Ilha de Páscoa: enigmas milenares e moais sob ameaça de desaparecer
A coluna selecionou seis programas imperdíveis para explorar esse paraíso isolado no Pacífico, conhecer sua história e a cultura Rapa Nui
Mística, enigmática e, para completar, linda. Um dos pontos habitados mais isolados do planeta, a Ilha de Páscoa – ou Rapa Nui – é daqueles lugares que instigam e seduzem os viajantes na mesma proporção. Em meio ao Oceano Pacífico Sul, entre Santiago do Chile (cinco horas de avião) e a Polinésia Francesa (tempo de viagem semelhante), esse fascinante destino causa impacto logo na chegada: a ilha mistura um clima de cidade do interior, paisagens singulares e uma energia peculiar. Para completar o cenário, seu território – são 164 quilômetros quadrados – também é conhecido como a terra das gigantes esculturas: os moais, que têm em média entre 5 e 9 metros de altura, chegam a pesar mais de 80 toneladas e são envoltos em uma aura de mistério.
Esculpidas em pedra vulcânica (tufo), essas estátuas – existem em torno de 900 na ilha – são a herança mais visível de uma civilização cuja escrita e cultura quase despareceram. Como os moais surgiram, qual a sua função e como eram transportados ainda hoje são alvos de muitas suposições e poucas certezas absolutas. Sabe-se, por exemplo, que o povo Rapa Nui (é também o nome da ilha e daquela cultura) surgiu por volta de 1000 d.C., com a chegada de navegadores polinésios ao local; e que eles se dividiam em clãs ou tribos ao longo dos séculos. Os moais, acredita-se, representavam ancestrais deificados (endeusados), chefes políticos, líderes religiosos, todos membros da classe mais favorecida. E que eles emanavam uma força espiritual protetora (mana) sobre os vilarejos – daí o fato de quase todos estarem de costas para o mar e olhando para o interior da ilha. Detalhe: embora muita gente ache que muitos só têm cabeça, escavações revelaram que a maioria dos moais possui corpo.
Um enigma em torno dessas estátuas monumentais, no entanto, permanece. É fato que a maioria delas era esculpida na pedreira do vulcão extinto Rano Raraku e levada para plataformas (ahu) dispostas pela ilha, mas não há certeza de como era feito o transporte. Uma das hipóteses é que os Rapa Nui erguiam as esculturas usando cordas em movimento de balanço (fazendo o moai “andar”) ou as deslizavam sobre troncos – o que poderia ter sido a causa do desaparecimento das árvores da ilha durante um período. Outra dúvida gira em torno do colapso e quase sumiço do povo Rapa Nui. A versão mais propagada é que o desmatamento para erguer e mover os moais destruiu o ecossistema, causando insatisfação, fome e guerras civis. Outros estudos apontam que o declínio pode ter sido uma combinação de esgotamento de recursos, mudanças climáticas e o impacto violento do contato com os europeus, que resultou em doenças e também escravidão.
Hoje, junto com as incertezas sobre o passado daquela civilização se soma o receio quanto ao futuro dos moais. Pesquisas mostram que as estátuas da ilha correm o risco de desaparecer devido à elevação do nível do mar, causada pelo aquecimento global. A alta das águas pode engolir ou danificar severamente as esculturas, assim como os incêndios florestais cada vez mais comuns, outro efeito das mudanças climáticas. A erosão das rochas que formam os moais, causada pela ação do vento, da chuva e das variações de temperatura, é outro fator que preocupa os pesquisadores.
História e natureza se entrelaçam em qualquer visita à Ilha de Páscoa. Seu nome cristão, aliás, foi dado por um explorador holandês em 1722 – antes, os nativos chamavam o lugar de Te Pito O Te Henua, que significa umbigo do mundo. Esse paraíso isolado, pude constatar durante uma viagem em agosto, a convite do hotel Nayara Hangaroa (um cinco estrelas com práticas sustentáveis e integrado com o seu entorno), surpreende pela organização, limpeza e segurança. Ainda no aeroporto de Santiago do Chile, os turistas que vão para a ilha passam por um processo de imigração especial, no qual precisam apresentar as reservas da hospedagem, que têm que ser registrada nos órgãos de turismo; e a passagem de retorno. Na ilha, onde vivem cerca de 7 000 pessoas (a maioria descente do povo Rapa Nui), não se pode, por exemplo, visitar os sítios arqueológicos de forma independente. É preciso adquirir o “passaporte” para o Parque Nacional Rapa Nui, que tem que ser apresentado a cada entrada nos locais históricos e custa 100 dólares para estrangeiros.
