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Vozes da guerra: a visão de ucranianos e russos comuns sobre o conflito

Cidadãos que sofrem os efeitos da invasão ou que, do outro lado, acompanham seu desenrolar oferecem uma janela para o que o povo está pensando

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 4 abr 2022, 05h53 - Publicado em 4 abr 2022, 05h52

A retirada russa, a reconquista de um cinturão de pequenas localidades em torno de Kiev, a revelação de atrocidades hediondas e outros acontecimentos da guerra na Ucrânia levam multidões de especialistas a fazer análises políticas e militares que nos ajudam a compreender a enorme complexidade das questões envolvidas.

Mas sempre é bom acompanhar o que as pessoas comuns estão pensando, convencidas pelas propaganda oficial, arredias a ela ou simplesmente espantadas com o horror que testemunham.

A seguir, uma pequena amostra destas reações levantadas por diferentes órgãos de imprensa nas últimas semanas:

“Minha cabeça não consegue entender como é possível esta guerra com tanques e mísseis. Contra quem? Contra civis inocentes? É a barbárie em estado puro”, Olena Volkova, diretora do hospital de Trotianets, um dos locais desocupados pelas tropas russas, falando ao New York Times. Foram encontradas na localidade vinte pessoas executadas antes da retirada.

“Esta pessoa foi morta sob tortura. As mãos e as pernas dele estão amarradas com fita adesiva, perdeu os dentes e seu rosto todo desapareceu. Não sabemos o que queriam dele”, a mesma médica, apontando um corpo no necrotério local.

“Eles foram de apartamento em apartamento, pegando televisões e computadores e colocando nos tanques para ir embora. Estavam com pressa”, Svetlana Semenova, moradora de Bucha, outra localidade abandonada pelos russos, ao Dnyuz.

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“Todas as pessoas levaram um tiro na nuca. Famílias inteiras foram mortas. Crianças, mulheres, avós. Este é o resultado da ocupação russa”, Anatoli Fedoruk, prefeito de Bucha, calculando em 280 o número de sepultados em valas coletivas na localidade.

“Vodka não”, soldado ucraniano anônimo em vídeo no qual moradores de um vilarejo rural oferecem aos libertadores o pouco que tinham, incluindo a bebida feita em casa.

“Eles estão nos dizendo que a Ucrânia está tentando entrar para a Otan e que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde; a Ucrânia então tentará recuperar a Crimeia, os Estados Unidos irão apoiar e acabaremos lutando contra eles. E todo mundo sabe que isso significaria: armas nucleares. Para evitar esta guerra, é necessário varrer a Ucrânia da face da terra. Melhor que morram cem mil do que acabe o mundo. É essencialmente o que Putin está nos dizendo. Não consigo avaliar. Pertenço ao mundo da cultura. Aprendi que toda vida tem valor incalculável”, Dimitri Likin, que pediu demissão como diretor de arte do Canal Um, estatal onde trabalhou durante vinte anos, ao site Meduza.

“As pessoas não querem matar ou ser mortas. Não é isso que dizia seu contrato de trabalho. Além do mais, eles não sabem operar mísseis terra-ar e conduzir tanques”, Mlkhail Benyash, advogado que diz já ter sido procurando por cerca de 200 membros da Guarda Nacional russa que não querem ir para a guerra, ao Meduza.

“Estamos nos virando. Ontem comemos Alabay”, conversa de um soldado russo com a esposa, interceptada por ucranianos. Alabay é uma raça de cão pastor.

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“Parei de falar com o meu pai. Ele disse que sou um traidor e deveria ser o primeiro a ser fuzilado”, Vladimir Miroshnik, estudante de ciências políticas sobre a relação complicada com o pai por causa de sua oposição à guerra, ao Moscow Times.

“Minha família só acredita em fontes do governo. Quanto mais dura a ‘operação’, mais ficam radicalizados. Já acham normal a morte de civis e desejam a morte das autoridades ucranianas. Parece os dois minutos de ódio do livro 1984”, outro moscovita que falou ao site, anonimamente.

“Kirill foi um guerreiro de Cristo. Ele lutou contra o mal, contra espíritos satânicos: nazistas ucranianos criados pelas multinacionais americanas”, Gennady Zaridze, padre ortodoxo, no enterro de um jovem soldado russo morto na Ucrânia, também no Moscow News.

“Ele morreu heroicamente não em guerra com a Ucrânia, não em guerra contra o exército ucraniano, mas numa batalha do bem contra o mal. Fez tudo o que foi possível para que o bem ganhasse”, Dmitri Maslov, na mesma cerimônia fúnebre. Ele é líder distrital da região onde morreu o soldado e ex-agente do FSB, o serviço de inteligência.

“Nós, cristãos, não podemos ficar parados quando irmão mata irmão, cristão mata cristão. Não repitamos os erros daqueles que louvaram Hitler em 1 de setembro de 1939”, Ioann Burdin, padre ortodoxo detido e processado por criticar a guerra.

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“Ai, meu Deus, eu queria cuspir e bater neles”, Iedokia Koneva, moradora de Trotianets, ao New York Times. depois da retirada russa.

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