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Mundo Agro

Por Marcos Fava Neves
De alimentos a energia renovável, análises sobre o agronegócio
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O grande ganho de produtividade nos grãos

Diversos fatores transformaram o Brasil num dos maiores fornecedores de alimentos do mundo

Por Marcos Fava Neves
Atualizado em 10 Maio 2024, 08h19 - Publicado em 26 out 2023, 15h40

Nas últimas três décadas, testemunhei uma incrível transformação do agronegócio brasileiro. Com notável ganho de produtividade e eficiência, o desenvolvimento da agropecuária contribuiu para tirar o Brasil do status de “importador de alimentos” para um dos maiores “fornecedores” em nível global.

O caso dos grãos é emblemático. A produção anual era de 68,5 milhões de toneladas em 1992/93 e passou a 322,5 milhões de toneladas nesta última safra (2022/23), quase 5 vezes maior. Este crescimento veio em função de fatores como a alta na produtividade, que saiu de 1.196 kg por hectare nos anos 90, para 4.107 kg por hectare neste último ciclo. A expansão da área cultivada também contribuiu, saindo 35,6 para 78,5 milhões de hectares nestes 30 anos.

O Brasil não ampliou seus campos apenas via abertura de novas áreas ou conversão (quando se substitui a pecuária, por exemplo, por agricultura), mas, também, por meio da expansão dos cultivos de sucessão, que é quando a mesma área é utilizada para uma 2ª ou 3ª safra, em um mesmo ano. A CONAB estima que as áreas de 2ª e 3ª safra estejam próximas de 26,6 milhões de hectares, 1/3 de toda a área plantada. Se considerarmos apenas a área utilizada na safra verão (1ª safra, o principal período de cultivo), são cerca de 52,1 milhões de hectares, apenas 46,3% a mais do que a área utilizada em 1992/93. Resumindo: a produção cresceu quase 5 vezes e a produtividade mais do que dobrou, enquanto o crescimento da área teve como fundamento a melhor utilização da terra, e não apenas a extensão territorial.

À medida que o Brasil reutiliza suas áreas em um mesmo ano, costumo brincar que parte dos nossos concorrentes faz bonecos de neve. Hoje, quase 80% do milho produzido é em 2ª safra, em área de sucessão com a cultura da soja. Ainda assim, nosso país consegue ser o 3º maior produtor global (10,6% do mercado) e o principal exportador (30,4% de participação) do cereal. No caso do feijão, 68,8% da produção é também cultivada em 2ª ou 3ª safras, graças a áreas irrigadas e cultivares adaptados.

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Como foram possíveis (a) os ganhos de produtividade das lavouras e (b) o cultivo de sucessivas safras em um mesmo ano? Pela combinação de diversos fatores, que incluem: 1) o desenvolvimento de plantas com ciclos mais curtos e adaptadas as diferentes regiões do país; 2) a correção e ajuste da fertilidade dos solos para produção em áreas antes inférteis; 3) o desenvolvimento de fertilizantes, estimulantes e outros produtos que são absorvidos pela planta (nutrição); 4) o desenvolvimento de variedades de plantas resistentes e/ou tolerantes a pragas e doenças; 5) a adoção de máquinas, equipamentos e agricultura de precisão para melhorar o uso dos recursos no campo; 6) digitalização, uso de aplicativos e conectividade; entre outros.

Todos estes itens só foram possíveis graças aos esforços de pesquisadores e cientistas da Embrapa, das universidades, das organizações públicas e privadas de desenvolvimento e extensão rural, a resiliência de nossos agricultores e o esforço de milhares de profissionais. Aumentar a produtividade é fundamental para atender à crescente demanda por alimentos em todo o mundo, melhorar a segurança alimentar e reduzir a pressão sobre a expansão de novas terras agrícolas.

Para gerar mais de R$ 1,15 trilhão no VBP (Valor Bruto da Produção) em 2023, e exportações de mais de US$ 160 bilhões, o agro tem usado ao redor de 250 milhões de hectares por ano, entre grãos, pastagens, florestas plantadas, cana, café e outras. Isso corresponde a 29% do total de 850 milhões de hectares da área do país.

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Com tecnologia, é possível expandir a área de grãos em 20 milhões de hectares nos próximos dez anos, sem usar sequer um hectare a mais. Basta avançar mais 10 milhões em 2ª safra e outros 10 milhões em áreas de pastagens, sem prejudicar o crescimento necessário na produção de carne bovina, que pode ser intensificada. Poucos lugares no planeta conseguem fazer isto, e investidores internacionais estão cada vez mais apostando nesta possibilidade para que o Brasil possa se consolidar com o fornecedor mundial sustentável de alimentos, continuando a contribuir para a redução da fome no planeta, como fez nos últimos 30 anos e, com isto, gerar mais oportunidades de trabalho e interiorizando o desenvolvimento econômico e social do Brasil.

 

Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) da FGV (São Paulo – SP) e fundador da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em harvenschool.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves). Agradecimentos a Vinicius Cambaúva e Rafael Rosalino.

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