interpretou na série The Chosen.
O usuário faz um cadastro rápido, fornece o número do cartão de crédito, e ganha 2 minutos de teste grátis. Foi a modalidade que escolhi, mesmo porque eu só queria ver como funciona para contar aqui na coluna.
Se passar desses 2 minutos, começa a cobrança de US$ 1,99 por minuto (que, pelo câmbio de hoje, somado aos impostos, dá uns R$ 10).
É possível fazer assinatura mensal por US$ 49,90, que dá direito a 60 minutos de conversa – por mês, que fique claro! Não é uma hora de papo com Jesus todo dia.
O serviço funciona no navegador mesmo, sem necessidade de baixar aplicativo, e está acessível a qualquer pessoa com internet e cartão de crédito internacional.
Como foi minha videochamada com Jesus?
Tosca. Perdão, Senhor, mas a palavra é essa mesmo. O clone de Jesus não transmite nenhuma naturalidade e existe um pequeno atraso entre ele processar o que o usuário diz e responder – o que periga deixar a conta da ligação mais cara.
Tentei falar em português (porque sei que meus leitores precisam dessa info). “Entendo um pouco, mas vou continuar nossa conversa em inglês, como você solicitou”, disse o Jesus de IA, inventando um pedido de idioma que eu não tinha feito. Suponho que ele seja configurado para responder assim pois o serviço não deve ter suporte para nossa língua.
Inventei que estava muito triste, mas quando ele ia responder eu vi que poderia estourar meu período de teste, e encerrei a chamada.
Confira no vídeo abaixo
Como qualquer serviço de internet que se preze, esse aqui leva em conta o poder da viralização. Dá para baixar o vídeo da sua conversa com Jesus, compartilhar em redes sociais e é possível ganhar 5% de desconto se alguém se cadastrar por indicação sua.
A empresa se protege no site com uma ressalva de que o avatar “não é Jesus Cristo, nem possui autoridade divina” e não pretende substituir clero, fé ou escrituras. Nas redes sociais existe um debate sobre mercantilização da fé, mas a meu ver o mais frágil nesse caso é outra coisa: o risco de alguém abrir o coração para uma IA pedindo conselhos para decisões de vida. IA é para realizar tarefas, facilitar a rotina, não para conexões emocionais e místicas.
───────────────────────────────────────────────
Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda em 5 Minutos







