Flávio Bolsonaro: o que entra e o que fica de fora nas privatizações
Plano em gestação prevê privatizações ‘cirúrgicas’, com blindagem e foco em estatais com prejuízos bilionários. Saiba quais e por quê
Oficializado candidato à Presidência da República pelo PL, o senador Flávio Bolsonaro (PL‑RJ) ainda não divulgou seu plano de governo — o prazo da Justiça Eleitoral vai até 15 de agosto —, mas sua equipe econômica já trabalha com diretrizes prontas para pelo menos uma ponto: a retomada das privatizações em caso de vitória.
“Em linhas gerais, ele vai dar sequência à agenda do Paulo Guedes de 2018‑2022. Buscar reduzir impostos, reduzir juros e incentivar a iniciativa privada nas agendas econômicas”, disse à coluna um dos principais colaboradores do candidato. “Em privatizações, especificamente, a direção deve ser a mesma, porém, com menos intensidade. Acho muito pouco provável alguma privatização de grande escala como foi a da Eletrobras, por exemplo. Privatizações pontuais de empresas deficitárias ou falidas podem, sim, ser realizadas.”
Flávio tem esbarrado em dificuldades crescentes para ter o apoio declarado da elite econômica depois que seu nome começou a aparecer em casos como o do Master. Também há um sentimento de que o senador do PL nutre ideias políticas tão radicais quanto as do pai, o que, na avaliação de alguns observadores, só reforçaria o clima de polarização no País. Ao acenar com o projeto da privatização – tema caro para quem diz que não vai votar no presidente Luiz Inácio Lula da Silva – , Flávio tenta quebrar esses pontos de resistência.
Quando Jair Bolsonaro passou pela presidência, o plano de acelerar as privatizações já estava presente. Mas, no fim, considerando as grandes companhias, só uma estatal passou efetivamente para o controle privado: a Eletrobras, em 2022. Outras operações prometidas, como a dos Correios, Telebras e Porto de Santos, não saíram do papel. Os Correios por exemplo travou no Senado por falta de apoio político.
O colaborador da equipe econômica de possível governo de Flávio acrescentou que “não existe qualquer ‘lista’”. “Apenas o conceito da linha que será adotada para essa política”, reforçou. Ou seja, Petrobras está fora; enquanto isso, os Correios devem ser uma das primeiras estatais a entrar na mira. “Petrobras possivelmente está fora desse conceito. A inferência pelos Correios é consequência lógica”, disse ele.
Neste momento, nenhuma empresa poderia simbolizar melhor esse alvo do que os Correios. As demonstrações contábeis publicadas em abril mostraram que a estatal fechou 2025 com prejuízo líquido de aproximadamente R$ 8,5 bilhões — mais que o triplo do rombo de 2024 —, consolidando o pior resultado de sua história recente e 14 trimestres consecutivos no vermelho. Segundo análise do Tribunal de Contas da União (TCU), a ECT se encontra em situação crítica, com patrimônio líquido negativo e forte deterioração de seus indicadores de liquidez, o que na prática caracteriza quadro de insolvência técnica. A sangria continuou em 2026: no primeiro trimestre, o déficit alcançou cerca de R$ 3,16 bilhões, um aumento de 83% em relação ao mesmo período do ano anterior e o 14.º resultado trimestral consecutivo no vermelho.
Para manter a estatal de pé, o governo Lula montou uma operação de socorro em camadas. No fim de 2025, os Correios captaram aproximadamente R$ 12 bilhões com um consórcio de cinco bancos — entre eles, os públicos Banco do Brasil e Caixa —, com garantia soberana da União, juros em torno de 115% do CDI e prazo de 15 anos; a operação está sob apuração do TCU por falhas na análise de risco fiscal e impacto nas contas públicas. A empresa negocia agora um novo empréstimo de cerca de R$ 7 bilhões, também com aval do Tesouro, desta vez com bancos estrangeiros como Bank of America, Citi e Deutsche Bank, aprofundando a dependência de crédito público e garantias estatais. Em julho, o Banco do Brasil renovou, sem licitação, contrato de serviços postais de até R$ 2,3 bilhões por cinco anos, assegurando uma fonte adicional de receita operacional para a estatal. Além disso, o Orçamento de 2027 deve prever aporte direto da União de pelo menos R$ 6 bilhões, reforçando a percepção de que a empresa só se mantém operacional graças ao apoio do Tesouro.
Em um cenário de escassez fiscal, a persistência dos prejuízos dos Correios e a necessidade de sucessivos resgates financeiros reforçam a leitura, no núcleo econômico de Flávio Bolsonaro, de que a estatal se tornou um caso‑teste para uma nova rodada de privatizações. Ao preservar a Petrobras e concentrar o foco em empresas estruturalmente deficitárias, a campanha sinaliza uma estratégia de desestatização “cirúrgica”, que busca reduzir o desgaste político das grandes vendas e, ao mesmo tempo, explorar o desgaste da gestão petista com as estatais como trunfo eleitoral.







