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Um virtuose do blues ataca: “História dos negros americanos foi apagada”

O músico Fantastic Negrito conversou com VEJA sobre seu novo álbum visual, 'White Jesus Black Problems', que conta a história de seus ancestrais

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 2 Maio 2022, 16h04 - Publicado em 2 Maio 2022, 14h37

Aos 54 anos, a história de vida de Xavier Amin Dphre­pau­lezz, o Fantastic Negrito, daria um filme e tanto. Criado em Oakland, na Califórnia, ele vendeu drogas na adolescência e chegou a ser preso. A paixão pela música o reabilitou e em 1996 lançou um elogiado disco sob o nome de Xavier. Mas um grave acidente, três anos depois, o deixaria em coma e prejudicaria severamente sua mão da guitarra. Para se reerguer, ele montou uma boate ilegal em Los Angeles e mudou-se para uma fazenda de plantio de maconha legalizada. Logo depois, voltou a tocar, desta vez sob a persona de Fantastic Negrito. Em 2015, veio enfim a virada: um show em um programa de rádio o fez estourar. Nos anos seguintes, ganhou três prêmios Grammy. Hoje, é um dos mais incensados músicos de blues dos Estados Unidos.

Seu novo álbum visual, White Jesus Black Problems, previsto para ser lançado em 3 de junho, contará em 40 minutos a história do casal inter-racial Granfather Courage, um negro escravizado, e Grandma Gallamore, uma imigrante escocesa. Em uma pesquisa sobre seus ancestrais, Fantastic Negrito chegou até a sétima geração de seus ancestrais por parte de mãe e descobriu que o amor entre eles desafiou as leis racistas da época. Dessa história, ele tirou a inspiração para as 13 canções que irão compor a obra. Em entrevista por vídeo a VEJA, o artista falou sobre o disco, racismo e ativismo nos Estados Unidos. Confira:

Seu novo álbum, White Jesus Black Problems, fala sobre escravidão, racismo e desejo de liberdade. O racismo é o pior vilão da humanidade? Talvez o pior vilão do mundo seja apenas o ser humano. É uma dualidade. O ser humano é a coisa mais incrível que existe e também seu pior violão. A história que conto no meu novo álbum, busquei na minha própria família. Enquanto eu buscava as minhas origens por parte de mãe, eu ia me surpreendendo ao perceber que todos eram negros livres. Até que cheguei à sétima geração e tem essa imigrante escocesa, branca, que era uma serva contratada, que se apaixona por um negro escravizado. Esses são os meus ancestrais. De alguma forma, o amor entre eles prevaleceu e eu estou aqui hoje. Eu ainda não acredito que consegui traçar minha ascendência até a sétima geração. O resultado é este álbum visual de 40 minutos em que conto essa história. Não é fácil traçar a história dos afro-americanos. Ela foi apagada.

Como conseguiu traçar a história da sua família? Na minha pesquisa, eu descobri que havia cerca de 50.000 homens negros livres no estado da Virgínia por volta de 1700. Eu nunca ouvi falar disso. É importante contar essa história. Eu tive a sorte de fazer isso por meio da música, por meio dessa jornada musical incrível. Provavelmente é o disco mais libertador que eu já fiz.

Mais de 300 anos depois, o casamento inter-racial permanece um tabu em muitos lugares. Avançamos pouco? É difícil as pessoas aceitarem a integração. Ainda falta muito para chegarmos a essa aceitação e para ver relacionamentos assim como algo normal. Somos todos seres humanos. Não somos tão diferentes assim. Eu fiz um daqueles testes de DNA que mostram de onde vieram seus ancestrais. Sou 27% europeu. Nunca teria imaginado isso. Desafio todo mundo a fazer esse teste para ver que não existe raça. É uma coisa inventada. Aprendi muito nesse projeto e, ainda assim, quando fiz meus testes de DNA, eu fiquei chocado.

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Para você, é importante que artistas se posicionem politicamente a respeito de assuntos importantes como esses? Não me vejo como um ativista porque sinto que ativistas têm uma agenda. Eu me vejo apenas como um artista. As pessoas podem até me chamar de ativista, claro. Mas, eu não me vejo como ativista porque eu não saio por aí com cartazes de protestos. A agenda que sigo é a da expressão, da conexão. Difere do ativismo.

Sua própria história de vida também é extraordinária. Você sofreu um acidente que quase tirou os movimentos das mãos, e deu a volta por cima. Ganhou Grammys. Sua vida também não daria um filme? Acho que sim. Vivi e enfrentei problemas. E superei os problemas e os desafios. Eu me sinto na obrigação, toda vez que faço um disco, sinto que devo algo às pessoas desta Terra. Sinto que devo fazer algo que nos faça pensar. Vivemos uma guerra de informação. Onde você vai, as pessoas te atacam com mensagens de ódio. Quero passar uma mensagem de amor, de unidade. Quero estar do lado do amor. Eu nasci para usar o chapéu de artista. Esta é a minha contribuição para a humanidade. Sim, eu tive o acidente de carro e tudo o mais que aconteceu na minha vida. Mas, eu estou feliz por fazer parte da família humana e continuar contribuindo com ela.

Há anos você se mudou para uma fazenda no interior na Califórnia. Como é a vida por lá? Ah! É muito bonita. Estou cheio de gratidão só por estar cercado pela natureza, de poder ir ao jardim. De buscar ovos no galinheiro para o café da manhã. Enfim, de ver o ciclo completo de como os alimentos se transformam. Vejo que a vida é bela e diariamente eu aprendo algo e sou grato por algo.

Em seu novo álbum, você vai das raízes do bluegrass ao blues e R&B. Como descreve o som de seu novo disco?  Deixo que outras pessoas descrevam minha música. Estou interessado apenas na música, no som. Estou interessado apenas em contar uma história. Não sei como chamá-la, se de raízes negras, blues, soul, funk, gospel, rock, R&B. E isso é ótimo. É como aí no Brasil, que vocês têm esse guisado incrível, a feijoada. Minha música é como um guisado onde eu coloco todos os ingredientes diferentes. Eu realmente acredito nisso, musicalmente falando. É como se eu não tivesse nada a perder. Sou só um cara de meia-idade que tocava nas ruas. E agora as pessoas gostam da minha música.

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