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Por que Lula seria hoje o único capaz de destronar Bolsonaro? (Juan Arias)

Existe como um sentimento de culpa na sociedade depois de ter constatado a atitude da Lava Jato

Por Juan Arias
12 mar 2021, 11h00

A liberação de Lula para poder disputar eleições foi um terremoto que revirou todas as cartas da política e de alguma forma antecipou a disputa das próximas eleições presidenciais. A recente entrevista de Lula a este jornal e a pesquisa do Ipec Inteligência sobre o potencial de voto de 10 possíveis candidatos em que Lula seria o único com potencial para vencer Bolsonaro já tinham sido reveladoras. Duas coisas ficaram claras: se Lula fosse liberado para poder disputar as eleições seria o candidato do PT e, portanto, da esquerda.

Lula afirmou na entrevista que se sentia com forças para travar essa batalha e que seus 75 anos não seriam um empecilho, já que Biden é presidente dos Estados Unidos com 78. Agora, na primeira entrevista coletiva depois do anúncio do Supremo Tribunal Federal de que pode disputar as eleições, ficou claro que a partir de hoje Lula já está em campanha eleitoral e começa a aparecer um Lula ressuscitado e com a intenção de vestir mais a figura do estadista conciliador do que a do sindicalista enfurecido. Apareceu mais o Lula de seu primeiro mandato e da famosa Carta ao Brasil, em que anunciava seu desejo de governar apoiado pelas forças de centro-direita em diálogo com o mundo da indústria e do mercado com fortes apelos a uma revolução social.

A forte rejeição que ainda existe em boa parte da sociedade contra a esquerda foi o que deu a vitória à extrema direita golpista. E pelo menos até ontem era verdade que Bolsonaro, se não for apeado do poder antes das eleições, contará para se reeleger com a poderosa máquina do Estado à sua disposição e com a força dos militares que agora terão apenas duas opções: apoiar Bolsonaro que os colocou no Governo ou confessar sua derrota e seu fracasso ao governar lado a lado com o discutido capitão, cujos impulsos ditatoriais tentam em vão amansar.

Ao mesmo tempo fica cada vez mais evidente que milhões de pessoas que votaram no mito estão arrependidas e repetem o mantra: “Como pude votar nesse fascista genocida sem compaixão pelas vítimas da pandemia?”. A rejeição visceral a Lula e à esquerda parece estar se desvanecendo. Existe como um sentimento de culpa na sociedade depois de ter constatado a atitude da Lava Jato que atacou Lula por motivos políticos, o que acabou entregando o país a Bolsonaro e seus instintos de morte e destruição.

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Hoje o que se ouve na rua e nos corredores sobre a possível reeleição de Bolsonaro é “qualquer candidato menos ele”. A cada dia fica mais claro que tantos arrependidos por terem votado na extrema direita de morte bolsonarista constatam cada vez mais que o mito se tornou um presidente que está empobrecendo e envergonhando o país ao distanciá-lo do concerto internacional.

Por tudo isto e pelas incógnitas que o complexo quebra-cabeça das eleições ainda encerra, todas as possibilidades permanecem abertas, inclusive que Bolsonaro seja destituído do cargo dada a incapacidade cada vez mais evidente de governar um país que hoje se vê, por sua culpa, mergulhado na maior crise sanitária de sua história que preocupa não só dentro do país, como também mundialmente.

Para derrotar Bolsonaro, porém, será necessário confrontá-lo com um candidato com carisma popular. Não se pode esquecer que se trata de um país em que a grande maioria que vai às urnas é a massa das classes mais pobres, que nunca votarão, por melhor que seja, em um candidato que não se apresente como um salvador ou redentor, alguém que vá resgatá-las da pobreza e do esquecimento.

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Não podemos esquecer que Bolsonaro não teria sido eleito se não fosse o misterioso atentado que de repente transformou um simples capitão reformado do Exército em um mito, no messias escolhido por Deus. Nesse sentido, desta vez esse mito se deteriorou e chega à reeleição com sua coroa destroçada.

E é nesse sentido que os hoje decepcionados com o mito vão em busca de outro mito.

