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Paulo Cezar Caju

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O papo reto do craque que joga contra o lugar-comum

Pelé 80 anos: um sonho de menino

Estar ao lado do Rei nas eliminatórias de 1969 e na Copa do México foi conviver com um grande ídolo, o super-herói da minha infância

Por Paulo Cezar Caju Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 out 2020, 13h59 | Atualizado em 5 jun 2026, 09h23
Pelé 80 anos: um sonho de menino Priorizar nos meus resultados Google

Há algum tempo venho tentando falar com o Rei. Mas que pretensão a minha, afinal reis são inatingíveis. A primeira vez que o vi foi de longe. Eu na arquibancada do Maracanã, ele no gramado deixando para trás os rivais que ousavam freá-lo. Meu pai, Marinho Rodrigues, treinava o Botafogo e nesses confrontos, mesmo botafoguense, confesso que também torcia para o Rei. Eu tinha 12 anos e Pelé era uma divindade. E olha que o Botafogo era recheado de estrelas. Na decisão da Taça Brasil/Campeonato Brasileiro de 1962 foi quando confirmei que ele não era deste planeta. A primeira partida, no Pacaembu, foi vencida pelo Santos, por 4 a 3, e na segunda, no Maracanã, deu Botafogo, 3 a 1. E a terceira? O Botafogo era considerado favorito.

Meu pai escalou o time com um ataque mortífero, mágico, demolidor: Garrincha, Edson, Quarentinha, Amarildo e Zagallo. Mas do outro lado havia Pelé. Foi algo indescritível para os olhos de um menino como eu, peladeiro de bola de meia, que sonhava jogar como ele. Deu Santos, 5 a 0, com uma exibição de gala do Rei no Maracanã, que marcou dois gols. O cantor de bolero Lucho Gatica já estava contratado para animar a festa, que seria lá em casa. Minha mãe, Dona Esmeralda, estava caprichando nos ingredientes do cozido. Por coincidência, ela também era de Três Corações, cidade mineira onde nasceu Pelé. Nesse episódio, entendi que não se deve comemorar antes da hora, ainda mais se Pelé estivesse do outro lado. Imagine minha emoção alguns anos depois, nas eliminatórias da Copa de 1970, estar no mesmo grupo do Rei, do grande ídolo, do super-herói de minha infância.

Certa vez, ele me chamou e entregou sua agenda pessoal, abarrotada de números. Em uma rápida conferida, percebi que todos os nomes eram femininos. Volta e meia pedia para ligar e marcar encontros. Virei seu aba, kkkkk! No banco de reservas, no México, me lembrei dos tempos de arquibancada e agradeci aos céus por estar ali. Vi as jogadas improváveis do Rei, seu drible de corpo, seu chute do meio-campo, sua cabeçada mortal. Ele dificilmente caía, tinha velocidade, equilíbrio, força e hipnotizava. Mesmo que Pelé não estivesse com a bola, meus olhos nunca se desviavam dele, cada movimento era congelado.

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Éramos tão próximos e hoje não consigo falar com ele, agradecer por ter feito com que meus olhos brilhassem, os olhos do mundo brilhassem. Estou de plantão, esperando o momento de rever o mito da camisa 10, o Atleta do Século, o homem que parou uma guerra. Eu me sinto um menino correndo atrás de um autógrafo, afinal, a emoção de rever o Rei sempre será uma euforia ginasial. Amanhã ligarei novamente para seus assessores, e depois, e depois. Quero abraçar o Rei, eu e o menino que sonhava acordado na arquibancada

Publicado em PLACAR de setembro de 2020, edição 1467

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Capa da Revista Placar em homenagem aos 80 anos de Pelé – (Divulgação/Placar)
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