47% dos profissionais passam mais tempo orientando IA que fazendo tarefas
Pesquisa do Boston Consulting Group mostra também que carga mental dos funcionários aumentou, apesar da economia de tempo trazida pelas máquinas
Será que você vai perder seu emprego para uma inteligência artificial? A pergunta (já antiga) continua a ecoar, mas ganhou respostas ao longo dos últimos anos.
Em alguns casos, sim. Em outros, a presença das máquinas já alterou de maneira significativa a rotina: 47% dos profissionais passam hoje mais tempo do dia a dia orientando máquinas do que fazendo tarefas.
A conclusão vem de uma pesquisa recém-divulgada pelo Boston Consulting Group, que ouviu 11.749 profissionais, entre funcionários sem cargo gerencial, gestores e líderes, em 14 mercados, incluindo o Brasil.
Ou seja, em vez da temida substituição por IAs, a chegada delas tem levado o profissional humano a ocupar outra função: orientar, supervisionar, conferir e corrigir uma máquina.
Isso não significa que 47% das pessoas passam mais da metade do expediente conversando com ChatGPT, Gemini ou Copilot. A pesquisa é declaratória, portanto mede a percepção dos entrevistados sobre como o trabalho está sendo distribuído.
E gerenciar IA, evidentemente, TAMBÉM é trabalhar. Mesmo assim, o número ajuda a identificar uma transformação bem concreta.
Vou usar a rotina de um jornalista como exemplo. Se antes essa pessoa pesquisava informações, organizava material e escrevia, agora pode pedir à IA que procure padrões em documentos, resuma uma entrevista ou organize determinados dados.
Mas a máquina só consegue fazer isso (de maneira decente) se o jornalista explicar o contexto, definir critérios, conferir o resultado, identificar erros e decidir o que pode ou não ser usado.
Sempre repito, nas minhas palestras e aulas, que esse cenário de trabalho obriga os profissionais a investir no próprio repertório. Porque, de que outra maneira você vai conseguir avaliar a entrega da máquina?
Qualquer pessoa pode pedir um texto ao Claude, mas saber se aquilo presta ou não depende de conhecer boa escrita — é aí que muita gente se complica, e acha que todo travessão (como o que acabei de usar) vem de IA. Não, não vem. Idem para pontuação aplicada corretamente, algo que aprendi e pratiquei durante toda minha vida adulta.
Mas, de volta à pesquisa, após esta breve digressão sobre língua portuguesa.
A IA economiza tempo, mas também cria trabalho
Outra coisa que costumo repetir é que esse negócio de “a IA vai liberar tempo para você se dedicar a tarefas estratégicas” é balela.
Como em inovações anteriores, a tendência é que a eficiência em realizar tarefas invariavelmente leve à execução de MAIS tarefas. Talvez não a mesma, talvez algo um pouco mais elaborado, mas não necessariamente estratégico.
Isso aparece na pesquisa do BCG na forma de uma contradição interessante. Por um lado, 67% dos usuários dizem que a IA aumentou a satisfação com o trabalho.
Maravilha, não?
Só que, por outro, 41% dos entrevistados também dizem enfrentar maior carga mental, enquanto outro dado da pesquisa mostra que 41% passaram a gastar mais tempo tomando decisões.
Imagine que antes você precisava produzir dez coisas. Agora a IA ajuda a produzir vinte. A parte mecânica pode ficar mais rápida, só que aparecem vinte resultados para avaliar, vinte decisões para tomar e, dependendo da atividade, vinte oportunidades de deixar passar alguma besteira criada pela máquina.
O que eu faço com essas oito horas que a IA me poupou?
A questão do que fazer com a economia de tempo, ainda segundo a pesquisa, precisa de direcionamento das lideranças.
Entre profissionais sem função gerencial que usam IA regularmente, 42% afirmam economizar pelo menos oito horas de trabalho por semana, praticamente um expediente inteiro. Um sonho de verão, num praia, como dizia uma música da minha infância.
Porém, ao mesmo tempo, 66% dizem receber pouca ou nenhuma orientação da empresa sobre o que fazer com esse tempo liberado. Mais da metade não o redireciona para atividades consideradas mais estratégicas.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda







