Eleições: O que muda no bolso se o candidato escolhe gastar — ou cortar
Planos de governo dos candidatos revelam estratégias distintas; o efeito final, porém, dependerá de custos, fontes de financiamento e execução
A disputa presidencial também é uma escolha sobre a direção da política fiscal: quanto o Estado deve investir, onde deve cortar e quem absorve os efeitos dessa decisão numa herança fiscal já comprometida em mais de 82% do PIB. A coluna elaborou um balanço sobre as propostas dos candidatos que aparecem com maior destaque nas pesquisas de intenção de votos e seus possíveis impactos no bolso do brasileiro (ver tabela abaixo).
Luiz Inácio Lula da Silva apresentou um programa cuja orientação ainda é expansionista, embora agora moderada e submetida ao arcabouço fiscal: o programa combina preservação de políticas sociais e incentivo a investimentos em infraestrutura, inovação e indústria, com a promessa de controle do déficit. Para o cidadão, a aposta pode significar maior presença estatal em serviços, obras e crédito, com potencial de sustentar emprego e renda; a ressalva é que despesas sem receitas permanentes ou crescimento econômico suficiente podem pressionar dívida, inflação e juros.
Flávio Bolsonaro sustenta uma linha contracionista baseada na redução de despesas: seu programa prevê um “tesouraço” orçamentário, corte de ministérios, cargos e gastos administrativos, combate a supersalários e nova regra fiscal voltada à dívida. Em tese, o cidadão poderia se beneficiar de inflação e juros menores caso o ajuste seja crível e bem executado; em contrapartida, cortes mal desenhados podem reduzir a qualidade ou a capilaridade de políticas públicas, sobretudo se recaírem sobre serviços essenciais. O plano prevê investimentos em infraestrutura, mas sua orientação dominante é conter o gasto e ampliar o espaço para iniciativa privada, privatizações e desonerações.
Augusto Cury, que nas últimas pesquisas despontou entre os candidatos, ocupa uma posição intermediária: defende déficit público próximo de zero, digitalização e redução de custos, mas propõe crédito para empreendedores, bancos e clubes de empreendedorismo, estímulos a agroindústrias, zonas de exportação, telemedicina e novas estruturas administrativas. Para a população, essa agenda pode ampliar oportunidades de pequenos negócios e acesso a determinados serviços. Mas seu efeito fiscal líquido é incerto porque o programa não explicita com precisão o custo das iniciativas, a fonte de recursos e seu cronograma.
Ronaldo Caiado segue uma direção contracionista moderada, ao propor teto para o avanço das despesas, revisão de subsídios e recomposição de superávits; para o cidadão, a promessa é de estabilidade e menor pressão sobre a dívida, mas com risco de restrição de gastos sociais e de investimento se a regra for aplicada de modo rígido.
Renan Santos é o que defende, ao menos no papel, um programa de ajuste mais intenso: sua proposta de “PEC do Equilíbrio Fiscal” fala em economia de R$ 1,1 trilhão até 2031, com desindexação, desvinculação de despesas, redução de incentivos e contenção do gasto. O impacto potencial é ambivalente: um ajuste dessa escala poderia reduzir a trajetória da dívida e abrir margem para juros menores, mas também afetaria benefícios, pisos de saúde e educação ou transferências, a depender do desenho legislativo.
Romeu Zema, por sua vez, propõe contração estrutural por meio da revisão do crescimento automático de despesas obrigatórias, privatizações e venda de ativos; a lógica é reduzir o peso do Estado e melhorar a solvência pública, mas também aqui a consequência concreta para o cidadão dependeria de como seriam preservados serviços, tarifas, regulação e proteção aos usuários após a transferência de atividades ao setor privado.
Vale a ressalva: esta “classificação” não equivale a uma previsão fechada nem a um julgamento de valor dos candidatos. Cortar gasto não é automaticamente sinônimo de eficiência, assim como investir mais não é, por si só, sinônimo de desenvolvimento. Na avaliação de especialistas consultados pela coluna, a questão decisiva é o que se corta ou se expande, quem é atingido, qual é o custo, como a medida será financiada e se há capacidade de execução. Sem memória de cálculo, metas anuais de resultado primário, fontes de custeio e estimativas de impacto distributivo, o eleitor deve ler promessas de austeridade e de investimento como direções gerais — não como garantias de efeito sobre salário, emprego, preços, aposentadorias, serviços públicos ou impostos.
| Candidato | Partido | Tendência predominante | Efeito provável no cotidiano | Ressalva central |
| Luiz Inácio Lula da Silva | PT | Expansionista moderado, condicionado por regra fiscal | Pode preservar ou ampliar políticas sociais, obras, investimento público, crédito e serviços; pode favorecer emprego e renda se a expansão for bem focalizada | O ganho depende de financiamento sustentável. Se o gasto superar a capacidade de arrecadação e crescimento, pode haver pressão sobre dívida, juros e inflação |
| Flávio Bolsonaro | PL | Contracionista | Pode reduzir estrutura administrativa, buscar ajuste da dívida, desonerar e estimular investimento privado; se o ajuste for crível, pode contribuir para queda de juros | Cortes de despesa podem alcançar capacidade estatal e políticas públicas; os investimentos anunciados precisam de fonte de custeio e detalhamento |
| Augusto Cury | Avante | Misto, com meta fiscal de neutralidade ou leve contração | Pode estimular empreendedorismo, crédito, agroindústria, digitalização e alguns serviços, ao mesmo tempo que persegue déficit próximo de zero | Não há detalhamento suficiente de custos, receitas e cronograma para identificar o efeito fiscal líquido |
| Ronaldo Caiado | PSD | Contracionista moderado | Pode priorizar controle da dívida, superávit e estabilidade macroeconômica; preservaria investimentos considerados prioritários | Um teto de despesas rígido pode limitar a expansão de políticas sociais, investimentos e serviços em períodos de maior demanda |
| Renan Santos | Missão | Contracionista forte | Pode produzir ajuste rápido das contas públicas e reduzir a trajetória da dívida se as medidas forem viáveis | Cortes, desindexação e desvinculação de despesas podem afetar a proteção orçamentária de saúde, educação, Previdência e transferências |
| Romeu Zema | Novo | Contracionista forte | Pode reduzir o tamanho do Estado, priorizar privatizações, venda de ativos e redução de despesas obrigatórias; busca melhorar solvência e dívida | O resultado para usuários depende de regulação, concorrência e proteção de serviços; privatização ou corte não garantem automaticamente melhor atendimento ou preços menores |
Fontes: TSE e programas econômicos de governo dos candidatos e seus respectivos partidos políticos