As visitas também precisam ser feitas com um guia, em uma excursão. Se por um lado isso tudo pode soar muito rígido, o turista logo percebe que esse controle faz dos pontos turísticos lugares muito bem cuidados. Todos os monumentos são protegidos por demarcações no solo, há fiscais controlando os acessos e não se vê um lixo no chão. Em meio a estátuas impressionantes, praias de mar azul (são três mais usadas para banho) e relevos vulcânicos, os visitantes ainda podem explorar trilhas de bicicleta, triciclo, a cavalo ou mesmo a pé. Há opções de mergulhos autônomos e de snorkel. O aeroporto e grande parte do comércio local ficam no vilarejo de Hangaroa. Em meio a tantas possibilidades, fica difícil decidir por onde começar. Para quem pretende conhecer a ilha sem deixar de lado seus principais atrativos, selecionei seis programas que reúnem história, paisagens e as experiências que dão uma dimensão da grandiosidade de Rapa Nui.
1-Pôr do sol em Tahai
É consenso que o entardecer em Tahai é o mais bonito da Ilha de Páscoa. O sol se põe exatamente atrás daquele sítio arqueológico com sete moais, distribuídos em três plataformas. A primeira e maior delas fica à esquerda, olhando de frente para as esculturas, e se chama Ahu Vai Uri, com cinco moais erguidos, o maior deles com cerca de quatro metros de altura. O fato de terem tamanhos e estilos diferentes sugere que são de épocas distintas. Ao centro fica o Ahu Tahia, com apenas um moai, com aproximadamente quatro metros e meio de altura. O grande destaque do local, no entanto, é o Ahu Ko Te Riko, o único moai completo de toda a ilha, com o pukao (coque ou chapéu em pedra avermelhada) e os olhos pintados – originalmente essa parte do rosto era preenchida com coral branco e as pupilas com obsidiana escura (um tipo de mineral). Ele mede cinco metros de altura. Todos os dias, dezenas de visitantes se reúnem no gramado em frente às esculturas para assistir o cair do sol. Detalhe: é o único sítio arqueológico de Rapa Nui que não há guarita na entrada e o turista pode ir a qualquer horário.
2-Aldeia de Orongo, complexo de Vinapu e vulcão Rano Kau
Os tours guiados oferecidos em Rapa Nui costumam reunir estes três lugares em uma experiência. O programa começa no sítio arqueológico de Vinapu, no qual a plataforma Ahu Tahira é o grande destaque. Ela tem seis estátuas caídas, viradas para o mar, e uma base – a única da ilha – com uma parede de pedras perfeitamente encaixada que lembra a arquitetura Inca, como em Machu Picchu. De lá, os visitantes seguem para vila cerimonial de Orongo, onde os clãs se reuniam para celebrar rituais sagrados e escolher o chefe religioso e político da ilha, por volta do século XVII. Após a construção dos moais entrar em colapso, o líder de Rapa Nui era escolhido entre os guerreiros indicados pelas tribos. Aquele que vencesse o desafio de nadar 1,4 quilômetro até uma ilha, em um mar infestado de tubarões e capturasse uma andorinha-do-mar ela o líder por um ano. O passeio por Orongo inclui vistas espetaculares de Rano Kau, um vulcão extinto com a maior cratera de Rapa Nui, com 1,5 quilômetros de diâmetro.
3-Sítios arqueológicos de Ahu Akivi e Puna Pau e uma aldeia Rapa Nui
Este passeio começa no Ahu Akivi, uma plataforma com sete moais que destoa da maioria das outras: enquanto essas estruturas costumam ficar na orla e de costas para o mar, esta se localiza no interior da ilha e suas esculturas estão olhando para o oceano. E mais: os moais dali estão alinhados de forma as tronômica, olhando exatamente para o pôr do sol durante o equinócio da primavera. Na sequência, os turistas têm a chance de conhecer Puna Pau, uma pequena cratera vulcânica que funcionava como uma pedreira, entre os séculos XIII e XVI. Era ali que os antigos nativos retiravam a escória (rocha vulcânica) vermelha para esculpir os pukaos, cilindros que ficam na cabeça dos moais – alguns pesquisadores dizem que são coques e outros acreditam ser chapéus. O tour termina em uma aldeia onde há réplicas das tradicionais habitações dos antigos nativos da Ilha de Páscoa, conhecidas popularmente como hare vaka ou casas-barco, devido ao formato que lembra uma canoa ou um barco virado de cabeça para baixo.
