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Eleições: O que muda no bolso se o candidato escolhe gastar — ou cortar

Planos de governo dos candidatos revelam estratégias distintas; o efeito final, porém, dependerá de custos, fontes de financiamento e execução

Por Neuza Sanches Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 8 set 2026, 11h30
Eleições: O que muda no bolso se o candidato escolhe gastar — ou cortar Priorize VEJA no Google

A disputa presidencial também é uma escolha sobre a direção da política fiscal: quanto o Estado deve investir, onde deve cortar e quem absorve os efeitos dessa decisão numa herança fiscal já comprometida em mais de 82% do PIB. A coluna elaborou um balanço sobre as propostas dos candidatos que aparecem com maior destaque nas pesquisas de intenção de votos e seus possíveis impactos no bolso do brasileiro (ver tabela abaixo).

Luiz Inácio Lula da Silva apresentou um programa cuja orientação ainda é expansionista, embora agora moderada e submetida ao arcabouço fiscal: o programa combina preservação de políticas sociais e incentivo a investimentos em infraestrutura, inovação e indústria, com a promessa de controle do déficit. Para o cidadão, a aposta pode significar maior presença estatal em serviços, obras e crédito, com potencial de sustentar emprego e renda; a ressalva é que despesas sem receitas permanentes ou crescimento econômico suficiente podem pressionar dívida, inflação e juros.

Flávio Bolsonaro sustenta uma linha contracionista baseada na redução de despesas: seu programa prevê um “tesouraço” orçamentário, corte de ministérios, cargos e gastos administrativos, combate a supersalários e nova regra fiscal voltada à dívida. Em tese, o cidadão poderia se beneficiar de inflação e juros menores caso o ajuste seja crível e bem executado; em contrapartida, cortes mal desenhados podem reduzir a qualidade ou a capilaridade de políticas públicas, sobretudo se recaírem sobre serviços essenciais. O plano prevê investimentos em infraestrutura, mas sua orientação dominante é conter o gasto e ampliar o espaço para iniciativa privada, privatizações e desonerações.

Augusto Cury, que nas últimas pesquisas despontou entre os candidatos, ocupa uma posição intermediária: defende déficit público próximo de zero, digitalização e redução de custos, mas propõe crédito para empreendedores, bancos e clubes de empreendedorismo, estímulos a agroindústrias, zonas de exportação, telemedicina e novas estruturas administrativas. Para a população, essa agenda pode ampliar oportunidades de pequenos negócios e acesso a determinados serviços. Mas seu efeito fiscal líquido é incerto porque o programa não explicita com precisão o custo das iniciativas, a fonte de recursos e seu cronograma.

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 Ronaldo Caiado segue uma direção contracionista moderada, ao propor teto para o avanço das despesas, revisão de subsídios e recomposição de superávits; para o cidadão, a promessa é de estabilidade e menor pressão sobre a dívida, mas com risco de restrição de gastos sociais e de investimento se a regra for aplicada de modo rígido.

Renan Santos é o que defende, ao menos no papel, um programa de ajuste mais intenso: sua proposta de “PEC do Equilíbrio Fiscal” fala em economia de R$ 1,1 trilhão até 2031, com desindexação, desvinculação de despesas, redução de incentivos e contenção do gasto. O impacto potencial é ambivalente: um ajuste dessa escala poderia reduzir a trajetória da dívida e abrir margem para juros menores, mas também afetaria benefícios, pisos de saúde e educação ou transferências, a depender do desenho legislativo.

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Romeu Zema, por sua vez, propõe contração estrutural por meio da revisão do crescimento automático de despesas obrigatórias, privatizações e venda de ativos; a lógica é reduzir o peso do Estado e melhorar a solvência pública, mas também aqui a consequência concreta para o cidadão dependeria de como seriam preservados serviços, tarifas, regulação e proteção aos usuários após a transferência de atividades ao setor privado.

Vale a ressalva: esta “classificação” não equivale a uma previsão fechada nem a um julgamento de valor dos candidatos. Cortar gasto não é automaticamente sinônimo de eficiência, assim como investir mais não é, por si só, sinônimo de desenvolvimento. Na avaliação de especialistas consultados pela coluna, a questão decisiva é o que se corta ou se expande, quem é atingido, qual é o custo, como a medida será financiada e se há capacidade de execução. Sem memória de cálculo, metas anuais de resultado primário, fontes de custeio e estimativas de impacto distributivo, o eleitor deve ler promessas de austeridade e de investimento como direções gerais — não como garantias de efeito sobre salário, emprego, preços, aposentadorias, serviços públicos ou impostos.

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Candidato Partido Tendência predominante Efeito provável no cotidiano Ressalva central
Luiz Inácio Lula da Silva PT Expansionista moderado, condicionado por regra fiscal Pode preservar ou ampliar políticas sociais, obras, investimento público, crédito e serviços; pode favorecer emprego e renda se a expansão for bem focalizada O ganho depende de financiamento sustentável. Se o gasto superar a capacidade de arrecadação e crescimento, pode haver pressão sobre dívida, juros e inflação
Flávio Bolsonaro PL Contracionista Pode reduzir estrutura administrativa, buscar ajuste da dívida, desonerar e estimular investimento privado; se o ajuste for crível, pode contribuir para queda de juros Cortes de despesa podem alcançar capacidade estatal e políticas públicas; os investimentos anunciados precisam de fonte de custeio e detalhamento
Augusto Cury Avante Misto, com meta fiscal de neutralidade ou leve contração Pode estimular empreendedorismo, crédito, agroindústria, digitalização e alguns serviços, ao mesmo tempo que persegue déficit próximo de zero Não há detalhamento suficiente de custos, receitas e cronograma para identificar o efeito fiscal líquido
Ronaldo Caiado PSD Contracionista moderado Pode priorizar controle da dívida, superávit e estabilidade macroeconômica; preservaria investimentos considerados prioritários Um teto de despesas rígido pode limitar a expansão de políticas sociais, investimentos e serviços em períodos de maior demanda
Renan Santos Missão Contracionista forte Pode produzir ajuste rápido das contas públicas e reduzir a trajetória da dívida se as medidas forem viáveis Cortes, desindexação e desvinculação de despesas podem afetar a proteção orçamentária de saúde, educação, Previdência e transferências
Romeu Zema Novo Contracionista forte Pode reduzir o tamanho do Estado, priorizar privatizações, venda de ativos e redução de despesas obrigatórias; busca melhorar solvência e dívida O resultado para usuários depende de regulação, concorrência e proteção de serviços; privatização ou corte não garantem automaticamente melhor atendimento ou preços menores

Fontes: TSE e programas econômicos de governo dos candidatos e seus respectivos partidos políticos

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