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O Som e a Fúria Por Felipe Branco Cruz Pop, rock, jazz, black music ou MPB: tudo o que for notícia no mundo da música está na mira deste blog, para o bem ou para o mal

‘Stranger Things’ faz da veterana Kate Bush nova paixão da geração Z

A canção 'Running Up That Hill' chegou ao topo no iTunes depois de virar um elemento marcante da trilha sonora do fenômeno anos 1980 da Netflix

Por Amanda Capuano Atualizado em 31 Maio 2022, 11h56 - Publicado em 31 Maio 2022, 10h35

Max Mayfield (Sadie Sink) chega ao colégio com cara de poucos amigos e o fone de ouvido estrategicamente posicionado para evitar papo com os outros. Enquanto transita pelos corredores repletos de jovens com hormônios em fúria, a garota – que perdera o irmão violentamente no ano anterior – escuta a música Running Up that Hill, da inglesa Kate Bush, no último volume. Na antológica composição, a artista canta, com seus agudos etéreos de fadinha celta, sobre um acordo que faria com Deus para trocar de lugar com o amado que a feriu. Lançado em 1985, o clássico foi resgatado do baú por Stranger Things, que alçou Running Up that Hill ao primeiro lugar do iTunes nesse final de semana, colocando Bush – hoje aos 63 anos – no radar da geração Z. Os jovens fãs do fenômeno da Netflix cultuam uma nostalgia idílica por uma década de 1980 que não viveram – e a inclusão da cantora nesse pacote faz todo sentido.

Na nova temporada, a música preferida de Max vai dos corredores do colégio ao chamado Mundo Invertido, desempenhando um papel fundamental ao longo da trama e, claro, fazendo da criação de Kate Bush o hit da nova fase, como já foram Should I Stay or Should I Go, do The Clash, e Never Ending Story, do inglês Limahl. A responsável pela escolha, em partes, foi Winona Ryder, a intérprete de Joyce Byers, que teve Bush como uma espécie de “heroína” nos tempos de escola, buscando consolo em suas letras nos momentos difíceis. “Sou obcecada por ela desde pequena. Passei os últimos sete anos dando dicas no set e vestindo minhas camisetas da Kate Bush”, declarou em entrevista recente ao site USA Today.

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Kate Bush durante show em 1979 na França Jean-Louis URLI/Gamma-Rapho/Getty Images

Nascida na Inglaterra em 1958, Bush foi uma das grandes prodígios vocais de seu tempo. Filha de um médico e de uma enfermeira, cresceu cercada pelo entusiasmo musical amador dos pais e começou a compor aos 11 anos, depois de aprender a tocar piano. Aos 16, já exibia um catálogo de composições de dar inveja a artistas consagrados, mas rejeitado pelas gravadoras. Foi descoberta, felizmente, por David Gilmour, que recebeu uma fita com cinquenta canções de um amigo em comum. Encantado com o talento da então adolescente, o guitarrista do Pink Floyd ajudou a produzir três músicas para a fita demo que levou a cantora a assinar com a EMI records, dando o impulso que faltava para inseri-la na indústria.

Com um repertório marcado por referências históricas, literárias e até místicas, Bush tomou a cena musical britânica como um furacão no final dos anos 1970. Em janeiro de 1978, lançou a canção Wuthering Heights, inspirada no clássico O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brönte. A música fez da então novata a primeira mulher a alcançar o topo das paradasdo Reino Unido com uma canção autoral, e foi o pontapé inicial do seu álbum de estreia, The Kick Inside. De lá para cá, foram dez álbuns de estúdio – o último deles, 50 Words for Snow, lançado em 2011.

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Kate Bush durante recepção em Londres, em 2014 David M. Benett/Getty Images

Com grande controle do processo criativo de todos os discos, e à frente da produção desde The Dreaming, de 1982, Bush era uma artista peculiar em sua gênese: enquanto a Inglaterra se rendia ao punk e à new wave, sua música com um pé no canto lírico e outro no rock progressivo levava muitos jovens a torcerem o nariz. Mas o tempo provaria a excelência e atemporalidade de suas canções: nos anos 2000, graças ao resgate em covers de artistas do rock ou da música eletrônica, o culto a Kate Bush voltou com tudo.

Outra caraterística que a diferencia dos seus colegas contemporâneos de anos 1980 é que Bush sempre teve certa aversão aos palcos. Desde que se lançou na música, fez apenas duas turnês: a Tour of Life, em 1979, e Before The Dawn, 35 anos depois, no formato de uma residência de meros três meses no Hammersmith Apollo, em Londres. Apesar da primeira experiência ter sido agradável, em um show com aura de teatro musical, a cantora costumava dizer que fazer shows era um processo exaustivo, e preferia se dedicar à concepção dos álbuns. Assim, seu retorno aos palcos, em 2014, veio cheio de expectativas. Inicialmente, seriam 15 shows, mas a alta demanda fez com que se ampliasse o cronograma para 22, todos eles esgotados em minutos.

Com um pop experimental temático, que, assim como Stranger Things, brinca com lendas, personagens e contos fictícios, Bush se consolidou como um nome inovador – ela foi uma das primeiras artistas femininas a usar sintetizadores, adicionando um quê de eletrônico às músicas de pegada gótica, que transportam o ouvinte para uma espécie de universo sonoro paralelo. Influente, já foi apontada como inspiração para cantoras como Adele, Bjork e Florence Welch. Elton John chegou a declarar que a música Don’t Give Up, parceria dela com Peter Gabriel, foi fundamental na sua luta pela sobriedade e “salvou sua vida.” Agora, a cantora volta aos holofotes para a geração dos videogames e das redes sociais, com um empurrãozinho muito bem-vindo da Netflix – enfim, uma boa adição à bagagem musical da garotada.

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