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Acenos de Capitães: Evangélicos, empresários, Brumadinho e Jerusalém

Vitor Hugo Soares

Por Vitor Hugo Soares Atualizado em 30 jul 2020, 19h50 - Publicado em 6 abr 2019, 13h00

Os acenos e signos disparados, dia 1º de abril, pelos capitães mandatários do Brasil e de Israel – Jair Bolsonaro e Benjamin Netanyahu – , diretamente do Muro das Lamentações, em Jerusalém, evocam no jornalista, antigas e marcantes recordações. Refiro-me ao período em que fazia, ao mesmo tempo, os cursos de Jornalismo e Direito, na Universidade Federal da Bahia (UFBa), quando eu era jovem e isso era possível, nos Anos 60/70 dos combates estudantis à ditadura e à Reforma Universitária “do abaixo o projeto MEC-USAID”, como gritávamos nas ruas de então.

Ninguém me contou, eu estava lá, eu vi. E os dias eram assim, acrescento, misturando o que escreveu o jornalista Sebastião Nery, na apresentação do livro “Rompendo o Cerco” (dos melhores e mais decisivos pronunciamentos de Ulysses Guimarães, das 100 melhores frases selecionadas por dona Mora e do Decálogo do Estadista, do timoneiro das grandes batalhas da resistência democrática na época) com os versos da canção famosa que Elis Regina consagrou, sobre aquele período turvo.

“Mas quando me lembro, são anos dourados”, para seguir nas asas das canções. “Às vezes realistas, outras oníricas, e tantas vezes também enganadoras, a exemplo de muitos de seus compositores e cantores . Que o diga Nana Caymmi, a filha de seu Dorival, como o diabo gosta, na entrevista à Folha, a propósito do lançamento de seu novo disco, com canções de Tito Madi.

Recordo também que, em 1967, Jerusalém (a cidade legendária que reúne em cultos judeus, católicos e muçulmanos) foi ocupada por Israel, durante a Guerra dos Seis Dias, que abalaria o mundo. Daí nasceu o Estatuto de Jerusalém, uma das questões mais polêmicas e espinhosas do embate Israel x Palestina, até hoje. Isso ficou patente nos fatos e impactos produzidos na viagem de Bolsonaro e nos seus encontros com Netanyahu. Encerrados no dia 3 de abril, mas com pólvora para queimar durante muito tempo.

A conferir nos capítulos seguintes do folhetim sobre este “noivado”, cujo dote de “casamento” – depois da anunciada criação de um escritório de negócios do Brasil na Cidade Santa -, deverá ser a transferência da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém. Um dos próximos e decisivos capítulos deste romance, aliás, está marcado para 9 de abril.

A visita coincidiu com o auge da campanha eleitoral israelense , cujas eleições gerais acontecem na próxima terça-feira. Há risco (mesmo reduzido) da não reeleição e permanência de Netanyahu no comando de sua nação. A partir do que sair das urnas, portanto, se poderá saber se o romance avança ou vira mais um motivo de frustração a ser curtido no muro dos lamentos.

Seja como for, ficam imagens expressivas: o rompimento de larga tradição diplomática, patente diante da presença do presidente do Brasil no Muro das Lamentações, ineditamente acompanhado do primeiro-ministro israelense. Usando kipá (gorro tradicional dos judeus), mãos sobre as antigas pedras sagradas, com a cabeça inclinada durante vários segundos. Um aceno e tanto também aos evangélicos no Brasil, decisivos em sua eleição e considerados essenciais na hora das reformas, em face da forte representação parlamentar que têm no Congresso. Sem falar no encontro com empresários, na medalha de honra do País, entregue aos bombeiros israelenses, e ao governo deles, solidários na hora dolorosa da tragédia de Brumadinho. Shalon!

 

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitors.h@uol.com.br

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