‘Perca’ de peso? O deslize de português na era das canetas emagrecedoras
O Mounjaro virou o remédio mais vendido do mundo em 2026, e com ele cresceu uma pegadinha clássica da nossa língua
Fala, pessoas!
Mais uma coluna e mais um assunto que tem permeado os noticiários do Brasil.
O Mounjaro, nome comercial da tirzepatida, virou no primeiro trimestre de 2026 o medicamento mais vendido do planeta, faturou US$ 8,7 bilhões no período e passou até o remédio contra câncer Keytruda no ranking global. A Anvisa liberou o uso para obesidade, a Eli Lilly lançou novas doses e ainda cortou preços em junho para acirrar a disputa com as outras canetas emagrecedoras. Resultado: todo mundo está falando sobre o assunto, em grupo de família, em consultório, nas redes sociais.
E é justamente nas redes que aparece um erro que se repete com uma frequência impressionante: “fulano teve uma ótima perca de peso com o tratamento”. Parece inofensivo, mas está errado. O certo seria perda.
Perda de peso: o substantivo correto
Perda é substantivo feminino, derivado do verbo perder. Ela nomeia o resultado ou o processo de perder alguma coisa: peso, tempo, dinheiro, um objeto. É a mesma lógica de “a perda do voo” ou “a perda de um documento”. Por isso a forma correta é sempre:
- A perda de peso foi de 15 kg em seis meses.
- O tratamento com tirzepatida provoca perda de peso significativa, segundo os estudos.
Por que “perca de peso” está errado
Perca existe na língua portuguesa, só que não como substantivo ligado ao emagrecimento. Ela é uma forma verbal: o presente do subjuntivo do verbo perder, na primeira e na terceira pessoa do singular (que eu perca, que ele perca). Só faz sentido dentro de uma frase que peça esse modo verbal, normalmente puxada por “que”:
- Espero que você perca peso com o novo tratamento.
- É importante que o paciente não perca massa muscular durante o processo.
Fora desse tipo de construção, “perca” não tem função de substantivo e por isso “a perca de peso” soa parecido, mas está gramaticalmente errado.
Curiosidade: “perca” também existe como substantivo em português, só que designa um peixe de água doce, da família dos percídeos. Não tem nenhuma relação com emagrecimento, a coincidência sonora com “perda” é que confunde todo mundo na hora de escrever.
O macete para nunca mais errar
Pense no antônimo. Ninguém escreve “o ganha de peso”, certo? O correto é “o ganho de peso” substantivo, com O. Pois “perda” funciona exatamente igual: é sempre substantivo, sempre com D. Já “perca” só cabe na frase quando for possível trocá-la por “percam” ou por outro tempo verbal, como “perdesse”:
- Espero que ele perca peso → espero que eles percam (verbo, com C)
- A perda de peso foi rápida → o ganho de peso foi rápido. (substantivo, com D)
Se a troca funcionar com “ganho”, é perda. Se funcionar com “percam”, é perca.
O que isso tem a ver com o remédio mais vendido do mundo
Tudo. Quanto mais um assunto vira febre, mais gente escreve sobre ele sem prestar atenção em posts, comentários, anúncios e até em textos jornalísticos apressados. Com a tirzepatida ocupando tanto espaço na conversa em 2026, “perda de peso” se tornou um dos termos mais buscados e mais compartilhados do momento. E é exatamente esse tipo de assunto em alta que mais precisa de atenção redobrada com a ortografia: cuidar da saúde é importante, mas escrever certo sobre ela também.
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Nos vemos na próxima.
Professor Noslen Borges www.professornoslen.com.br
Revisão textual: Profª. Ma. Glaucia Dissenha







