A IA exige que executivos se comportem como maestros, diz Neil Redding
Empresas presas à hierarquia rígida perdem o compasso diante de sistemas que decidem em segundos, alerta o futurista, atração do Rio Innovation Week
No lugar de uma cadeia de comando em que manda quem pode, obedece quem tem juízo, ambientes de trabalho fluidos, mutáveis, com tomadas de decisão aceleradas.
Esse parece ser o cenário para o qual caminham muitas organizações, o que exige que lideranças assumam o papel de maestros diante de uma orquestra, defende o futurista – ou melhor, o “near futurist” – Neil Redding, especialista em tecnologias que são a cara de nossos tempos, caso da inteligência artificial.
É justamente a presença das IAs que tem obrigado as empresas a se ver como orquestras que precisam ajustar compassos, notas e melodias, sob pena de perder o ritmo dos negócios.
Redding, que será um dos principais palestrantes do evento Rio Innovation Week na quinta (6), conversou com a coluna sobre esse instigante cenário.
Você costuma dizer nas suas palestras que líderes precisam assumir uma perspectiva orquestral. O que exatamente isso quer dizer?
A maioria dos executivos ainda lidera como se os seres humanos fossem os únicos no recinto, certo? E a realidade é que a sala está, silenciosamente, se enchendo de agentes de IA. Isso realmente muda o que é liderança, ou o que ela precisa ser.
Em que sentido?
Vai ser preciso entender o que as IAs podem entregar, acompanhar os resultados e redistribuir as responsabilidades entre elas e os humanos. O modelo tradicional de liderança, com estrutura hierárquica rígida e um plano de negócios feito no começo do ano terá de mudar, abraçando algumas das características de mutabilidade e adaptação constante desses novos participantes que são as IAs.
Você também fala de um “clock drift”, que seria a discrepância entre a velocidade da IA e a capacidade das organizações de acelerar para lidar com ela. Como os CEOs podem tentar diminuir esse descompasso?
Em conversas com executivos, ouvi sobre algumas otimizações como reduzir o número de pessoas necessárias para tomar uma decisão específica. A vantagem competitiva será de quem conseguir remodelar a infraestrutura de tomada de decisão para se mover com mais rapidez. Algo que é natural para as startups, mas que sei que é difícil para grandes organizações.
Há algumas semanas, enquanto dava uma palestra, pedi que quem se sente “para trás” em relação à tecnologia levantasse a mão. E quase 100% das pessoas levantaram. Se tanta gente se sente atrasada, não somos nós o problema. A tecnologia que é rápida demais. O que sugere para as pessoas se sentirem menos ansiosas com relação à IA?
É preciso entender que não devemos ver a IA como um competidor, do mesmo modo que aprendemos há algumas décadas que os computadores fazem matemática mais depressa. Com a inteligência artificial, o papel humano no trabalho tem mudado: de fazedores para decisores. A tecnologia aumenta a importância das pessoas no ambiente de trabalho, pois obriga todo profissional a ter um papel mais ativo no dia a dia – e, num mundo em que tanta gente se sente desmotivada no escritório, pode ser o pontapé que faltava.
A maioria dos executivos ainda lidera como se os seres humanos fossem os únicos no recinto, certo? E a realidade é que a sala está, silenciosamente, se enchendo de agentes de IA.
Neil Redding
Você se define como um “near futurist”. Ou seja, alguém com foco num futuro próximo. De que intervalo de tempo trata o seu trabalho?
Para lideranças de negócios, o futuro a ser considerado não é mais 2040. Aliás, nem mesmo 2030. É fundamental mirar numa janela de tempo que abranja os próximos 12 a 24 meses.
Por quê?
A inteligência artificial, que não vai sair de cena, está entre nós quase como uma nova espécie com a qual temos de conviver, dividir o trabalho, dividir o planeta. E esse será um intervalo de tempo em que os líderes que se adaptarem bem vão disparar na frente.
Com a inteligência artificial, o papel humano no trabalho tem mudado: de fazedores para decisores. A tecnologia aumenta a importância das pessoas no ambiente de trabalho.
Neil Redding
Já que você mencionou competição, quero falar um pouco sobre a ideia de colaboração entre humanos e IAs no ambiente de trabalho. É comum listarmos as coisas boas que surgem disso. Mas quais seriam os possíveis conflitos e confusões dessas novas “duplas dinâmicas” que podem virar a regra nos escritórios?
O primeiro seria compreender a importância de fornecer contexto para a IA performar com o máximo de eficiência. Também vejo que muita gente ainda não sacou que a IA mudou de ferramenta para participante, e isso faz toda diferença com relação ao que você pode extrair dela na rotina de trabalho. Muitos usuários veem os chatbots como versões mais caprichadas do Google, e por isso perdem oportunidade de atingir resultados mais alinhados com o que suas organizações esperam deles.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do target=”_blank” rel=”noopener”>podcast educativo Aprenda