4-Praia de Anakena e sítio arqueológicos de Te Pito Kura e Papa Vaka
Principal e mais famosa praia da Ilha de Páscoa, Anakena combina uma paisagem tropical com águas calmas azul-turquesa e um conjunto de moais importante. Há uma escultura solitária (Ahu Ature Huki) e uma plataforma com sete moais restaurados com pukaos (cobertura na cabeça). O passo seguinte da visita é conhecer Te Pito Kura, famoso por abrigar o maior moai já transportado de sua pedreira original, que tem cerca de 10 metros de altura e está caído de bruços no chão. Nesta localidade também fica uma misteriosa pedra magnética, que na verdade é uma rocha esférica perfeitamente polida, cercada por quatro menores. Acredita-se que ela tenha poderes naturais e sobrenaturais. O programa termina em Papa Vaka, um sítio arqueol. ógico de petróglifos, que são desenhos e entalhes gravados em rochas. Além da representação de uma canoa, os visitantes se deparão com desenhos de tubarões, lulas, atuns e tartarugas nas pedras do local.
5-“Fábrica” Tarai Moai e complexo Tongariki
Este passeio, sem dúvida, é o mais impressionante na Ilha de Páscoa. Ele começa na encosta do vulcão extinto Rano Raraku, onde, principalmente entre 1250 e 1650 d.C., foram feitos quase todos os moais que existem em Rapa Nui. Ainda hoje estão nesta “fábrica” cerca de 400 esculturas, em várias fases de produção. Várias parecem “brotar” do solo ou estão presas à rocha-mãe, abandonadas no meio do processo de produção. Sabe-se que os artesãos usavam ferramentas de pedra basáltica mais dura, chamadas toki, para esculpir diretamente a rocha vulcânica mais maleável (tufo) da encosta do vulcão. Está ali, por exemplo, o maior moai de todos, o Te Tokanga (“O Gigante”), que mede 21 metros de comprimento e pesaria cerca de 160 a 200 toneladas se tivesse sido descolado da rocha. Diferentemente da crença popular de que são apenas cabeças, as escavações mostraram que os moais dali possuem corpos inteiros (torso, braços e barriga), encobertos pela terra ao longo dos séculos. O passeio termina com uma visita a Tongariki, a cerca de 2 quilômetros dali, um impressionante complexo com 15 moais (confira os detalhes no próximo ítem).
6-Amanhecer no complexo de Tongariki
O complexo é o maior e mais impressionante conjunto de moais de Rapa Nui. A estrutura, com 220 metros de comprimento, reúne 15 estátuas enfileiradas, que variam entre cinco e nove metros de altura. Construído entre os séculos XIII e XVI, Tongariki funcionou como o principal centro sociopolítico e religioso de Hota Iti, o clã que dominou a parte oriental da ilha. Depois das guerras civis e conflitos entre clãs que existiram na ilha, todos os moais foram derrubados. Um tsunami que atingiu o local, em 1960, ainda arrastou as estátuas e blocos de pedra para o interior da ilha. Depois de uma grande restauração, na década de 1990, o complexo foi reerguido com uma equipe nipo-chilena (com financiamento do governo e empresas do Japão). É justamente este lugar considerado o melhor ponto de Rapa Nui para assistir ao nascer do sol, quando a silhueta dos 15 moais se destacam em meio ao céu por vezes meio alaranjado, por vezes rosado. No verão, vale ressaltar, o sol nasce exatamente no meio da plataforma de esculturas.
ONDE FICAR:
Nayara Hangaroa
Em meio à paisagem vulcânica e ao isolamento que fazem da Ilha de Páscoa — ou Rapa Nui — um dos destinos mais intrigantes do Pacífico, o Nayara Hangaroa combina luxo, arquitetura e uma rara conexão com a cultura ancestral da ilha. Integrante da prestigiada The Leading Hotels of the World e da Nayara Resorts, o hotel, inaugurado em 2013 e incorporado à rede em 2020, reúne 75 quartos com terraços privativos voltados para a vegetação nativa e o oceano. Seu desenho arquitetônico, marcado por construções ovaladas, evoca a aldeia cerimonial de Orongo, junto ao vulcão Rano Kau, enquanto “telhados verdes” ajudam a regular naturalmente a temperatura dos ambientes. O local conta ainda com um spa, um bar e dois restaurantes, todos com práticas sustentáveis e em sintonia com o ambiente ao seu entorno. https://nayarahangaroa.com/
Siga também no Instagram o perfil @omundodesofia_cerqueira Com o olhar cultivado em redações por mais de 30 anos, convido você a viajar pelo mundo, por aqui. Nesse amplo e diversificado roteiro, cabem um destino encantador, uma suíte especial, uma experiência única, uma curiosidade do setor e tudo mais que possa instigar quem está de malas prontas ou sonha em pôr o pé na estrada.







