A farmacêutica que virou referência mundial em IA sem querer ficar rica
Ana Helena Ulbrich, cocriadora de um algoritmo que revisa receitas médicas, conta como (e por que) entregou a tecnologia para uso gratuito ao SUS
Entre as tarefas que um farmacêutico desempenha num hospital, uma das mais importantes consiste em revisar as receitas prescritas pelos médicos antes que os medicamentos sejam liberados para os pacientes.
Nada pode dar errado, por motivos óbvios.
Isso se torna ainda mais desafiador diante do fato de que as equipes costumam ser minúsculas em comparação com o volume de trabalho.
Esse foi o problema que a farmacêutica gaúcha Ana Helena Ulbrich, que até então não tinha envolvimento direto com tecnologia, buscou resolver com ajuda de inteligência artificial.
E se, em vez de deixar esse trabalho totalmente nas mãos dos profissionais humanos, fosse possível contar com a IA como um copiloto bem treinado? Assim nasceu a NoHarm, criada em conjunto com seu irmão, o cientista de dados Henrique Dias.
Trata-se de um algoritmo que detecta prescrições fora do padrão e alerta o farmacêutico para possíveis erros. Os dois transformaram a pesquisa em um instituto sem fins lucrativos batizado de NoHarm, hoje usada por mais de 200 instituições de saúde brasileiras.
O sistema lê o prontuário completo, cruza exames, comorbidades e anotações de médicos, enfermeiros e nutricionistas, e sugere planos de ação ao farmacêutico.
A dupla tomou uma nobre decisão, não muito comum no segmento de tecnologia: hospitais privados pagam pelo sistema, enquanto hospitais do SUS usam de graça, e o código é aberto para quem quiser construir plataformas parecidas.
Decisões como estas fizeram Ana Helena entrar para a lista da revista norte-americana Time de pessoas mais influentes do mundo da IA.
Conversei com ela, que na primeira semana de agosto estará entre os palestrantes do evento de tecnologia Rio Innovation Week, na capital fluminense.
VEJA: Você já contabilizou quantas pessoas a No Harm beneficiou?
Ana Helena Ulbrich: Foram mais de 4 milhões de vidas impactadas diretamente. Ou seja, pacientes únicos que tiveram prescrição revisada com participação da nossa IA.
Um número incrível, sem contar que ainda tem os impactados indiretamente, certo? Quem são essas pessoas?
O número considera apenas pacientes, mas a gente precisa considerar que os próprios farmacêuticos são beneficiados também. Quando usam a ferramenta, eles ganham mais segurança. E tem os parentes dos pacientes, já que a saúde de uma pessoa se reflete no bem-estar da família.
Nunca tive o objetivo de ficar milionária e parar de trabalhar. Sempre quis fazer algo que me desse prazer, tivesse propósito e me deixasse orgulhosa.
Ana Helena Ulbrich
Como surgiu a ideia de usar IA para revisar prescrição médica?
Cada farmacêutico pode ter, em um hospital, entre 100 e 200 prescrições para avaliar num dia. Seria ideal ter tempo, mas na prática os profissionais acabam obrigados a fazer aquilo em poucos minutos. Em alguns casos, com vinte medicamentos para o mesmo paciente. Isso aumenta o risco de erro. Eu trabalhava no Hospital Conceição, em Porto Alegre, e o medo de cometer um erro por causa desse volume de trabalho me afligia.
E imagino que você tivesse várias outras tarefas além dessa.
Exatamente. Isso me deixava insegura, porque não dava tempo de analisar com o detalhamento que eu gostaria. Meu irmão estava fazendo doutorado em Inteligência Artificial, daí conversando com ele surgiu a ideia de criar algo focado nas prescrições.
É preciso gestores que enxerguem o potencial da tecnologia, e além de tudo tenham recursos financeiros, que são limitados na maioria das instituições de saúde
Ana Helena Ulbrich
A pesquisa dele já era sobre o assunto?
Não. Tratava de outro tema, mas a orientadora autorizou a mudança. Desenvolvemos duas inteligências artificiais: uma para detectar eventos adversos nos prontuários eletrônicos e outra para identificar prescrições fora do padrão, que podem indicar erros.
Essa segunda detecção avalia se o médico quis dizer um nome e colocou outro, por exemplo?
