O vídeo não pode ser bom (por João Bosco Rabello)
Risco de faltar a caracterização explícita para que a acusação de Moro produza uma consequência maior

É sempre preciso cautela com relação a versões de reuniões fechadas, especialmente quando informações ainda são fragmentadas. As fontes das quais se depende para reconstruir as conversas, por mais fidedignas, expressam seu ponto-de-vista sobre o que viram e ouviram.
Por ora, há margem interpretativa para o que se tornou público até ontem. É só o começo, mas o vídeo mantém expectativas em relação a outros temas que eventualmente possam comprometer o governo.
As primeiras versões o dão como “devastador” contra o presidente Bolsonaro, mas é preciso dar importância ao que disse o presidente e os três ministros militares quanto à motivação para a alteração na Polícia Federal. Afirmam que era por insatisfação com a segurança da família presidencial.
Não fica de pé essa versão, pois essa missão é da Abin, e seria preciso apontar qual a falha da PF nisso. Mas não havendo menção explícita a investigações, juridicamente pode faltar a caracterização explícita para que a acusação de Moro produza uma consequência maior.
Como devastador se pode entender que não deixa dúvida sobre o que diz Moro e também revelar mais do que isso e tornar a intervenção na Polícia Federal algo até secundário.
Afinal, outra versão aponta para a menção na reunião à cobrança dos exames de Covid-19 do presidente da República, quando ele teria admitido ser assintomático e, portanto, revelar o resultado traria o risco de impeachment.
A ser verdadeira, Moro atirou no que lhe interessa, mas também no que considera fatal para o presidente. Este, teria agido consciente de que era transmissor do vírus.
O que empresta veracidade às versões contrárias ao presidente é o empenho da Advocacia-Geral da União (AGU) para que o vídeo não chegasse ao Supremo Tribunal Federal (STF). Da mesma forma, a relutância do presidente em apresentar seus exames para Covid-19, cujo “round” final será também no STF.
Bolsonaro teria que apresentar os exames não fosse a decisão do presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), João Otávio de Noronha, em sentido contrário ao das demais instâncias do Judiciário. De biografia respeitável, Noronha não surpreendeu porque já tinha manifestado sua opinião em entrevista, o que tornou sua sentença previsível.
Mas o que chama a atenção na decisão do presidente do STJ é não considerar o contexto em que se cobra a apresentação dos exames. Não fosse o comportamento desafiador de Bolsonaro à quarentena, ao promover aglomerações em seu torno, poderia até se admitir a visão de privacidade de Noronha, embora ainda assim questionável.
O vídeo não pode ser positivo para Bolsonaro e para o governo. Ele pode apenas ser definitivo ou não. O que precede sua requisição já não é bom: uma grave acusação de tentativa de intervir na PF em favor da família. Se confirmado, entre outras consequências, mostrará que na hierarquia presidencial a família vem antes do interesse público, o que pode impor a quebra do sigilo sobre a gravação como forma de justificar à sociedade eventuais desdobramentos mais sérios.
Outras tentativas de evitar avanço de investigações ficam ofuscadas pela denúncia de Moro, mas são igualmente significativas, pelo vínculo que guardam com a acusação do ex-ministro de interferência na PF. O filho Flávio, teve recusada pelo STJ a décima tentativa de sustar as investigações sobre a “rachadinha” em seu gabinete quando vereador.
Outro filho, Eduardo, também tentou sem êxito sustar a prorrogação da CPI das Fake News, que segundo versões se aproxima de Carlos, o outro filho, que é o responsável, de fato, pela comunicação digital do presidente da República.
Note-se que todo o arsenal acumulado contra Bolsonaro não tem fonte primária na oposição. A matéria-prima é fornecida pelo próprio presidente e seu governo, cujo déficit de gestão só não é maior que os distúrbios que causa. O vídeo faz parte dessa desconstrução que o presidente faz de si mesmo. Por isso, fatal ou não, faz mal ao governo.
A oposição está comedida porque o ator da hora é a Suprema Corte. Mais na frente, poderá valer-se desses conteúdos e decisões de um Judiciário atacado diariamente pelo Executivo. Mas, nesse momento, o Legislativo é espectador privilegiado da crise de governo. Sabe que ela pode se tornar insustentável em algum momento das investigações.
É esperar para ver. Bolsonaro mantém os 30% de apoio popular, o que lhe mantém com certa estabilidade, mas sua desaprovação saltou de 31% para 43,4%, segundo pesquisa da CNT. O índice de popularidade não é fator para remoção de presidentes, mas sua queda gradual pavimenta o caminho quando se materializam as condições penais ou políticas para tal.
João Bosco Rabello. Jornalista há 40 anos, iniciou sua carreira no extinto Diário de Notícias (RJ), em 1974. Em 1977, transferiu-se para Brasília. Entre 1984 e 1988, foi repórter e coordenador de Política de O Globo, e, em 1989, repórter especial do Jornal do Brasil. Participou de coberturas históricas, como a eleição e morte de Tancredo Neves e a Assembleia Nacional Constituinte. De 1990 a 2013 dirigiu a sucursal de O Estado de S. Paulo, em Brasília. Recentemente, foi assessor especial de comunicação nos ministérios da Defesa e da Segurança Pública.