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Paraná Por VEJA Correspondentes Política, negócios, urbanismo e outros temas e personagens paranaenses. Por Guilherme Voitch, de Curitiba

Amigo de Beto Richa relata propina mensal de 2012 a 2015 ao tucano

Maurício Fanin, ex-diretor da Secretaria de Educação do Paraná, negocia um acordo de colaboração com a Justiça

Por Guilherme Voitch Atualizado em 7 jun 2018, 17h54 - Publicado em 6 jun 2018, 17h53

Preso desde setembro de 2017, o engenheiro civil Maurício Fanini foi o responsável por acompanhar e fiscalizar a construção e a reforma de escolas em todo o estado do Paraná durante cinco anos do mandato do governador Beto Richa (PSDB). Ex-diretor da Secretaria da Educação, hoje ele é considerado peça-chave na engrenagem da corrupção desbaratada pela Operação Quadro Negro, que investiga fraudes nas obras da pasta.

O engenheiro ficou no cargo até 2015, quando o Ministério Público identificou sua participação em um esquema que teria desviado mais de 20 milhões de reais da secretaria. Detido atualmente em Brasília por questões de segurança (a defesa do engenheiro afirma que ele recebeu ameaças enquanto esteve preso no Paraná), Fanini quer colaborar com a Justiça.

As investigações revelaram que empreiteiras contratadas pelo estado eram beneficiadas por artimanhas que iam de medições falsas das obras a aditivos contratuais desnecessários. Em troca, as empresas pagariam propinas a Fanini, que repassaria o dinheiro a diversos políticos, entre eles o ex-governador e amigo Beto Richa.

Até a deflagração da operação, Fanini integrava o círculo íntimo de amizade do então governador do Paraná. Fanini e a esposa eram presença constante na casa de Richa e da primeira-dama Fernanda. Os casais faziam jantares, iam a clubes, à praia e chegaram a passar as férias juntos no Caribe e em Miami.

Colega de Richa na faculdade de Engenharia Civil da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Fanini chegou ao setor público em 2001, levado pelo amigo, na época vice-prefeito de Curitiba e secretário de Obras. Ocupou dois cargos de direção na secretaria e foi exonerado em 2003. Voltaria a trabalhar com Beto em 2011, já no primeiro mandato do tucano como governador do Paraná.

Em sua proposta de delação premiada, obtida por VEJA e ainda não homologada, o engenheiro afirma que entre 2012 e 2015 o ex-governador Beto Richa recebeu mensalmente a propina paga por empreiteiras que tinham contrato com o estado. Nos anexos de sua proposta, ele apresenta dezenas de fotografias com o governador, extratos bancários, anotações de sua agenda e mensagens de WhatsApp.

Fanini diz que o esquema começou a ser colocado em prática em 2012, com a anuência de Richa. De acordo com ele, as discussões sobre o pagamento da propina eram realizadas na casa do governador ou no Palácio Iguaçu, sede do governo paranaense, de “maneira verbal” porque o tucano pedia “máxima discrição”.

“O governador Carlos Alberto Richa respondeu com a maior naturalidade que deveria ser feita uma arrecadação mensal da qual o declarante seria o responsável e que ‘prestaria contas’ mensalmente e exclusivamente para a pessoa do governador, que poderia separar uma parte para o próprio sustento e que quando fosse solicitado o montante deveria ser entregue pessoalmente”, disse Fanini ao Ministério Público Federal.

A principal contribuinte do caixa seria a empresa Valor, que está na gênese da Quadro Negro. O dono da Valor, Eduardo Lopes de Souza, já teve sua delação premiada homologada pelo ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), em setembro de 2017. Ele está em prisão domiciliar, com o uso de tornozeleira eletrônica.

Em seus depoimentos ao Ministério Público Federal, Souza afirma que, em troca da propina paga a Fanini, sua empresa era beneficiada com dezenas de aditivos nos contratos das escolas que construía pelo estado. Sabendo que seria beneficiado com os aditivos, a Valor conseguiu vencer uma série de licitações oferecendo preços abaixo dos praticados pelos concorrentes.

Em sua proposta de delação, Fanini dá sua versão sobre uma de suas primeiras reuniões com Souza. “Eduardo [Lopes de Souza] explicitamente propôs oferecer qualquer tipo de ajuda… e o declarante entendendo que Eduardo estava falando sobre ‘propina’ não se opôs, inclusive, nesta reunião, pediu a Eduardo a quantia de 20.000 reais; que Eduardo entregou pessoalmente o valor dois dias depois…o declarante pediu a Eduardo que deixasse o numerário no banheiro da sala comercial, solicitação que se tornou rotina.”

Além da Valor, Fanini cita oito empresas. Todas, segundo ele, contribuiriam regularmente com a mesada destinada, segundo Fanini, a Richa. Ele não dá detalhes se o esquema implementado com a Valor seria repetido exatamente com as outras empresas, mas afirma que somente em 2012 o valor arrecadado chegou a 300.000 reais.

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Mudança de status

Os repasses mensais ocorreram no mesmo ritmo até abril de 2014, de acordo com Fanini. Segundo ele, em um domingo daquele mês, Richa o chamou para uma partida de tênis em um clube de Curitiba. Naquela oportunidade teria dito que precisaria de “muito dinheiro” para a campanha à reeleição.

