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O Som e a Fúria

Por Felipe Branco Cruz
Pop, rock, jazz, black music ou MPB: tudo o que for notícia no mundo da música está na mira deste blog, para o bem ou para o mal
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Drogas e exílio na França: como Stones gravaram obra-prima há 50 anos

'Exile on Main St.' completa cinco décadas nesta quinta-feira, 12; relembre os bastidores da produção de um dos melhores álbuns de rock de todos os tempos

Por Felipe Branco Cruz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 12 Maio 2022, 15h03 - Publicado em 12 Maio 2022, 08h00

No final dos anos 1960 e início dos 70, a grande musa inspiradora das bandas de rock britânicas não era nenhuma modelo esbelta ou algo do tipo. A “inspiração” vinha mesmo do imposto de renda. Naquele período, o imposto para os mais ricos do país era um dos mais altos do mundo. Não por acaso, a terra da rainha Elizabeth II testemunhou uma das maiores fugas de artistas da sua história. Rod Stewart mudou-se para Califórnia. Ringo Starr foi para Monte Carlo. David Bowie correu para a Suíça. E os Rolling Stones se exilaram na França. Com uma impagável dívida com o leão, a única solução encontrada pelo grupo liderado por Mick Jagger foi morar do outro lado do Canal da Mancha. “Se você ganhasse 100 libras, eles te tomavam 90”, reclamava o cantor na época.

Além de fugir dos impostos, o autoexílio dos Stones na França rendeu também aquele que hoje é considerado um de seus álbuns mais importantes: Exile on Main St., cujo lançamento completa 50 anos nesta quinta-feira, 12. Isolados em Villa Nellcôte, no sul da França, os músicos não tinham nenhum incentivo para gravar e a liberdade para farrear descontroladamente. E foi quase isso mesmo que aconteceu. Entre bebedeiras homéricas, festas hedonistas e consumo de drogas em níveis industriais, de alguma forma eles conseguiram se juntar e gravar hits antológicos, como Tumbling Dice, Happy e Rocks Off. Já as faixas Sweet Virginia e Shine a Light, que também entraram no álbum, haviam sido gravadas em Londres, em sessões dos álbuns Let It Bleed e Sticky Fingers, e ficaram guardadas.

A “fuga” para a França, por assim dizer, foi o ápice de uma sucessão de problemas que o grupo já enfrentava havia alguns anos. Em 1969, eles demitiram o guitarrista Brian Jones, substituído por Mick Taylor. Meses depois, Jones apareceria morto em sua piscina. Foi também naquela época que o grupo de motoqueiros Hell’s Angels, contratado para fazer a segurança de um show da banda nos Estados Unidos, matou um fã na Califórnia. A gota d’água veio em 1971, quando os integrantes descobriram que deviam mais de 100 mil libras para o fisco de Sua Majestade, valor que deveria ter sido pago pelo empresário Allen Klein. Para fugir da dívida, a única alternativa era mesmo abandonar o país.

Ninguém sabe ao certo como as gravações deram certo, já que aparentemente tudo conspirava contra. O espaço para as sessões foi improvisado em uma adega abandonada, no porão quente e úmido de uma mansão alugada por Keith Richards em Nellcôte, que tinha sido utilizada pelos nazistas na II Guerra Mundial. Naquele local, sem as regras rígidas dos estúdios profissionais de Londres, foi Keith Richards quem liderou as gravações (para desespero do metódico Mick Jagger). Os riffs e solos que Richards criava naquele porão subiam por cabos e eram gravados lá em cima, em um estúdio móvel instalado dentro de um caminhão, já que eles não tinham os equipamentos adequados dentro do casarão.

Embora figure em praticamente todas as listas de melhores discos de rock de todos os tempos, o álbum, na realidade, é uma espécie de declaração de amor ao blues americano, como na dançante faixa Shake Your Hips, ou mesmo na melódica Sweet Virginia. É um repertório bruto, uma mistura desconexa que passeia entre o rock, o blues e o country, mas que, de alguma forma, soa de maneira grandiosa. Richards, aliás, já afirmou inúmeras vezes que os Stones não são uma banda de rock, e sim, de blues. Opinião compartilhada pelo falecido baterista Charlie Watts, que sempre foi fortemente influenciado pelo jazz.

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As caóticas sessões de gravações, no entanto, quase nunca contaram com a participação simultânea de todos os integrantes. Keith Richards, por exemplo, consumia heroína quase todos os dias e, por causa disso, faltava a várias sessões. O baixista Bill Wyman detestava o clima da casa e também evitou o lugar o quanto pôde. Mick Jagger era outro que aparecia eventualmente, já que estava morando nos arredores de Paris com sua namorada. Até hoje, eles se perguntam como conseguiram lançar um álbum duplo com 18 faixas. Como se não bastasse toda essa confusão, a polícia francesa fazia eventualmente algumas batidas por lá, o que forçava Richards a correr para limpar o lugar.

No final, de alguma maneira, Jagger se entendeu com Richards e, mais uma vez, a parceria entre os dois rendeu composições memoráveis. Watts conseguiu instalar sua bateria em algum canto, e Mick Taylor e Bill Wyman tiveram sossego para gravar a guitarra e o baixo sem intervenções inconvenientes. Quanto aos impostos britânicos, bem, eles só seriam cortados durante o governo da primeira-ministra Margaret Thatcher. Mas essa é outra história.

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