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Na Ponta da Língua

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Para tirar dúvidas inquietantes, aprender dicas preciosas e curiosidades que ajudam a dominar o bom português

‘Perca’ de peso? O deslize de português na era das canetas emagrecedoras

O Mounjaro virou o remédio mais vendido do mundo em 2026, e com ele cresceu uma pegadinha clássica da nossa língua

Por Noslen Borges 23 jul 2026, 12h00 | Atualizado em 23 jul 2026, 15h36
‘Perca’ de peso? O deslize de português na era das canetas emagrecedoras Priorizar nos meus resultados Google

Fala, pessoas!

Mais uma coluna e mais um assunto que tem permeado os noticiários do Brasil.

O Mounjaro, nome comercial da tirzepatida, virou no primeiro trimestre de 2026 o medicamento mais vendido do planeta, faturou US$ 8,7 bilhões no período e passou até o remédio contra câncer Keytruda no ranking global. A Anvisa liberou o uso para obesidade, a Eli Lilly lançou novas doses e ainda cortou preços em junho para acirrar a disputa com as outras canetas emagrecedoras. Resultado: todo mundo está falando sobre o assunto, em grupo de família, em consultório, nas redes sociais.

E é justamente nas redes que aparece um erro que se repete com uma frequência impressionante: “fulano teve uma ótima perca de peso com o tratamento”. Parece inofensivo, mas está errado. O certo seria perda.

Perda de peso: o substantivo correto

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Perda é substantivo feminino, derivado do verbo perder. Ela nomeia o resultado ou o processo de perder alguma coisa: peso, tempo, dinheiro, um objeto. É a mesma lógica de “a perda do voo” ou “a perda de um documento”. Por isso a forma correta é sempre:

 

  • A perda de peso foi de 15 kg em seis meses.
  • O tratamento com tirzepatida provoca perda de peso significativa, segundo os estudos.

Por que “perca de peso” está errado

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Perca existe na língua portuguesa, só que não como substantivo ligado ao emagrecimento. Ela é uma forma verbal: o presente do subjuntivo do verbo perder, na primeira e na terceira pessoa do singular (que eu perca, que ele perca). Só faz sentido dentro de uma frase que peça esse modo verbal, normalmente puxada por “que”:

 

  • Espero que você perca peso com o novo tratamento.
  • É importante que o paciente não perca massa muscular durante o processo.
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Fora desse tipo de construção, “perca” não tem função de substantivo e por isso “a perca de peso” soa parecido, mas está gramaticalmente errado.

 

Curiosidade: “perca” também existe como substantivo em português, só que designa um peixe de água doce, da família dos percídeos. Não tem nenhuma relação com emagrecimento, a coincidência sonora com “perda” é que confunde todo mundo na hora de escrever.

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O macete para nunca mais errar

Pense no antônimo. Ninguém escreve “o ganha de peso”, certo? O correto é “o ganho de peso” substantivo, com O. Pois “perda” funciona exatamente igual: é sempre substantivo, sempre com D. Já “perca” só cabe na frase quando for possível trocá-la por “percam” ou por outro tempo verbal, como “perdesse”:

 

  • Espero que ele perca peso → espero que eles percam (verbo, com C)
  • A perda de peso foi rápida → o ganho de peso foi rápido. (substantivo, com D)
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Se a troca funcionar com “ganho”, é perda. Se funcionar com “percam”, é perca.

O que isso tem a ver com o remédio mais vendido do mundo

Tudo. Quanto mais um assunto vira febre, mais gente escreve sobre ele sem prestar atenção em posts, comentários, anúncios e até em textos jornalísticos apressados. Com a tirzepatida ocupando tanto espaço na conversa em 2026, “perda de peso” se tornou um dos termos mais buscados e mais compartilhados do momento. E é exatamente esse tipo de assunto em alta que mais precisa de atenção redobrada com a ortografia: cuidar da saúde é importante, mas escrever certo sobre ela também.

Gostou da coluna? Não se esqueça de que toda terça e quinta tem coluna nova por aqui!

 

Nos vemos na próxima.

 

Professor Noslen Borges www.professornoslen.com.br

 

Revisão textual: Profª. Ma. Glaucia Dissenha

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