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O Som e a Fúria

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A volta do ônibus que cruzou os EUA para difundir o barato de uma droga

Veículo original utilizado na jornada será exibido no próximo mês em um festival de artes em San Francisco, na Califórnia

Por Sergio Ruiz Luz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 ago 2026, 13h16
A volta do ônibus que cruzou os EUA para difundir o barato de uma droga Priorizar nos meus resultados Google

A viagem mais louca da história dos Estados Unidos ocorreu no início dos anos 60 a bordo de um ônibus pintado com cores psicodélicas e equipado com um potente sistema de alto-falantes com efeitos de eco para multiplicar músicas e mensagens dos tripulantes para o lado de fora. O idealizador da trip era um escritor prestigiado, com um best-seller no currículo e um histórico de perseguições da justiça por porte de maconha. Na direção estava um herói da geração beat, que acelerava o veículo nas estradas com a mente irrigada por anfetaminas. O combustível dos passageiros, que se tratavam por apelidos como Garota da Montanha, Contestador e Eremita, consistia em refrescos de laranja batizados com ácido lisérgico, o LSD. Um dos objetivos da turma era abrir as mentes da América, popularizando o barato dessa droga, que era na época permitida.

Iniciada em 1964, essa jornada hippie cruzou o território americano e se tornou um dos grandes símbolos da contracultura. O ônibus original, um International Harvester ano 1939, que virou objeto de culto, deixou recentemente a fazenda em que estava guardado, no Oregon, rumo a San Francisco. Ele será exibido ao público no próximo dia 5, no Golden Gate Park, no centro cultural Haight Street. Depois disso, o veículo será completamente restaurado. A história da trupe autodenominada The Merry Pranksters (Os Festivos Gozadores, em uma tradução livre) foi retratada em um dos clássicos do escritor Tom Wolfe, o livro O Teste do Ácido do Refresco Elétrico.

Ônibus antigo e enferrujado, coberto por grafites coloridos e uma cúpula transparente no teto, estacionado em uma garagem com paredes de blocos de concreto e teto de madeira
O ônibus original de Ken Kesey (Reprodução/VEJA)

Ken Kesey (1935-2001), o responsável pela viagem, tinha se tornado uma sensação literária com o romance Um Estranho no Ninho, de 1962, depois transformado em filme de Hollywood estrelado por Jack Nicholson. O motorista do ônibus era outra figura lendária, Neil Cassady (1926-1968), que falava compulsivamente, de forma rimada, e inspirou o personagem Dean Moriarty no livro On the Road, um dos maiores clássicos da geração beat. A ideia original era usar a viagem para chamar atenção para o segundo livro de Kesey, Às vezes uma grande ideia, e, de quebra, difundir o uso do LSD.

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Não havia como a trupe não chamar atenção por onde passava, a começar pelo veículo, com suas cores berrantes e equipamentos fora do comum. “O ônibus tinha um sistema mediante o qual podiam transmitir de dentro, com fitas e com microfones, e o som vinha estourar do lado de fora em poderosos alto-falantes instalados no teto. Havia também microfones do lado de fora, que iam captar os ruídos ao longo da estrada e transmiti-los para dentro do ônibus”, descreve Tom Wolfe.

Em um dos primeiros passeios, a trupe acabou sendo parada por um atônito guarda. Enquanto ele chamava atenção para os problemas do ônibus (placa irregular, luz do pisca-pisca quebrada etc), os passageiros, vestidos com roupas laranja e verdes, além de máscaras luminescentes, rolavam pelo gramado, sob efeito do ácido. Diante daquela cena, o patrulheiro acabou desistindo de aplicar qualquer multa.

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Os Festivos Gozadores ficaram na estrada durante um mês. O destino final foi a Feira Mundial de Nova York. Uma das ideias da turma era produzir um filme sobre a viagem, projeto nunca concretizado. Mais de 100 horas das gravações foram recuperadas e usadas posteriormente em um documentário sobre a jornada, o Magic Trip, de 2011, por Alison Ellwood e Alex Gibney. Confira aqui o trailer do filme:

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Uma das passageiras do ônibus, a Garota da Montanha, apelido de Carolyn Adams, casou-se depois com o guitarrista Jerry Garcia, líder do Grateful Dead, banda que passou a animar as festas de ácido organizadas pelos Festivos Gozadores. Em encontros realizados dentro de locais como armazéns, as pessoas recebiam na entrada um copo de laranjada batizado com ácido. A balada contava com o som do Grateful Dead e luzes estroboscópicas. Algumas pessoas dançavam de forma esquisita, alguns rastejavam no chão imitando guinchos de animais, casais transavam e os músicos, também sob o efeito do LSD, tentavam se concentrar na execução enquanto os braços das guitarras se transformavam em serpentes.

A farra do ácido terminou em 1967, quando o LSD foi proibido nos Estados Unidos. Assim, nunca mais foi possível fazer outra viagem tão louca quanto a dos Festivos Gozadores.

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