E neste caso Lula, vítima da Lava Jato, pode ressuscitar como uma fênix de suas cinzas, capaz de vencer novamente sua batalha. Isso explicaria por que Lula aparece com maior potencial político do que todos os demais possíveis candidatos. No inconsciente de milhões de pobres e de certa classe média esclarecida existe a convicção de que Lula pode ressurgir como uma nova esperança.

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Diz-se e repete-se que o sonho de Bolsonaro é enfrentar Lula. Talvez se as pesquisas continuarem dando a Lula uma força política capaz de derrotar a extrema direita golpista, Bolsonaro tente, instigado pelos próprios militares, a mudar de camisa para aparecer menos provocador e negacionista. Finalmente está se revelando que a alardeada valentia do mito contém uma boa dose de covardia.

A hipótese de um acordo do centro-esquerda também está desmoronando porque com Lula não existe a possibilidade de que as outras forças progressistas cheguem a um acordo eleitoral. Lula ocupa todo o arco da esquerda e, além disso, já demonstrou que é capaz de fazer um Governo no qual participem partidos de centro, como aconteceu em seus dois Governos anteriores. Isso enfraquece a possibilidade do centro-direita optar por um Bolsonaro desgastado por seu comportamento durante a pandemia que a cada dia acumula mais mortes e mais sofrimento nacional.

Este país parece cada dia mais cansado de todo esse ódio semeado pelos boslonaristas e busca um período de paz política. Por isso é fundamental que Lula apareça depois de seu calvário judicial não mais como o político do nós contra eles, mas como o político da reunificação nacional.

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Isso também poderia contribuir para a recuperação econômica e para a tranquilidade dos mercados e empresários se entenderem que o novo Lula volta renovado e capaz de dialogar e negociar com todos e que apresenta um novo projeto de Brasil. Um projeto capaz de convencer até mesmo aqueles que confiaram no projeto do mito da extrema direita que chega à reeleição, se chegar, desgastado e maltratado como um presidente incapaz de apostar na vida, mais preocupado em salvar da justiça sua família mergulhada na corrupção do que com os problemas urgentes do país.

Bolsonaro chega à reeleição como quem traiu todas as bandeiras e promessas com as quais foi eleito e como quem usou a pandemia como arma para seus interesses em se reeleger, com uma atitude suicida que ensanguentou o país ao mesmo tempo em que o transformou em um pária aos olhos do mundo.

Os primeiros sinais de que hoje a comparação entre Lula e Bolsonaro começa a se inclinar a favor do primeiro é que de repente seu nome aparece nas redes sociais com uma força que não tinha até ontem. E os mesmos políticos de centro-direita começam a fazer comparações entre o atual presidente golpista e fascista e o Lula democrático capaz de dialogar com todas as forças políticas.

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Um sinal claro acaba de ser dado pelo ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, de centro-direita, que fez uma interessante comparação entre Lula e Bolsonaro no Twitter. Segundo Maia, enquanto Lula “tem visão de país”, Bolsonaro “só enxerga o próprio umbigo”. Segundo Maia, “Lula, ao contrário de Bolsonaro, respeita e defende a democracia”. E acrescenta que “enquanto Lula defende uma política externa independente, Bolsonaro defende a subserviência”. E conclui: “Você não precisa gostar do Lula para entender a diferença dele para o Bolsonaro”.

São os primeiros sinais de que a candidatura de Lula começa a destroçar a atual política de morte do capitão e a ver sua chegada como uma nova forma de fazer política respeitando os valores da civilização e oferecendo ao mundo uma nova esperança de sair do túnel tenebroso de um bolsonarismo que acabou rebaixando o país à categoria de república de bananas que ele deseja manejar à vontade, esquecendo que o Brasil é uma das potências econômicas do mundo e coração do continente latino-americano.

Os sonhos loucos do capitão começam a perder força inclusive dentro da direita não fascista, que vê na chegada do velho Lula o fim de um pesadelo do qual o Brasil já está cansado e com vontade de virar a página.

(Transcrito do jornal El País)

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