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Na onda do surfe Por Renata Lucchesi Informações, comentários e curiosidades sobre surfe – a modalidade que tem o Brasil como novo protagonista – e outros esportes praticados no mar.

Yuri Soledade: ‘Eu sabia que aquela era a onda da minha vida’

Por Renata Lucchesi Atualizado em 30 jul 2020, 23h23 - Publicado em 4 mar 2016, 13h28

O baiano Yuri Soledade pega uma bomba em Jaws (Foto John Patao)

No dia 25 de fevereiro de 2016, alguns dos melhores surfistas do mundo em ondas gigantes disputavam o campeonato em memória do surfista Eddie Aikau, o mais tradicional evento da modalidade, na ilha de Oahu, no Havaí. Enquanto isso, Yuri Soledade encarava paredões de água ainda maiores em outra parte do arquipélago norte-americano: Jaws, na ilha de Maui. Algo relativamente comum nos últimos quinze anos de vida do baiano, que, ao lado dos conterrâneos Danilo Couto e Márcio Freire,provou ser possível surfar os paredões de Jaws na remada, sem o auxílio de um jet-ski. Pelo feito, o trio ficou conhecido pela alcunha de Mad Dogs (cachorros loucos, na tradução do inglês).

Desta vez, porém, nem mesmo um dos Mad Dogs teve a coragem de encarar tamanha ondulação sem ajuda. Impulsionado pelo fenômeno climático El Niño, o swell era tão grande que Yuri apostou no tow-in, modalidade em que o surfista é rebocado por uma moto náutica. A decisão não poderia ser mais acertada: o baiano acabou pegando a maior onda de sua vida (embora a medição oficial ainda não tenha sido divulgada). Pelo feito, ele agora concorre ao Big Wave Award, uma espécie de Oscar para premiar os surfistas que encaram as ondas mais monstruosas da temporada. Em entrevista ao blog, Yuri contou tudo sobre a onda que não sai de seu pensamento.

Passada uma semana daquela onda, você já conseguiu sair do estado de êxtase e voltar ao normal? Não, e nem sei se vou conseguir voltar ao normal algum dia. A onda volta à minha mente o tempo todo. A energia que eu senti naquele momento, ao completar aquela onda, me mudou para sempre. É muito difícil descrever essa sensação, mas eu estava em total harmonia com a natureza. Eu consegui usar toda aquela energia do oceano e sair completamente ileso. É uma experiência muito superior a qualquer outra que já tive.

Como você percebeu que aquele dia seria ainda mais especial? Este inverno está excepcional, com um swell maior que o outro desde o início de janeiro. Mas, realmente, o do dia 25 foi histórico. Eu estou no Havaí desde 1994 e nunca vi nada assim. Geralmente, a ondulação se forma no mapa de previsões e, com o tempo, vai perdendo força. Só que no dia 19, quando o Brock Little, lenda das ondas gigantes, morreu, de alguma forma aconteceu exatamente o contrário: o swell começou a ganhar força, cresceu e virou essa monstruosidade. Quem gosta de onda grande espera a vida inteira para conseguir presenciar um momento como esse, então eu só posso estar muito feliz por fazer parte disso.

E como funciona esse momento de espera, de acompanhar as previsões? É um sentimento cheio de altos e baixos. Você vai acompanhando desde o nascimento de um swell e tem horas que fica muito feliz porque será incrível. No entanto, em alguns momentos bate o medo. O medo por você, pelos seus amigos, medo até dos desastres que uma ondulação dessas pode causar. Mesmo com medo, é muito excitante, porque a gente vive para isso, vive para essa adrenalina. É até meio viciante.

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Por falar em medo, há espaço para esse sentimento dentro da água, quando você vê uma onda enorme se formando? Pra mim, o medo bate antes de entrar no mar. Quando entro na água, eu esqueço. O pior momento é a noite anterior, quando você não sabe o que vai acontecer. Naquela noite, por exemplo, eu estava ansioso e não dormi nada, mas quando eu entrei no mar, na minha cabeça estava o pensamento de que eu merecia aquilo.

Confira a onda surfada por Yuri Soledade, que concorre ao Big Wave Awards:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=TWlo5LBBJu8?feature=oembed&w=500&h=281%5D

Você consegue descrever tudo que aconteceu naqueles segundos? A onda é tão curta, mas quando estamos nela parece uma vida, uma eternidade. Aquela foi a primeira do dia e eu não estava preparado, porque eu não usava aquela prancha há muito tempo e o ajuste no pé ainda não estava perfeito. No momento em que eu vi a onda, eu sabia que seria gigante. Eu nunca tinha visto uma formação que vem fechando de ponta a ponta a baía de Jaws, e essa fez exatamente isso. Uma onda desse tamanho tem tantos ‘degraus’ (o impacto causado pelas quedas abruptas durante a descida), tanto movimento, que você precisa ter uma sensibilidade muito grande. Se você colocar muita pressão na sua perna, a prancha vai bater em um ‘degrau’ desses e vai parar, e você vai cair pra frente. Se você não coloca pressão suficiente, você vai muito rápido e vai cair também. Então você tem que achar a pressão exata e mantê-la o tempo todo. Um outro problema foi que, a cada degrau que eu batia, meu pé soltava um pouco mais da alça da prancha. Se ele saísse completamente, eu ia cair de cara na água. Como eu surfo de costas para a onda, eu não consigo ver o que está vindo. Em um único momento eu virei meu pescoço e olhei para o lado, e a surpresa não foi boa: a onda já estava fechando no canal e querendo quebrar. Naquele momento eu pensei: ‘meu Deus, eu tenho que acelerar, ganhar muita velocidade pra sair daqui’. Então eu fui bem em cima da onda e ganhei velocidade para descer de novo, como se fosse um segundo drop. Ali eu quase caí pra trás, porque não estava preparado para tanta velocidade.

Muitos especialistas já estão falando que foi a maior onda da história. Qual é a sua opinião? Eu não acho que foi a maior da história. Uma das maiores dificuldades para ler a altura dessa onda ocorre porque eu não cheguei à base dela, e é nesse momento em que se mede o tamanho. Só que, ali, se eu fosse até a base, eu teria caído. E eu também não gosto de comparar com outras ondas, porque são momentos diferentes. O que eu posso dizer com certeza é que foi a maior da minha vida.

Você, ao lado do Márcio Freire e do Danilo Couto, foi um dos primeiros a surfar Jaws na remada, que é a sua grande paixão. Mas foi com o tow-in que você pegou a onda da sua vida. Dá para escolher entre os dois? Para mim, remada e tow-in são esportes diferentes e cada um tem o seu momento. Eu ainda prefiro a remada, que tem um sentimento de prazer muito puro, mas hoje eu sei que existem certos dias que precisamos do tow-in para pegar as maiores. No dia 25, algumas pessoas até remaram, mas apenas nas menores da série. Eu olhei para o mar e falei: ‘dessa vez, se eu quiser pegar a melhor, eu vou ter que usar o jet-ski’. Não existe, ainda, condições para pegar uma onda como a minha sem esse auxílio. O tow-in é uma coisa bem legal porque rola uma parceria, é mais um time. E a responsabilidade é maior. Você pensa: ‘pô, e se eu colocar o cara em uma onda gigante, ele cair e eu não conseguir resgatar?’. A vida de outra pessoa está na sua mão.

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