Fanini respondeu que contava com algumas empresas que podiam ajudar, mas que elas precisavam ter a certeza sobre contrapartidas. “Pode dizer que eu vou me reeleger e depois nós temos quatro anos para ajeitar essas empresas”, disse Richa, de acordo com o engenheiro.

A partir daí, segundo Fanini, os valores aumentaram e os pedidos deixaram de ser feitos apenas pelo governador. Em uma única oportunidade, o engenheiro diz ter providenciado 600.000 reais que foram solicitados por Luiz Abi Antoun, primo do governador e condenado a treze anos e cinco meses de prisão por fraudar licitações para a manutenção de veículos do estado. O dinheiro foi entregue, segundo ele, a um motorista de Luiz Abi, em um apartamento do ex-diretor.

A pedido de Fanini, que considerava Abi “como arrogante e um homem-bomba”, que “logo seria incriminado”, Richa designou outro intermediário para o recebimento do dinheiro. A partir de então, Fanini passou a negociar com Ezequias Moreira, chefe de gabinete do tucano na prefeitura e posteriormente secretário-chefe do cerimonial no governo do Estado.

Também com problemas com a Justiça — Moreira chegou a ser condenado a seis anos e oito meses de prisão por empregar a sogra em um cargo fantasma na Assembleia Legislativa do PR, mas nunca foi preso, já que a pena prescreveu — o secretário do cerimonial foi considerado um interlocutor mais apropriado para Fanini. Os dois podiam conversar sobre valores e pagamentos a cada quinze dias nas reuniões da Sanepar, companhia de abastecimento do estado, na qual ambos eram conselheiros.

O grego

Em uma reunião no Palácio Iguaçu, Fanini contou que foi apresentado por Moreira a um empresário chamado Jorge Atherino. Amigo de longa data da família Richa e responsável por oferecer a Richa seu primeiro estágio, o grego, como era conhecido, passaria então a ser responsável pela coleta do dinheiro.  Os repasses a essa altura, giravam entre 250 mil e 500 mil reais por mês e eram feitos no apartamento de Fanini ou no apartamento de Atherino.

O esquema, que segundo Fanini ajudou na campanha vitoriosa de Richa à reeleição em 2014 ao mesmo tempo em que cobria gastos cotidianos do então governador, continuava azeitado. A Valor ganhava contratos milionários do governo, com dezenas de aditivos, e parte do dinheiro chegava a Fanini que repassava a Atherino.

Se estava funcionando até ali, deveria continuar em 2018, relatou Fanini. Em um caminhada na praia de Caiobá, litoral do Paraná, em janeiro de 2015, o engenheiro diz ter ouvido do governador que ele seria candidato ao Senado em 2018. O irmão, Pepe Richa, sairia a deputado federal, e o filho Marcello a deputado estadual. Para tanto, Fanini teria de continuar com “as arrecadações mensais dos empreiteiros para suprir  a necessidade de caixa para as três campanhas”.

Fim da relação

A atuação de Fanini como captador de recursos para a campanha de 2018 não durou muito, no entanto. Com o primo preso em uma frente e o MP avançando sobre a outra na Quadro Negro, Richa e seu staff passaram a “escantear” Fanini, em suas próprias palavras.

Em um raro encontro com o governador depois da prisão de Abi, Fanini diz ter encontrado o “governador desesperado apagando fotografias e mensagens do celular”. Ainda de acordo com o engenheiro, o tucano teria pedido a ele: “apague todas as nossas fotos e mensagens trocadas. Isso é muito importante. Eu passei o fim de semana apagando as fotos que tinha eu, o Luiz Abi e as em que você aparece.”

Investigado pelo MP e pressionado pelo governo a regularizar o atraso das obras da Valor, Fanini foi afastado de Richa e seu entorno, até sua exoneração em junho de 2015. Um mês depois, o engenheiro foi preso pela primeira vez, quando ficou detido por nove dias. Em setembro de 2017, Fanini foi preso preventivamente e desde então está atrás das grades.

Outro lado

Em nota, o ex-governador Beto Richa afirma que o vazamento da delação de Fanini “parece ser uma manobra arquitetada às vésperas do período eleitoral, na tentativa de nivelar todos os políticos por baixo”. O tucano diz jamais ter recebido dinheiro desviado de cofres públicos. “Espero que a Justiça apure e esclareça rapidamente essa questão, para que os culpados sejam punidos de forma exemplar.”

Ezequias Moreira, em nota de seu advogado, afirma que nunca tratou sobre doações eleitorais e que jamais recebeu ou mandou que Fanini entregasse dinheiro ilícito a qualquer pessoa.

A defesa de Luiz Abi Antoun afirmou que as imputações feitas ao seu cliente são mentirosas e que Maurício Fanini tem como objetivo buscar um acordo de delação premiada e, para isso, ele busca envolver o maior número possível de pessoas próximas a Beto Richa. A defesa de Jorge Atherino que o empresário já prestou os esclarecimentos necessários ao Ministério Público e encontra-se à disposição das autoridades. A reportagem de VEJA não conseguiu contato com a defesa de Eduardo Lopes de Souza.

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