É principalmente a posologia, mas se aplica a isso também. Se eu prescrevi uma dipirona e, na verdade, queria um ácido acetilsalicílico, a dose é diferente e a posologia é diferente. A IA analisa o seu padrão e o daquela instituição. Ela foi treinada com os dados de como aquela instituição costuma prescrever os medicamentos. Se lá dentro o normal é 1000 miligramas quatro vezes ao dia, e alguém prescreve 800 miligramas, ela vai sinalizar que não é esse o padrão dali.
Como é a interface para o profissional no hospital?
A NoHarm lê tudo que o médico prescreve no hospital. Ela lê o sistema do hospital. Então, o profissional farmacêutico não precisa ficar inputando informação dentro da nossa ferramenta. A gente pluga no hospital e ela lê.
Então a IA de vocês não precisa conseguir entender letra de médico.
Hoje a gente tem uma versão que lê receitas, mas ela provavelmente não deve acertar letra difícil, assim como farmacêutico também não acerta todas.
Muita gente que se envolve em tecnologia quer criar uma startup, depois vender e virar milionário.
Nunca tive o objetivo de ficar milionária e parar de trabalhar. Sempre quis fazer algo que me desse prazer, tivesse propósito e me deixasse orgulhosa. Eu já trabalhava num lugar que era meu sonho, mas ali meu impacto se limitava aos pacientes que eu acompanhava. Com a NoHarm, surgiu a possibilidade de alcançar muito mais pessoas.
Como foi ver seu nome na lista de mais influentes da IA mundial?
Foi bizarro! Um reconhecimento e uma visibilidade muito importantes, que colocaram nosso trabalho em outro patamar. A gente só consegue entregar a IA de graça para o SUS porque tem investidor social, e porque os hospitais privados pagam para usar. Mas como a divisão é de 70% rede pública e 30% particular, a conta não fecha. Então com a chancela dessa lista, dobrou a quantidade de interessados em conhecer nossa IA. A gente teve que reorganizar a nossa equipe para conseguir dar conta dessas demonstrações.
E como decidiram oferecer a NoHarm de graça para o SUS?
Sabíamos que assim seria possível impactar muito mais vidas. Sempre valorizamos o serviço público e temos muito orgulho do SUS, por isso queríamos oferecer a ferramenta gratuitamente. Como esse modelo não atraía investidores, optamos por atuar sem fins lucrativos. Foi a escolha mais coerente com nosso propósito e ainda criou uma rede colaborativa, com hospitais que apoiam e divulgam a NoHarm.
Na sua palestra, você vai falar sobre saúde aumentada por IA. De que outros exemplos pretende tratar?
São muitas. Por exemplo, das ferramentas que transcrevem consultas para que os profissionais consigam se concentrar no paciente. Também tem a IA aplicada à imagem, apoiando a priorização dos exames mais críticos para que o radiologista priorize o laudo desses exames.
Sempre valorizamos o serviço público e temos muito orgulho do SUS, por isso queríamos oferecer a ferramenta gratuitamente.
Ana Helena Ulbrich
De todas as aplicações de inteligência artificial na saúde, tem uma que te surpreendeu mais nos últimos tempos?
Mais do que surpresa com novas tecnologias, fiquei chocada com a dificuldade de aplicação delas na rotina das instituições. Eu esperava que fosse mais rápido, mas colocar as IAs no fluxo de trabalho dos profissionais não é coisa simples.
O que impressionou você foi um descompasso entre as inovações existirem e elas efetivamente chegarem à vida da população?
É isso. É o quanto esse processo está demorando para, de fato, ser aplicado no dia a dia. Fora que existe uma expectativa de retorno financeiro, e o custo por essa inteligência é alto também. E acho que esse retorno ainda é difícil de mensurar, em alguns casos.
Quais seriam as causas desse descompasso?
Entre os muitos incêndios para se apagar num hospital, fica difícil priorizar a inovação. No início da NoHarm, conversamos com sete hospitais e apenas um conseguiu validar para aplicar na prática diária. É preciso gestores que enxerguem o potencial da tecnologia, e além de tudo tenham recursos financeiros, que são limitados na maioria das instituições de saúde.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda







